Jack Kerouac e as políticas públicas de assistência a dependentes de drogas

Tristessa de Kerouac, narrativa breve (100 páginas na edição da L&PM Pocket), representa o melhor da sua prosa poética. Expressa de modo dramático sua visão de mundo. Ou melhor, do submundo: na Cidade do México, apaixona-se pela esquálida viciada em morfina Esperanza Villanueva, a Tristessa do título. Penetra no âmago da miséria – em sua visão, um absoluto: pessoas cuja vida se resume a esperar pela próxima dose alcançaram o nirvana. Budismo e sacralização da miséria na versão mais niilista. Registra tudo em uma escrita polifônica. Em companhia dessa gente, injeta-se com morfina para neutralizar seu alcoolismo. Acometido pela fome, sai pela cidade e vai devorando comidas repugnantes oferecidas em barraquinhas de rua.

Durante essa estada no México, também escreveu a maior parte dos 242 choruses de Mexico City Blues, poesia sublime. O vizinho de Kerouac, morador no mesmo prédio de paredes de adobe, é “Bull”, Bill Garver, parceiro de William Burroughs em roubar bêbados, furtar em restaurantes e traficar. Marginal culto, como descrito por Kerouac: “na cadeia, ele era sempre o bibliotecário, é um grande erudito, de muitas maneiras. Com um interesse maravilhoso por história e antropologia e tudo relacionado com a poesia simbolista francesa, acima de tudo Mallarmé”. Ao final do extenso Anjos da Desolação, há um lamento pela sua morte, tratando-o como mestre.

Citando Garver, Kerouac trata de assistência a drogados:

O problema dos viciados, abençoados os viciados em narcóticos, é conseguir a parada – Vêem recusas por todos os lados, estão permanentemente infelizes – “Se o governo me desse morfina o suficiente todos os dias, eu seria totalmente feliz e teria a maior disposição de trabalhar como enfermeiro em um hospital – Cheguei a mandar minhas idéias sobre o assunto para o governo, em uma carta em 1938 enviada de Lexington, na qual dizia que era possível resolver o problema dos narcóticos botando os viciados para trabalhar, com suas doses diárias, na limpeza do metrô, qualquer coisa, como qualquer outra pessoa doente – Como os alcoólatras, eles precisam de remédio –

Já citei esse trecho de Kerouac em palestras. Com  ressalvas. Colocar essa política pública em prática, acho que só em situação de pleno emprego – em caso contrário, não-dependentes estariam sendo preteridos. Prefiro a abordagem sociologicamente consistente de Ginsberg, já exposta neste blog, denunciando a proibição por originar o tráfico e, por decorrência, o quadro atual – assim antecipando as liberações parciais a exemplo de Colorado e do Uruguai.

Não obstante, quem diria, a proposta de Kerouac / Garver começa a ser executada pela Prefeitura de São Paulo. Hotel para moradores de rua, 4 horas de jornada de trabalho, 2 de requalificação profissional, tratamento para quem quiser. Avaliação seria prematura. Mas esvaziou um trecho da horrenda cracolândia – lugar que sugeri para visitação turística, com o guia dizendo: “Vejam. Este é o resultado das décadas de proibição das drogas”. É preferível às tentativas anteriores, de remoção à força. Investimento que compensa, pela redução da degradação. Acolher é abrir uma porta para a ressocialização. Ser tratado como gente é terapêutico. Que nenhum reaça venha interferir alegando superioridade do tratamento policial, declarando que lugar de usuário de drogas é a cadeia, ou algo assim.

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2 responses to this post.

  1. Posted by Mah Fiori on 19/01/2014 at 19:10

    Me surpreendi com a iniciativa da Prefeitura de S.Paulo, acredito que agora descobriram o caminho para que essas pessoas reconquistem a dignidade e auto estima a muito perdidas.

    Responder

  2. Posted by Maria das Graças dos Santos on 20/01/2014 at 18:46

    Willer, intessante este contraponto que vc fêz entre as políticas públicas para drogados, qualificando a proposta de Kerouac como próxima da recente ação da PMSP..

    Responder

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