Mais sobre burocracia

Para o historiador Hans Jonas, a queda do império persa, derrotado por gregos e destruído por Alexandre, foi causada pela burocratização. Ineficiente, por isso incapaz de fazer frente a adversários numericamente inferiores. Análises semelhantes cabem com relação à decadência do império romano. Para os moralistas tradicionais, a causa teria sido a depravação. Coisa nenhuma, pois o império atingiu sua extensão máxima e o apogeu da prosperidade sob Trajano e Adriano, por volta de 100 d.C; portanto, após devassos inigualáveis como Nero e Calígula. Além da instabilidade política, das sucessões resolvendo-se através de confrontos entre lideranças militares, aquela extensão territorial obrigou a manter uma burocracia cada vez mais pesada e ineficiente. Drenando recursos, obrigando à tributação extorsiva, seu custo piorou a distribuição de renda, acentuou a desigualdade social e provocou o colapso. Desconfio que esse enfoque também ajudaria a interpretar o colapso asteca (inexplicável, segundo Spengler). E crises chinesas, do Império do Meio. Além, é claro, do fracasso soviético.

É isso o que nos reserva o futuro? Não aprendemos com as lições da história? Continuo outra postagem. Esta: https://claudiowiller.wordpress.com/2013/11/12/a-burocracia/ .

Havia observado que o relato de absurdos poderia estender-se. Estendo-o. Agora, algo sobre universidades. (Em tempo, acrescentado a 01/12: vejam o relato de Eduardo Ribeiro Toledo, nos comentários a este post) (e também o comentário de Cezar Bergantini – pedirem atualização de atestado de óbito é, sem dúvida, paranormal)

a)      Uma, federal – como não vinha o pagamento combinado por minha palestra, o professor que me convidou foi verificar o que estava havendo. Disseram-lhe que faltava eu assinar um documento – que ninguém me mostrou, precisaria ter adivinhado. Chegou anexado ao e-mail. Colei a assinatura digitalizada e mandei de volta. Não, responderam – tinha que ser do próprio punho. Assinei e postei por sedex. Uma declaração de que eu havia estado lá e dado a palestra. Algo inútil, completamente redundante, pois é óbvio que estive lá, e ademais quem deveria declarar que dei a palestra, direitinho, seria o departamento que me convidou, não eu. Vezo burocrático de juntar papel.

b)      Outra federal – ano passado, ajuda de custo por ter sido banca de tese dando voltas, passando de um funcionário para outro, nenhum sabia dar andamento.

c)      USP… Professores que se deixam de burocracia tomar-lhes mais tempo que ensino e pesquisa… Ponto alto, a ocasião em que fui à ECA, pedir certificado de que havia ministrado dois semestres de pós-graduação como professor convidado em 1987 – segundo a funcionária que me atendeu, impossível, documentos haviam sido destruídos em um incêndio, por isso não havia como comprovar. E eu com isso? Não podiam pedir declaração a algum chefe de departamento? Incêndio, esse, foi em 2001, já havia como verificar algum modo de repor informação perdida.

d)     Escola de Sociologia e Política, mesma coisa – fui lá, pedi segunda via do meu bacharelado, funcionária me disse que não seria possível, pois documentos antigos haviam sido guardados, ninguém mais sabia onde estavam. É claro que, nos dois casos, podia ter chamado um advogado, ameaçado com alguma providência, afinal, trata-se de um direito meu. Confluiriam duas burocracias, a jurídica e a universitária, fazendo-me perder mais tempo ainda. Espanta-me a naturalidade com que dizem essas coisas, que não tem, não pode, e ponto final. Um Procon para cuidar de burocracias inoperantes? Ouvidorias?

e)      Melhor, esse episódio: um intelectual conhecido, admitido na USP. Doutorado dele havia sido em Yale. Diploma de doutorado de Yale é em latim. Secretaria do departamento pediu tradução juramentada do diploma de Yale. Na Letras USP, rodeado de professores de latim, mas não, exigência da casa ou do MEC, sei lá, tem que ser tradutor juramentado, por mais que o texto do diploma seja óbvio. Até achar um tradutor juramentado do latim, rodou bastante.

Minhas reclamações da burocracia não são apenas por causa do desconforto e perda de tempo. No caso das universidades, atrasa a produção do conhecimento. Em outros campos, não evita desastres, como temos visto. Complica atendimento médico – há gente morrendo de burocracia, não de câncer ou infarto. Acesso à educação, obras de infraestrutura e o restante. A justificativa: evitar desvio de recursos. Como é inócua. São Paulo é uma cidade edificada sobre fraudes na fiscalização. Assistimos a episódios como esse, recente, do helicóptero de um parlamentar sendo utilizado para transportar cocaína, o combustível pago com verba pública.

A propósito, recentemente postei algo sobre correios, que agora atrasam sistematicamente entrega do caro sedex. https://claudiowiller.wordpress.com/2013/09/12/em-favor-da-privatizacao-dos-correios/ Reparem que falei em privatização como hipótese. Comentários, aprovando. Um, dizendo que estava querendo tirar o pouco que nos restou. Sim – choro todo dia, empapando lenços com lágrimas pelas irreparáveis perdas da Mafersa, Coelba, Cobrasma, Cosinor e outras siglas. Empresas privadas não são boazinhas. Basta experienciar o atendimento pelas concessionárias – por exemplo, esse incrível sistema de reconhecimento de voz pela atual telefônica, só para não precisar contratar funcionários. Cornelius Castoriadis, criador junto com Claude Lefort do movimento ‘Socialismo ou barbárie’, havia publicado artigo, há décadas, sobre a União Soviética como burocracia total, em contraste com a burocracia parcial do capitalismo. Em alguns países de orientação mais pragmática, o peso do estado é grande – mas funciona. É questão de querer chegar lá, começando pela crítica às aberrações e denúncia dos retrocessos, dos micropoderes burocráticos tentando recuperar espaço ou, quando possível, ampliá-lo. A propósito, aquela incrível repartição de Florianópolis, a que cuida de cadastros, comentada na postagem anterior sobre burocracia – aquilo ainda continua lá do mesmo jeito?

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4 responses to this post.

  1. Professor, para seus tópicos em letras, relacionados à area acadêmica, aproveito para dizer que, talvez, pior do que a burocracia, seria o retrocesso do conhecimento. Fiz um mestrado nos EUA com o mesmo número de créditos exigidos aqui. Fiz uma tese em direito sobre “Food Law”. Mas, para reconhecimento do MEC, tenho que encontrar universidade federal que disponha de linha de pesquisa similar. E não há. No mestrado, conheci que o corante “amarelo tartrazina” provoca reações alérgicas e, nas crianças, irritabilidade e excitação (balas, etc.). No Chile e Argentina, a lei estipula que a rotulagem do corante tem que vir marcada em negrito nos produtos. A Anvisa diz que não há bases científicas (lobby? Todo os países seguem este procedimento?). Voltando para a validação do curso superior, alguns dizem que a burocracia é uma forma de incentivar (ou isolar) a produção de conhecimento nacional. Para validar meu diploma ‘stricto sensu’, impediram até a burocracia de fazer o país avançar na área do conhecimento científico. Obrigado.

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  2. Posted by Ieda Estergilda on 02/12/2013 at 09:58

    Excelentes testemunhos, Willer, embora tristes pelo que tratam em si, essa vergonha nacional que a burocracia em todos os nveis, mais ainda por se aplicar cultura,como se no bastassem os tantos outros obstculos. Por isso que muitos preferem ficar margem. Grata por compartilhar, abrao.

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  3. Posted by Cezar Bergantini on 03/12/2013 at 13:05

    Burocracia é necessária à gestão e ao controle de atividades. Mas não pode ser excessiva nem irracional, senão vira veneno em vez de remédio. Transforma-se no próprio mal que deveria combater. Claro que muitos ganham, e muitos mais perdem com isso. Por falar em irracional, recentemente descobri que precisaria tirar um atestado mais atualizado do óbito de meu pai. O que eu tinha, de 5 anos atrás, perdera a validade. Como eles descobriram que meu pai ressuscitava de vez em quando, não sei. Mas descobriram. Ou desconfiaram.

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