Surrealismo no Brasil?

Está muito bem inventarem a nova moeda, o “surreal”, notas com a cara e bigodes de Salvador Dali para aproveitadores que vendem suquinho de praia a 20 reais e todos aqueles para os quais, pelo visto, a Copa já começou.

Dali teria achado graça – e Gala, que cuidava das finanças, mandaria seu agente cobrar direitos de imagem. Mas isso também expõe as dificuldades na caracterização do surrealismo, dos autores e obras aos quais pode ser aplicado esse qualificativo.

Nada a ver com a associação a qualquer coisa esquisita ou absurda. Por exemplo, toda vez que algo por aqui suscita este comentário: “o Brasil é um país surrealista”. Antes fosse. Seria melhor. Não confundir surrealismo com literatura do absurdo. Franz Kafka e Samuel Beckett foram autores grandiosos. Gnósticos pessimistas, mostraram um mundo esvaziado de sentido – assim como muitos outros, J. D. Salinger, por exemplo. Mas o valor surrealista fundamental é o maravilhoso. Como declarou André Breton no primeiro Manifesto do Surrealismo: “Digamo-lo claramente, e de uma vez por todas: o maravilhoso é sempre belo, qualquer tipo de maravilhoso é belo, somente o maravilhoso é belo”. Observo até mesmo algum messianismo em Breton, a crença em um mundo melhor e no surrealismo como força transformadora. “Liberdade cor de homem”, frase de abertura de um de seus poemas, serve como epígrafe geral. É gnose otimista.

Também é inexato referir-se a uma “forma” ou “estética” do surrealismo. Algumas boas caracterizações:

Octavio Paz:

“O surrealismo é um movimento de liberação total, não uma escola poética” (“André Breton ou a busca do início”, em Signos em Rotação, Perspectiva, 1972)

O surrealismo não é uma poesia, mas uma poética […] é, mais ainda, e sobretudo, uma visão de mundo” (em O Arco e a Lira).

Julio Cortázar:

Higiene prévia a toda redução classificatória: o surrealismo não é um novo movimento que sucede a tantos outros. Assimilá-lo a uma atitude e uma filiação literárias (melhor ainda, poéticas) seria cair na armadilha em que malogra boa parte da crítica contemporânea do surrealismo. Pela primeira vez na linha dos movimentos espirituais com expressão verbal, uma atitude resolutamente extraliterária prova que a profecia solitária do Conde e do vagabundo se cumpre cinqüenta anos após sua formulação. (em Obra Crítica 1, organização de Saúl Yurkievich, Civilização Brasileira, 1998).

Sarane Alexandrian:

… o surrealismo não é uma escola, como o romantismo ou o simbolismo, mas um método sempre viável, como a psicanálise. …. [surrealismo e psicanálise] engajam o espírito em uma expedição mais perturbadora que qualquer viagem interplanetária: a viagem ao centro do homem. (em Le Surréalisme et le Rêve, Gallimard)

O bom ensaísta português contemporâneo António Cândido Franco:

… a ação poética, tal como a concebia o surrealismo, não tinha por fim a arte, mas antes a Gnose. (em Notas para a compreensão do surrealismo em Portugal, Licorne, 2012)

O poeta Mário Cesariny:

O surrealismo é sempre de hoje, nunca de ontem. Nada é tão mistificador quanto falar da actualidade ou inactualidade do surrealismo. O surrealismo é de hoje, mas inactual, tão inactual como um índio o pode ser. A actualidade é pequenina e sempre de ontem. (entrevista a António Cândido Franco publicada em Teixeira de Pascoaes nas palavras do surrealismo em português, Licorne, 2010)

Perfeito, comparar surrealismo a um índio. Foi preciso.

Mais em meu artigo sobre surrealismo no Brasil que saiu na revista Idéias de Portugal, em Cronópios e agora no TriploV:

http://cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=5788

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3 responses to this post.

  1. Vou refletir sobre a relação de gnose e surrealismo.O que atrai à primeira vista deve ser aprofundado, às vezes o maravilhoso chega num fio de conversa!! Uma ideia a ser ampliada na minha cabeça.

    Responder

  2. Posted by carlos on 05/02/2014 at 21:06

    Pra não dizer da supra-realidade.

    Responder

  3. […] toda vez que acontece algo grotesco, acham “surreal”. Já me havia manifestado a respeito: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/02/02/surrealismo-no-brasil/ . Sou obrigado a insistir: surrealismo é pensamento utópico; “um movimento de liberação […]

    Responder

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