Mais sobre o centenário de William Burroughs

Artigo que saiu no UOL, hoje, teve grande número de leituras e retransmissões no Facebook. Tenho mais, porém. Entrevista para a página de internet da revista Cult, para a repórter Patricia Homis – mas não consigo acessar, deve estar na Interzona, ou o calor derreteu. Reproduzo íntegra aqui, pois acho que tem observações e sugestões adicionais. Quanto ao artigo no UOL, para quem não viu, o link é este: http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2014/02/05/centenario-de-william-burroughs-e-chance-para-resgatar-sua-obra-do-limbo.htm

A entrevista na página da Interzona, ou em Alamut, reduto de Hassam I Sabbah:
O fato de Burroughs acreditar em demônios, magia, telepatia, alienígenas, influenciou sua escrita de alguma forma?
Mas ele acreditou em tudo isso? Note que, na cosmovisão dele, seriam palavras. A realidade, o que efetivamente existe, é outra coisa. Embora, de fato, tivesse procurado alienígenas e visse telepatia nos gatos, conforme a crônica sobre esses animais, publicada pela L&PM. Quanto à magia, a rigor tudo é e não é magia no mundo que nos rodeia. Tais categorias, em sua obra, valem como metáforas, alegorias. Pode-se observar algo como uma crença em seu período de adesão á cientologia de Ron Hubbard. Mas logo a abandonou, embora partilhasse a idéia de que somos objeto de um controle externo. Adotava também a cosmovisão de Hassam I Sabbah, o “velho da montanha”, líder dos “haxixim” (fumadores de ahxixe e assassinos) iranianos, do século 12 – expressão, contudo, de um niilismo radical. Acreditou, sempre, na realidade do orgon, a energia cósmica postulada por Wilhelm Reich. A paraciência ou ciência alternativa o atraia, muito. Telepatia, ele estudou.

Burroughs afirmou que foi a morte de Joan que o fez tornar-se escritor. Em que medida ele utilizou essa lembrança em sua obra?
Ele declarou que a morte de Joan foi o acontecimento que o levou a escrever, no prefácio de Queer e em outros lugares. Sentiu-se objeto de um controle, de algo que o dominava, e a escrita seria o modo de libertar-se. Foi quando empreendeu a escrita dos autobiográficos Junky e Queer, e logo depois as “routines” que constituiriam  Naked Lunch, Almoço nu. Mas não há evocação ou lembrança da morte de Joan, não chega a ser relatada ou diretamente referida.

O conceito do autor de que a linguagem é como um vírus se reflete de que maneira?
Em Naked Lunch e outros lugares, disse que a linguagem equivale a um vírus por replicar-se, multiplicando-se em coisas exatamente iguais. Faz parte de sua idéia (sua, em termos – ele segue uma tradição arcaica) da linguagem como mediação, algo que constitui o real ou o oculta.

Ele acreditava que a linguagem era um aspecto limitador, uma barreira a ser atravessada?
Exatamente. Até aí, nada de novo. A relação entre as palavras e as coisas, os signos e seus significados, é o tema de um debate imemorial. Inclusive, entre os nominalistas (que viam a linguagem como reprodução ou cópia das coisas) e os realistas (que viam o mundo como função da linguagem) na Idade Média. Conforme o pensamento mágico, símbolos produzem o real. E conforme o moderno relativismo lingüístico, segundo o qual a linguagem constitui a visão de mundo, a cultura, cujo grande precursor foi o historiador Giambattista Vico. Inauguram esse relativismo, entre outros, o filósofo Ernest Cassirer, para quem linguagem é visão de mundo, e o historiador Oswald Spengler, autor de A decadência do Ocidente. Spengler foi matriz, influência decisiva para Burroughs, somando-se a seus estudos de antropologia. Afirmava, por exemplo, que você só pode entender uma religião se conhecer a língua na qual ela foi criada. Daí, em Burroughs encontrarmos um relativismo lingüístico, filosófico e moral. A diferença ou acréscimo: além de exacerbar o relativismo, transformou-o em práxis, em procura efetiva do que está além da linguagem, através da experimentação, da experiência de vida e da criação.

O uso da expressão “estúdio realidade” também permeia a obra de Burroughs. Como ele entendia essa criação e mistura da realidade com a ficção dentro e além de sua obra?
Justamente, esse termo – adotado pelo poeta Rodrigo Garcia Lopes como título de um livro recente – designa o caráter artificial, provisório, experimental, como algo constituído ou fabricado, do que entendemos como real.

O sistema de cut-ups foi utilizado por Burroughs em algumas obras. Quais foram e como esse sistema foi importante para o autor?
As obras seriam Nova Express, The Ticket that Exploded e Minutes to Go. Mas na verdade Burroughs praticou o cut up sempre: Naked Lunch é remontagem de enredos, as “routines” – as versões foram inúmeras, até chegar àquela publicada. E, em suas obras mais recentes, muito perturbadoras, e que mereceriam edição brasileira – Cities of the Red Night, The Western Lands e The Place of Dead Roads –,  o cut-up está introjetado: são narrativas não-lineares, que contam e não contam uma história. Tese provocadora, a desenvolver: continuidade desses relatos com Queer, sobre homossexualismo, contemporâneo de Junky mas que só saiu em 1982: também é estranho, fragmentário, finge que conta uma história. Interessa-me, também, o restante da experimentação empreendida por ele, Ian Sommerville e Brion Gysin por volta de 1960: além de recortar e remontar textos, olhar superfícies opacas e ver coisas, escrever criptogramas, signos misteriosos, como relatam Ted Morgan e Barry Miles. Tocaram em outro nível da realidade, penso.

O senhor pode explicar um pouco mais sobre o papel de orientador que Burroughs teve na geração beat?
Conforme relatado em toda a bibliografia beat – inclusive em meu Geração Beat – passava leituras, sugeria, recomendava autores. Fez réplicas de sessões de psicanálise com Ginsberg. Recebeu os beats em seus refúgios em New Waverly e Algiers, na Cidade do México e em Tanger. Houve a colaboração, de Ginsberg, Orlowski e Kerouac, em Tanger. De Ginsberg, Orlowski e Corso em Paris. Burroughs deu oficinas de criação no Naropa Institute de Ginsberg. Enfim, colaboração e participação constantes.

Sobre o envolvimento constante de Burroughs com drogas e ações ilegais, como isso pode ser interpretado em sua obra?
Drogas e furtos. Ele trouxe marginais – Herbet Huncke, Bill Garver – para o grupo beat. O que fosse marginal, alternativo, fora da lei, tinha para ele um estatuto de realidade superior àquele do instituído, oficial; da sociedade burguesa, massificada.

Como o autor encarava a homossexualidade?
De modo muito radical. Embora houvesse se casado e tido um filho, chegou a defender um mundo sem mulheres, no qual homens se reproduzissem sem precisar delas. Penso que é um ataque, não especificamente às mulheres, mas à instituição da família.

Quem o senhor acredita que tenha se inspirado em Burroughs atualmente?
Eu acho que a literatura moderna ou contemporânea, mais a produção artística em geral, musical e visual, foram tocadas por Burroughs. Sua influência é colossal. Bastaria citar a enorme filmografia e as gravações, com uma diversidade de artistas. Correntes filosóficas, como o desconstrucionismo, são tocadas por Burroughs – ou servem como paradigma para sua leitura. No Brasil, observaria que Roberto Piva inspirou-se em The Wild Boys para escrever a narrativa Coxas de 1978: foi o que ele me disse; evidentemente, uma de suas múltiplas fontes, e na época me deu um exemplar de The Job, o livro de entrevistas de Burroughs por Daniel Odier. Teria José Agripino de Paula, o autor de Panamérica, chegado a ler Naked Lunch? Vejo afinidade. Na época, era proibido nos Estados Unidos, mas circulava na edição francesa. O surrealista Floriano Martins fez uma montagem cênica, muito boa, com atores, de trechos de Burroughs, espero que seja reapresentada. Rodrigo Garcia Lopes entrevistou Burroughs – está na coletânea Vozes e visões, pela Iluminuras, – estudou-o e escreveu dissertação sobre ele. Seu título mais recente, Estúdio realidade, pela 7 Letras, é citação e contém alusões. Também Joca Reiners Terrón, Ademir Assunção e Rogério Menezes, entre outros contemporâneos, declaram-se seus leitores. Isso, insisto, como parte de algo enorme.

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One response to this post.

  1. Willer, sobre esta sua frase “Sentiu-se objeto de um controle, de algo que o dominava, e a escrita seria o modo de libertar-se”: Burroughs se vestia muito bem, andava impecavelmente bem vestido e li em vários lugares de que ele adorava rotinas- como vc mencionou acima sobre Naked Lunch; tinha hora para tudo e era extremamente metódico (acho que o próprio Ginsberg mencionou isso em algum lugar ao descrever sobre uma visita que fez a ele em Tangier, Marrocos). Será que ele não tinha TOC ou algo parecido? Vai ver que algo assim o dominava…

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