Mais de Antonin Artaud

A “Carta ao papa” de Artaud é dos posts mais visitados neste blog. Também publiquei algo, aqui, sobre o reencontro de Artaud e Breton. Agora, foi postado no Facebook, por Celia Musili, outro dos textos de Artaud de 1925, sobre proibição de drogas. E, nos comentários, um trecho da carta aos psiquiatras, chefes dos hospícios. Reproduzo-os. Presente de 2014: que fosse reeditada essa minha coletânea, Escritos de Antonin Artaud. Continua valendo.

SEGURANÇA PÚBLICA
A liquidação do ópio

“Tenho a intenção declarada de encerrar o assunto de uma vez por todas, para que não venham mais nos encher a paciência com os assim chamados perigos da droga.
Meu ponto de vista é nitidamente anti-social. Só há uma razão para atacar o ópio. Aquela do perigo que seu uso acarreta ao conjunto da sociedade.
Acontece que este perigo é falso.
Nascemos podres de corpo e alma, somos congenitamente inadaptados; suprimam o ópio: não suprimirão a necessidade do crime, os cânceres do corpo e da alma, a inclinação para o desespero, o cretinismo inato, a sífilis hereditária, a fragilidade dos instintos; não impedirão que hajam almas destinadas a seja qual for o veneno, veneno de morfina, veneno de leitura, veneno de isolamento, veneno de onanismo, veneno de coitos repetidos, veneno de arraigada fraqueza da alma, veneno de álcool, veneno de tabaco, veneno da anti-sociabilidade. Há almas incuráveis e perdidas para o restante da sociedade. Suprimam-lhes um dos meios para chegar à loucura, inventarão dez mil outros. Criarão meios mais sutis, mais selvagens; meios absolutamente desesperados. A própria natureza é anti-social na essência – só por usurpação de poderes que o corpo da sociedade consegue reagir contra a tendência natural da humanidade. Deixemos que os perdidos se percam: temos mais o que fazer que tentar recuperação impossível e ademais inútil, odiosa e prejudicial.

Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero.”

[…] e o que é um autêntico louco? É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana. Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis

Outros posts aqui, sobre Artaud:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/03/01/a-carta-ao-papa-de-artaud-e-alguns-comentarios/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/10/06/antonin-artaud-o-ensaio-e-mais/

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3 responses to this post.

  1. Felizmente tenho sua coletânea dos textos de Artaud! A reedição de fato seria um grande presente para todos! Te desejo um 2014 com muita poesia. Grande abraço.

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  2. Posted by Diogo Parra (@d_parra) on 28/12/2013 at 16:28

    Não sei se as drogas são meio eficaz para o homem tentar se livrar do desespero. Se entendermos que não e que, pelo contrário, intensificam o desespero, parece-me que a premissa da defesa feita pelo Artaud cai por terra.
    Um abraço, Willer. Parabéns pelo blog ativo, que sempre acompanho.

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  3. Posted by Ulysses Dutra on 30/12/2013 at 03:40

    Muito legal seu blog Cláudio. Conheci Artaud através de suas traduções e os beatniks através do caderno JAM na estimada Chiclete com Banana. Um abraço

    Resposta

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