Mais poemas ambientalistas

Meus. De Jardins da Provocação. Amanhã pretendo postar alguns do Piva, de Ciclones.

VISITANTES 4

nosso espaço

é o espaço do terrível

o pântano

varrido por ventos mornos

atravessando os flautins de sargaços

a noite definitiva                                                    e o grito congelado

penetremos aos poucos

neste jardim de negações

onde a palavra pede mais espaço

não há mais muita vida

sobre a face deste planeta

talvez em algum lugar

ainda se ouça o vento soprar entre as árvores

vozes ao longe preenchendo o vale

latidos de cachorros na distante encosta da montanha

transformemo-nos em planta

em raiz

ou minério bruto

para que seja possível conversar

 SOBREVIVEREMOS

 

FAZ TEMPO QUE EU QUERIA DIZER ISTO

[só a primeira das três partes desse poema]

ainda não conseguiram destruir o mar

não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias

nem de o retalhar com cercas

ou de lotear as manchas do seu dorso

o mar ainda existe

presente na consciência dos amantes

nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis

para podermos ver o mar

para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos

cavernas do primitivo sonho

útero de filamentos luminosos

é preciso nos desnudarmos totalmente

e sabermos nos reconhecer

pelo toque da pele

como algo que termina e recomeça

dois poemas entrelaçados

mordendo-se como a serpente mítica

o mar e suas gavetas de cristal

seus andaimes de prata

sua borbulhante conspiração de gelatinas

sua sofreguidão de novelas agitadas

seus túneis de trilhos descendentes

sua nudez flamejante

seu tempo de redes desfazendo-se na areia

seus barcos mergulhados na definitiva espera

seus poços artesianos de sal

seu recheio de quadros abstratos

sua cornucópia dos desejos obscuros

seus punhais envoltos em sargaços

suas torres de castelos de beleza pura

suas largas avenidas batidas pelo vento

seu arco-íris dançando o balé do amanhecer

suas mãos de dedos transparentes a perder de vista

guardião dos nomes dos suicidas

que vagam pelas ruas de cidades submersas

labirinto de lembranças

labirinto de luzes e sombras vivas

ondas fazendo valer seu interminável instante de rugidos

entrechocando-se com o furor dos metais nas batalhas de Paolo Ucello

selva de ruídos                                                                 selva de ausências

e a hora da praia

pura realidade de silhuetas

lábio de vagina úmida dos continentes

dorso de gato angorá roçando a terra firme

clamor de corais

ecoando por campos submarinos

afugentando as águas-vivas

que chegam à praia como bandeiras de nações febris

Anúncios

3 responses to this post.

  1. São tão lindos, este “Visitantes 4” gosto demais e o “Faz tempo que eu queria dizer isso” é uma de suas grandes criações. Se tivesse que escolher um dia “o melhor do Claudio Willer” seria este, ainda mais depois que conheci a “história” dele em “Volta”.

    Responder

  2. Belíssimos poemas!!!

    Responder

  3. Incríveis! Me dá “inveja” as imagens que você cria em torno do mar. Gostaria de ter sido eu o autor!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: