Notícias do Maranhão

Nota da Secretaria Estadual de Comunicação do Maranhão: “Divulgar esse tipo de gravação é repudiante, pois só corrobora com uma ação no mínimo criminosa” [sic, etc]. É sobre um vídeo que circula através do jornal Folha de São Paulo. Feito por presidiários em Pedrinhas, São Luis, exibe outros presos, torturados e mutilados antes de serem degolados.

Conforme o procedimento de mensuração, índices de analfabetismo funcional no Brasil chegam perto de 70%. No Maranhão, são piores. Devem, suponho, incluir teste da identificação de vocábulos que não existem, como “repudiante”, e capacidade de não confundir com “repugnante”; nem “corrobora” com “colabora”. Tais índices podem ter relação com o estado de coisas na região. Compra de grande quantidade de lagostas pelo Palácio do Governo, conforme também divulgado, não contribui para melhorar capacidade de leitura e expressão por escrito. Nem para reduzir violência.

Acontecimentos nesse presídio, inclusive as 60 mortes, decapitações e sessões de sexo, têm valor científico. Em Psicologia Social, reforçam os estudos clássicos (dos anos de 1960) por Zimbardo, sobre comportamento carcerário. Interessam, também, à semiologia e teoria literária. Roland Barthes, no livro Sade, Fourier e Loyola, argumentou que as perversidades e façanhas sexuais na obra do Marquês de Sade são de um “irrealismo preparado”, impossíveis, fisicamente impraticáveis; através delas, “as impossibilidades do referente são convertidas em possibilidades do discurso”. Estava errado, como o demonstra a miserável réplica tropical do castelo de Silling, local das farras do Duque de Blangis e comparsas em “Os 120 dias de Sodoma”. Há divergência entre Barthes e Georges Bataille. O pensador da transgressão tomava Sade ao pé da letra, fazia leitura literal. Tinha razão, o Maranhão o comprova. Também de Bataille, a identificação do gozo ao horror.

O Maranhão tem vida literária ativa, bons escritores. Não estão, percebe-se, na Secretaria de Comunicações do governo estadual. Última vez em que estive lá, março de 2011, dei curso na UFM sobre surrealismo. Primeira vez foi em 1964. Magníficas praias desertas, agora margeadas por prédios de apartamentos, réplica suntuosa de Miami e do Guarujá. Entre os moradores, certamente, beneficiários dos negócios feitos em Pedrinhas; e captadores de recursos que deveriam ir para segurança pública, melhora do sistema prisional e, é claro, da alfabetização. O esgoto captado pela rede é despejado na baía de São Marcos, 100% sem tratamento.

Houve outra vez anterior em que estive, final de 1989. Convidado ao lançamento do Instituto da Língua Portuguesa, por ser presidente da UBE. No coquetel de encerramento, fiquei cara a cara com José Sarney, cumprimentei-o pela preservação do centro histórico de São Luis. Não toquei em outros temas, sou educado em ocasiões protocolares. Ninguém falava com ele, evitavam-no como a um empesteado por aquele final de governo desmoralizante, os 80% de inflação e o restante. Como se recuperou. Em 1964, na minha primeira visita, Sarney liderava um movimento de renovação em seu partido, a UDN, a “bossa nova”, para substituir o oligarca precedente, Vitorino Freire do PSD.

Foto minha descendo o rio Pindaré naquele 1964 (50 anos …! carajo!, como dizia a Petroperu) está no facebook. Tenho outras fotos lindas captando a luminosidade na baia de São Marcos, além de antigas fachadas e Alcântara, então cidade-fanstasma – slides, dar um jeito de por em circulação. Escrevi páginas de prosa poética sobre a magia das cidades em ilhas, tinta borrou, ficou ilegível – vou tentar decifrar. Escrevi também uma crônica, sobre um americano, técnico em prospecção de petróleo a serviço da Petrobrás que me falava de um amigo dele, beatnik, leitor de Baudelaire. Retratei-o como profeta, pela importância que Baudelaire teria para mim, mais tarde. Não publiquei porque não sabia como terminá-la. Agora sei. Vai ser sobre contrastes.

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