Rolês, apavoramento e histeria

Ontem, segunda feira dia 13/01, foram 585 acessos[1] por causa da minha postagem anterior. Uma enormidade para um blog pequeno, pessoal, só de texto. Motiva a prosseguir:

  1. Havia antecipado: proibição e repressão ampliariam  interesse e motivariam mais, a exemplo das passeatas de junho. Próximo fim  de semana será movimentado. Shoppings escolheram a pior estratégia.
  2. A propósito, que tal um rolezinho cultural na sexta feira no Centro Cultural? Na minha palestra sobre Lautréamont – noticiei em postagem precedente. Sábado haverá os grandes rolês, mas também podemos  promover no Canto Madalena, lançamento de Paulo Sposati Ortiz – rolê com poesia, divulgarei.
  3. Debate jurídico em curso. Juiz de Campinas indeferiu pedido de liminar de shoppings, Secretário de Segurança do Rio já declarou que role não é crime. Mas o exame de uma assimetria de base tem que preceder a questão jurídica, formal.  Shoppings têm advogados. Participantes de rolês não têm nada, não estão institucionalizados. Inexiste associação ou clube do role para recorrer e derrubar as liminares. Talvez se recebessem apoio de organizações de direitos civis, quem sabe OAB, para argumentar que furtos e confusões      ocorrem em shoppings, independentemente de rolês, além do que é provocado pelos próprios funcionários, a segurança desses lugares.
  4. Entre esses shoppings, certamente, os que molharam a mão de agentes públicos para erigir o que bem entendessem; os que nem aí para as contrapartidas, visando a melhorar trânsito que tumultuam.
  5. Brasil mudou pouco. Postado no Facebook por Henrique Carneiro      (professor de História na USP): “Estava lendo no F. Foot Hardman, “Nem Pátria, nem Patrão!”   (SP, Brasiliense, 1984) e reproduzo a propósito dos rolês nos xópins: “No  Brasil bem antes da “invasão” das ruas e jardins públicos pela classe operária, a segregação feita pela classe dominante chegava a níveis dignos da pré-história da cidadania. (…) Em 1899, 10 anos após a  proclamação da república burguesa, no Rio de Janeiro, um grupo numeroso de operários têxteis (cerca de 3000, seg. Echo Operario) foi proibido de entrar no Jardim Botânico. Diante da multidão impedida de penetrar naquele   “lugar público”, o diretor do estabelecimento, dr. Barbosa  Rodrigues, declara que a proibição deve-se ao fato de “se tratar de ladrões”.” p. 44.”
  6. Vou publicar lista de coisas piores que rolês, com relação às quais ninguém toma providências. Gente sem educação no metrô, por exemplo. Torcidas organizadas. Motoristas que atravessam e param em faixas e cruzamentos, piorando congestionamentos. Mas nada disso parece afetar diretamente o comércio.
  7. Querem selecionar quem entra? Direito deles – além de espaços públicos também terem restrições, não é qualquer um que entra      no Teatro Municipal ou na Biblioteca. Então, instalem portaria com    identificação, como nos prédios comerciais. Mas nunca fariam isso. Sai mais barato chamar a PM: mesmo ocupadíssima em promover chacinas em Campinas, acha tempo para bater mais um pouco.
  8. Shoppings vendem produtos, serviços – e  ilusões de segurança. Isso foi observado um milhão de vezes: o ambiente climatizado, limpo, ordenado, em contraste com o caos exterior. Com a realidade. Impressiona o apego de alguns a esse mundo artificial. Houve      quem se enfurecesse com a defesa não propriamente dos rolês, mas dos direitos de quem os faz, ou com a crítica ao tratamento que receberam. Desde “Molecagem atormentando o Brasil” até o      ensandecido “O pessoal do rolezinho não vai ao shopping contemplar as elites. Eles vão para roubar e foi o que fizeram todas as vezes.” –igual ao 1899 do registro histórico aqui reproduzido: todo pobre é suspeito. Houve um que se deu ao trabalho de postar uma descompostura neste blog –  lixeira, lugar do que é lixo, e quem quiser me invectivar, que use seu blog, não o meu. Os que atribuíram o que está acontecendo ao “lulopetismo” – Haddad e demais administradores públicos agradeceriam aos anjos se não tivessem que encarar mais essa confusão.
  9. HISTERIA e APAVORAMENTO: os vocábulos me vieram à mente ao ler essas reações extremas. Estão em Coxas, narrativa de Roberto Piva, de 1978 – tem no volume 2 de Obras reunidas, editora Globo. Profética. Muito inspirada, entre outras fontes, em Wild Boy de William Burroughs (Piva  omentou comigo), outro profeta, começa como relato sobre tribo urbana de  adolescentes, depois envereda por outros caminhos. O protagonista, Pólen, lê um trecho (cada vez mais atual) de As Américas e a Civilização de Darcy Ribeiro: “Uma vez implantadas as bases do Estado militarista na América do Norte, uma série de acontecimentos  comoveu a opinião pública, os governantes, os militares, conduzindo toda a classe dirigente do país a crises sucessivas de apavoramento e histeria”. Piva prossegue assim:

APAVORAMENTO Nº 1
dezoito garotos & dezoito garotas foram emparedados vivos
em caixas construídas com chicletes que só Adams fabrica &
tostados dentro de um porão de arsênico & cascavéis.

HISTERIA Nº 1
a confraria reacionária Unidos em Série promovedora de
festivais de telenovelas nas fábricas jogou uma substância
criadora de histeria CBK7 no reservatório de água de um
colégio de freiras & as alunas peidavam 3 dias & 3 noites
sem parar & depois se flagelaram & crucificaram.

APAVORAMENTO Nº 2
quinze adolescentes de ambos os sexos foram chicoteados na
bunda por batalhões da TFP que os insultavam enquanto
trezentos rapazes & moças de seita imperialista Hare
Krishna cortavam rodelas de cebola & colavam em seus
olhos.

HISTERIA Nº 2
setenta adolescentes fascistas do Colégio Objetivo criaram
no laboratório de química (com o auxílio de alguns
professores) uma substância hipnótica cuja finalidade é
levar a vítima ao arrependimento seguido de crises de
misticismo histérico.
Esta substância foi testada no bairro operário da Moóca &
durante 2 meses às 6 horas da tarde na Avenida Paes de
Barros os operários se reuniram para rezar.

Distopia? Pode ser que não.


[1] Meu blog está com 230 assinantes. Ótimo. Mas gostaria que chegassem a 14.398, alguma cifra assim.

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2 responses to this post.

  1. Ótimo texto. Continue com seus sagazes comentários lítero-sociais!

    Responder

  2. Posted by maria das graças dos santos on 16/01/2014 at 11:37

    Willer, gostei bastante dos comentarios perspicazes sobre tema tão importante e que exige uma maturidade extrema do analista. Considero indispensavel a leitura de seu blog…

    Responder

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