Da palestra de ontem sobre Lautréamont; da entrevista de anteontem na revista Usina

A seguir, trecho de La Bruyère, moralista francês do século 17, e a versão adulterada por Lautréamont ao final de Poesias II. Li e comentei em nosso rolê no Centro Cultural São Paulo. Também é comentado por Roberto Calasso, no excelente A literatura e os deuses (Companhia das Letras, 2001), no capítulo sobre Lautréamont intitulado “Elucubrações de um serial killer”:

La Bruyère: Tudo está dito, e viemos tarde demais, há mais de sete mil anos que há homens, e que pensam. No que diz respeito aos costumes, o mais belo e o melhor é retirado. Nada fazemos senão recolher o que deixaram os antigos, e os hábeis dentre os modernos.

Lautréamont: Nada está dito. Chegamos cedo demais, pois há mais de sete mil anos existem homens. No que diz respeito aos costumes, bem como no restante, o menos bom é retirado. Temos a vantagem de trabalhar depois dos antigos, os hábeis dentre os modernos.

Como é verdadeiro, “Chegamos cedo demais” – o futuro está aí. Como é reacionário, “viemos tarde demais”.

Trecho da entrevista na revista Usina (projetei na minha palestra):

Como você enxerga a literatura contemporânea? Há quem diga que não existam mais bons poetas ou bons prosadores. Você concorda?

De jeito nenhum. Já me manifestei em meu blog, a propósito de uns textos que saíram na Carta Capital sobre “decadência cultural”. Isso de dizerem que não há mais poetas como João Cabral ou que ninguém mais escreve versos como Racine e Corneille, como proclamava Anatole France, contendor do simbolismo, é reacionário. Saudosismo é pretexto para não enxergar o que está acontecendo. Não tenho como acompanhar tudo, não tenho visão de conjunto, mas observo vários bons poetas novos.

A entrevista (já rolou no Facebook,comentários, compartilhamentos, “curtir”):

http://revistausina.com/2014/01/15/12-perguntas-para-claudio-willer/

Neste blog, um ano atrás, sobre saudosismo (nada contra especificamente a Carta Capital, também já vi comentários dessa ordem na Veja, embora não chegassem a figurar como matéria de capa):

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/02/04/vazio-da-cultura/

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One response to this post.

  1. Li sobre a proposta dos “plágios” de Lautréamont, é um engraçado exercício de intertextualidade. Para Breton era gênio, para outros apenas louco, “a ruína completa.” E sua resposta na entrevista vai direto ao pensamento dele recusando o conservadorismo, a supremacia do antigo sobre o moderno. tem gente que nunca enxerga o novo, mas é por falta de afinidades mesmo.

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