Um concurso de leitura de poesia

Poema, este a seguir, é de meu próximo livro, A verdadeira história do século 20. Li no Club Noir na terça feira passada, dia 21, e gravei ontem para CD. Inventei um concurso. Consiste no seguinte: quem saberá dizer quantos e quais oximoros e antinomias tem neste poema? E quantas e quais citações ou alusões a outros poetas?
Para o ganhador, darei exemplar autografado de algum outro livro meu. Se ninguém acertar tudo, divulgo respostas semana que vem.
Em tempo: resolvi alterar regulamento do prêmio. Vai para quem acertar mais, e não para quem acertar tudo, pois isso, tudo, é quase impossível.

A VERDADEIRA ESCRITA AUTOMÁTICA

quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?
Herberto Helder

é tão difícil empreender a viagem pela escuridão e suas luzes para trazer  esses fragmentos de volta: os trechos de um poema criado durante um sonho
– o caderno ia se transformando enquanto o anotava, suas páginas estavam repletas de ilustrações, umas aquarelas e desenhos meio infantis que mudavam a cada vez que os via
e também mudavam a cor das letras do texto que escrevia, a tinta, a caneta – como se fosse um camaleão? – do azul ao verde, vermelho, lilás, amarelo, laranja, todo o espectro, até acabar, até sua carga extinguir-se de vez
e não, já não havia mais escrita, não existia mais caderno, mais nada a não ser um vozerio de festa na rua, saindo de uma inexistente casa em frente,
chegavam amigos, dois rapazes vindos da festa (também não existem, nunca os vi), eles me levariam de automóvel à cidade para procurar uma nova caneta da mesma escrita multicor e um novo caderno móvel,
mas o que escrevi durante o sonho permanece: é o poema de uma frase, sempre uma só frase sibilina multiplicada na horizontal, na vertical, em diagonal, no rodapé da página,
de todos os modos e em todas as suas cores para repetir:
vocês nunca mais saberão a previsão do tempo – e restava um eco escrito: vocês nunca mais saberão … – nunca mais … e ainda havia uns versos ao redor em português arcaico
e assim soa a voz da sombra e um mês devora o outro como bólidos estrambóticos
– depois desse mergulho para rememorar o futuro e antever o passado, retorno com a decisão visionária de escrever sobre a poesia moderna e o sagrado
e também quero dizer algo sobre ilhas, uns Açores e Baleares e ainda haverá mais poemas
e tudo será refinado, joeirado, sublimado
e tudo estará bem
e tudo será belo
como umas roupas em um varal ao sol do meio-dia
balançando docemente ao vento
enquanto vamos nos acercando ao ouro do tempo

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7 responses to this post.

  1. Posted by Maria Helena Vieira on 24/01/2014 at 11:34

    Onde posso comprar uma canta dessas?

    Responder

  2. Posted by Maria Helena Vieira on 24/01/2014 at 11:39

    Quis dizer caneta

    Responder

  3. Bem, na minha leitura do seu belíssimo texto identifico referências a dois poetas: “O que amas de verdade permanece, o resto é escória (Ezra Pound) que me lembra o seu “mas o que escrevi durante o sonho permanece.” Também vi o corvo do Allan Poe voando por aí: “Nunca mais.”
    Sobre antinomias e oxímoros tento contar depois. Mas acho que não tenho chances de ganhar este livro., rs…

    Responder

  4. Posted by carlos on 26/01/2014 at 04:23

    Vale o Rimbaud dentro do Herberto Helder? Se não pela epígrafe, pelo camaleão alquímico-rimbaudiano e herbertético, lá do peixe e também de outras prosas d’Os Passos em Volta. “até acabar, até sua carga extinguir-se de vez” Herberto diz repetir as palavras bem baixinho várias vezes ‘já nada significa’. Mas acredito que a antinomia “para rememorar o futuro e antever o passado” mistura-se aos 4 quartetos em que o tempo futuro se encontra no tempo passado entre mais. Até gostaria de fundamentar mais, como o Kerouac ou Escher ou Lorca – este mais por espírito de minha vaidade -, mas putz… quero ficar com o infinito do texto para a vida sem as palavras cruzadas.

    Responder

  5. Não tenho chances de ganhar esse livro. Achei o texto muito bonito! Procura-se essa caneta!!!

    Responder

  6. Difícil esta tarefa. Claro que pensei em algumas referências demasiadamente bairristas, por isso não as coloquei na lista abaixo, como é o caso do “Poema Sonhado” de Alphonsus de Guimaraens Filho etc (“Se não for pela poesia, como crer na eternidade?”, verso efetivamente sonhado, balbuciado e copiado por sua mulher). De toda sorte, a lista ficou ora mais direta, ora mais indireta. Pensando bem, alguns pontos não são citações ou alusões mas, sobretudo, referências (ao menos para mim). Vamos lá:

    1 – Referência às cores: simbolismo (o lilás…), Rimbaud?
    2 – Inexistente casa em frente: a casa abandonada onde reside o Aleph de Borges?
    3 – Escrever durante o sonho: Lautréamont? “On ne rêve que lorsque l’on dort. Ce sont des mots comme celui de rêve, néant de la vie, passage terrestre, la préposition peut-être, le trépied désordonné, qui ont infiltré dans vos âmes cette poésie moite des langueurs, pareille à de la pourriture. Passer des mots aux idées, il n’y a qu’un pas.”
    (Lautréamont, Poésies – I)
    4 – Nunca Mais: Poe e seu O Corvo
    5 – “Mergulho” para “rememorar o futuro” e, em seguida, a remissão a Açores: não seria Altazor de Huidobro?
    6 – O “ouro do tempo”: André Breton e, mais atualmente, nome do filme espanhol de Xavier Bermúdez, de 2013
    7 – Poesia moderna e o sagrado: Piva e tantos outros?

    OXIMOROS/ANTINOMIAS: 5

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