Rolês, outras manifestações e o regime de apartheid

Na partida final do Campeonato Brasileiro, Atlético PR versus Vasco em Joinville, a 8 de dezembro do ano passado, a PM ficou do lado de fora. Só entrou com o massacre consumado, depois de racharem crânios de torcedores. Atendeu à orientação do Ministério Público: tratando-se de evento particular, a responsabilidade pela segurança seria do mandante do jogo, o Atlético.

O inverso da autorização de ação policial, resultando na repressão de ajuntamentos de jovens no Shopping Itaquera e outros, ontem.

De duas uma. Ou é para atuarem como segurança de instalações privadas, ou não. Agentes públicos, magistrados e policiais, deveriam atender minimamente ao princípio lógico da identidade e não-contradição. Tentar mostrar que não estão aí apenas para defender interesses comerciais e sancionar a separação de classes, com desempenhos como este:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/01/1396629-video-mostra-pms-agredindo-jovens-em-rolezinho-dentro-no-shopping-itaquera-em-sp.shtml

Logo empresários que pediram liminares e chamaram a polícia perceberão o erro. Prejuízos serão maiores do que se deixassem rolar. Passeios coletivos em shoppings poderão ampliar-se e alcançar outros lugares, juntando mais gente. Foi assim em junho do ano passado: manifestações ganharam corpo e apoio depois da repressão às primeiras passeatas.

Proprietários de shoppings, lojistas e autoridades não leram o artigo de André Singer na Folha de São Paulo de ontem, 11/01, observando “demanda igualitária” através dos rolês. Ou leram, mas não entenderam. Talvez tenham lido, mas não deram importância. Desconhecem o idioma afrikaander, no qual “apartheid” significa separação, nome do regime em vigor na África do Sul até 1994:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/andresinger/2014/01/1396234-apartheids-no-pais-da-copa.shtml

Já em São Luis do Maranhão, manifestantes apanharam da polícia ao exigirem melhoras na segurança pública, protestando contra as ações de criminosos. Pediam mais segurança e menos lagostas:

http://tv.estadao.com.br/videos,MANIFESTANTES-PROTESTAM-CONTRA-A-ONDA-DE-VIOLENCIA-EM-SAO-LUIS,222690,0,0.htm

Ao reprimirem desse jeito, autoridades e polícia tomaram posição contra a segurança e em favor das lagostas. Imaginem se fossem fazer um “rolezaum”, perturbando  a elite local. Roseana Sarney declarou que “não existe oligarquia” – portanto, ela não existe.

Maranhão é metáfora, microcosmo exacerbado do Brasil. Impedirem esse tipo de passeata é coisa de ditadura brava.

A propósito, transcorrem exatos 30 anos hoje do comício pró-diretas, em Porto Alegre – estava lá, também fui, depois, aos da Praça da Sé e do Anhangabaú. Mas esse, o primeiro, foi por acaso, havia apresentação da minha tradução de Ginsberg, passeava pelo centro da cidade e dei de cara com os Ulisses e Tancredo. Mídia intimidada, TV não deu, mas ninguém os impediu. Mobilização, ao fim e ao cabo, contribuiu para afastar militares e resultou em Sarney presidente. Rodízio de oligarcas, que prossegue.

Em tempo: sobre São Paulo, postagem minha do final de novembro antecipava que ia dar nisso:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/11/26/sao-paulo-e-a-genese-do-desastre-urbanistico/

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One response to this post.

  1. Está rolando apartheid em vários lugares por seleção de classes. Recentemente houve protesto contra um comentador de futebol que apoiava o pagamento de ingressos mais caros nos estádios para impedir a presença do povão. Tem aquela regra da Fifa que impedia baianas de vencer acarajé nas imediações do estádio na Copa para proteger Mc Donald’s e outros patrocinadores. Não sei se revogram ou continua valendo. Agora vem a proibição dos rolês nos shoppings, no Iguatemi ontem pediam documento de identificação pra quem quisesse entrar, mais um pouco e vão pedir passaporte azul, de preferência com carimbo recente. Mas o caldeirão já explodiu, trata-se de um confronto inevitável com a ostentação.

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