Colorado e França; maconha e prostituição

Paradoxal.

Em outros tempos, da belle-époque aos anos de 1960, norte-americanos iam à França por Estados Unidos serem demasiado caretas. Lá fora, podiam ser boêmios, beber à vontade durante a Lei Seca. Negros, jazzistas e escritores, não eram segregados. Idem, britânicos, gays a exemplo de Oscar Wilde, para livrar-se da repressão vitoriana. Dava para tomar de tudo e fazer orgias, desde o Impasse Doyenné em 1836 e o Ateliê da Rue Pimondan de Gautier, Baudelaire & friends, sede do Clube dos Haxixins e dos paraísos artificiais, até o Beat Hotel de Ginsberg e sua turma.

Agora virou. Proibiram clientes de prostitutas na França –nova legislação inspirada no politicamente correto. Se a intenção era impedir exploração, o certo teria sido regulamentar, reconhecer a categoria das profissionais do sexo.

Nos Estados Unidos, o estado do Colorado e sua capital Denver, onde o comércio da maconha acabou de ser legalizado, nunca foram um pólo da contracultura a exemplo de Nova York e San Francisco. Mas de lá saiu Neal Cassady. Denver é cenário de passagens importantes de On the Road de Jack Kerouac. Foi celebrada neste verso de Uivo de Allen Ginsberg:

que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retomaram a Denver & esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está com saudades dos seus heróis,

Em 1975, quando ninguém apostava na continuação da geração beat, Ginsberg voltou ao Colorado, abriu o Naropa Institute em Boulder – hoje é Naropa University.

Uma boa crônica de Gilles Lapouge, em O Estado de São Paulo de 03/01/2014, contrasta a repressão francesa à abertura no Colorado, entre outros lugares:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-franca-e-a-maconha-,1114474,0.htm

Subentendida, uma decadência francesa? Talvez – ser reduto boêmio contribuiu para que Paris se tornasse capital cultural.

Análise precisa de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo de 05/01/2014, sobre comercialização da maconha:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2014/01/1393461-maconha-inc.shtml

Pragmático. Simples assim: basta calcular o que custa mais, provoca mais danos: combater a ferro e fogo ou ir liberando.

Filas nas portas dos novos estabelecimentos comerciais no Colorado? Todo mundo querendo experimentar? Acredito que será – e também no Uruguai e nos outros lugares que adotam legislações progressistas – igual ao que aconteceu aqui em meados da década de 1980, quando a censura à nudez retrocedeu. De repente, bancas inteiramente recobertas de revistas pornô, oferecendo todas as modalidades e posições. Parecia o grande negócio. Moralistas bufando, consternados. Depois normalizou-se, estabilizou. Quantidade de tarados e tipos inconvenientes não tem relação com acesso à pornografia. Prostituição infantil continua a prosperar por aqui, mas isso não apresenta relação com o que é publicado.

Cracolândia, na confluência da Rua Helvécia, Alamedas Cleveland e Dino Bueno, em São Paulo (há outros lugares, opcionais): quem nunca foi precisa conhecer. Merece visitação turística. Visite guidée. O guia apontaria para a multidão constituída por destroços humanos e diria: “Olhem. Este é o resultado da proibição. Meio século de guerra ás drogas deu no que vocês estão vendo.”

Dos defensores do proibicionismo, dos que objetam a essas liberações parciais, experimentais – a meu ver, tendência irreversível, nem que seja pela falta de alternativas – eu exigiria um mínimo de apreço pela linguagem; pelo uso correto das palavras, respeitando significados. Como assim, proibição, se drogas estão sendo vendidas em sistema de feira livre? Na cara de todo mundo?

Quando Ginsberg mostrou que o problema não estava nas drogas, mas na proibição , que gera o tráfico, sua argumentação parecia delirante. Profeta. Já havia comentado:

https://claudiowiller.wordpress.com/tag/marcha-da-maconha/

https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-wall-street/

Não sou adepto, disse em outras ocasiões. Sensação de levar 40 minutos para descer 5 andares de elevador, não gosto. Qualquer hora, resgato crônica antiga sobre procurar sorveteria que tinha um magnífico banana split e encontrá-la fechada, que frustração. Minha posição não é a favor das drogas, porém contra a hipocrisia.

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5 responses to this post.

  1. Posted by Antonio Carlos Fester on 07/01/2014 at 21:06

    òtimo abração Fester

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  2. Que decadência da França!! Vai refletir nas artes… questão de tempo. Fim dos malditos, ascensão da reader´s digest way of life…

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  3. Amiga minha que está estudando na França me disse que eles estão bem caretas mesmo, ela estranhou muito, foi esperando farra e encontrou uns bitolados que dormem cedo e tal… Agora, esperemos que a experiência uruguaia dê algum impacto aqui também, quem sabe. E sim, publique a história da banana split, gerou curiosidade!

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  4. Ah, também poderia, hora ou outra, dar prosseguimento à série sobre ocultismo, escritores, magos e afins… gostamos muito de ler seus pareceres sobre. =)

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  5. Ótimo e oportuno artigo. Os homens sempre gostam de reprimir o comportamento dos outros homens. Aguardamos a banana split!

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