Mais Charles Bukowski: duas resenhas

Eu já havia resenhado Bukowski em duas ocasiões. Nenhuma delas está disponível on line. Achei os arquivos em word e os reproduzo aqui. A primeira é de setembro de 2010 e trata de Pedaços de um caderno manchado de vinho (L&PM). Saiu no suplemento Sabático de O Estado de S. Paulo. A segunda, de um remoto 1995, sobre Pulp (também pela L&PM), igualmente em O Estado de S. Paulo, no Caderno 2.

A propósito, o belo filme de Marco Ferreri, Crônica de um amor louco, de 1981, meio que saiu de circulação; aquela atriz linda, também. Estetizou Bukowski, mas a cena inicial da leitura de poesias regada a uma quantidade de latas de cerveja é convincente: igualzinho ao que vi Piva fazer nas temporadas de 1970/1980 – diferença é que Piva não tinha empatia por gatos ou qualquer animal doméstico, delirava sobre outras coisas. Já o filme de Barbet Schroeder, Barfly, achei chato – Mickey Rourke, um canastrão, a atriz igualmente medíocre, tudo falso.

1. A resenha de 2010:

Charles Bukowski foi um beat? A pergunta procede pela associação de ambos, do autor de Cartas na rua e desse movimento, que acompanha sua boa recepção brasileira. Pedaços de um caderno manchado de vinho, coletânea de contos e crônicas que cobre desde sua estréia em prosa até seus derradeiros escritos, contribui para a resposta. Fica claro que religiosidade e misticismo, fortes em Ginsberg, Kerouac ou Snyder, são algo ausente de seus interesses. Além disso, Bukowski, individualista radical, jamais teria lugar em algo coletivo: “Eu era um movimento de protesto, sozinho”, resume. E, como exposto na crônica “Deveríamos queimar o rabo do Tio Sam?”, achava ingênuas as rebeliões juvenis daquele período, encabeçadas por Ginsberg e outros beats.
Por outro lado, tendo sido cronologicamente anterior à beat, pois começou a publicar na década de 1940, sua circulação mais ampla, antes de vir a ser impulsionada pelas adaptações para o cinema (Crônica de um amor louco de Marco Ferreri, de 1981, e o sombrio Barfly, de 1987, de Barbet Schroeder) ocorreu no quadro da valorização do alternativo. E do arrefecimento da censura, após uma luta pela liberdade de expressão protagonizada por autores da geração beat. Em comum, também, a recusa da prosperidade burguesa: “à medida que uma pessoa fica mais rica ela se torna cada vez menos humana”, declara.
Bukowski foi mais um dos personagens de si mesmo. Os relatos na primeira pessoa, protagonizados pelo alterego Harry Chinaski ou por ele mesmo, confundem ficção, depoimento e a deformação de acontecimentos reais. “Combina fantasia com autobiografia”, observa David Stephen Callone no articulado prefácio de Pedaços de um caderno manchado de vinho – no qual também propõe uma interpretação de Bukowski à luz de Bataille, o pensador da transgressão, que certamente se aplica a textos mais obscenos, como o elogio ao excremento em uma das “Notas de um velho safado”.
Talvez alguns relatos passassem apenas por medianos, e seu interesse esteja na proporção daquele suscitado pela figura de seu autor. Mas Pedaços de um caderno manchado de vinho traz bastante do melhor Bukowski. Em primeiro lugar, o depoimento do leitor, na bela homenagem a John Fante (a quem contribuiu decisivamente para resgatar do esquecimento). E nas crônicas sobre Antonin Artaud, Ezra Pound e William Wantling.
Mas seu modo dominante e mais bem sucedido é a sátira, por entender que “a verdade em si costuma ser mais cômica do que séria”. É dirigida a outros escritores, ao mundanismo cultural, à sociedade burguesa como um todo; e a si próprio, bem como às mulheres que foram suas parceiras (na vida real, na ficção ou em ambos). Seus principais recursos são a deformação e o sarcasmo. É implacável na ironia: “Na verdade, os maus escritores geralmente têm mais fé em si mesmos do que os bons”. Não poupa a cena underground: “A maioria dos poetas lê mal. São ou muito vaidosos ou muito estúpidos. Lêem ou muito alto ou muito baixo. E, é claro, a maior parte de suas poesias é ruim”. Um mestre do julgamento taxativo: “estava ouvindo Mahler, que faz Beethoven e Bach parecerem uns veadinhos.” Inigualável na depreciação: “O teto era alto, branco e adornado com telas de mau gosto, todas pintadas pelo mesmo artista, uma mistura do que havia de pior em Picasso com o que havia de pior em Orozco”. A sucessão de tiradas desse calibre garante a diversão dos leitores de Bukowski (e de quem o resenha).

2. A resenha de 1995:

Pulp, de Charles Bukowski – L&PM Editores, 184 pgs. R$ 17,00

Além de preencher um capítulo da história das relações entre alcoolismo e literatura, poucas vezes um autor se confundiu tanto com seus personagens como Charles Bukowski. O que atrai nele é isso: saber que suas histórias grotescas ou absurdas são de alguém em carne e osso (até o ano passado, quando morreu aos 73 anos). Através do relato franco, direto, a cumplicidade com a mais obscena marginalidade. A ilusão de participar da alteridade do submundo. De viver improvisadamente. O cinema percebeu esse carisma do negativo: Bukowski é, devidamente glamurizado, Ben Gazzara em Crônica de um amor louco, de Marco Ferreri (que o fez sair, em 1981, de um círculo mais restrito de apreciadores de cultura underground), e Mickey Rourke em Barfly.
É errado associá-lo à geração beat ou a qualquer movimento de vanguarda. Corresponde a algo mais antigo, primitivo. Ao ser comparado a outro escritor, sempre se mostra como alguém a menos, em cujo texto falta algo. Sim, os relatos simples, diretos, assentados em diálogos, podem ser Hemingway – mas um Hemingway sem heroísmo. Um Kerouac sem prosódia jazzística. Um Burroughs sem cortes e metáforas. Um Céline sem o furor paroxístico. Um Henry Miller sem boemia romântica e imagens poéticas.
No entanto, é incorreto classificá-lo como subliterário, apesar de sugerir isso, ao dedicar Pulp à subliteratura. Mas a subliteratura é aquilo que pretende ser outra coisa: imitação empolada, pastiche da literatura de qualidade. Bukowski é pré ou infraliterário: cru, próximo do simples relato do contador de casos escabrosos. Nada, além da voz do personagem que se confunde com o autor. No conto A mais linda mulher da cidade (conto? crônica, relatório?), hiper-enxuto, em cinco páginas está resolvida a história da garota com a qual teve um caso passageiro e que se mata depois de mutilar-se. Em outras mãos, um romance. Mas a elaboração literária, a dramaticidade, o lirismo e a ironia ficam por conta do filme de Marco Ferreri. Há, em seu melhor texto, uma literatura potencial, pedindo para ser realizada a partir do material bruto da vida.
Pulp, seu derradeiro livro, oferece um amontoado desconexo de histórias incongruentes. Mistura tudo; há uma quantidade de alusões e metáforas sem intenção de chegar a qualquer lugar. Um comentário sobre literatura, jogo de espelhos embaçados e desfocados, mostrando sua falta de sentido (o que, observa ele, não deixa de ser um sentido). Os capangas que querem pegá-lo chamam-se Dante (Alighieri) e Fante (John). A pessoa que ele investiga, e cuja morte provoca, Céline (Louis-Férdinand). Em um dos diálogos, trocadilhos sobre “ilusões perdidas” (Balzac). E por aí afora. Repete insistentemente chavões do romance policial, do melhor ao pior, de Raymond Chandler até Mickey Spillane: mulheres fatais, o detetive de ressaca em seu escritório, os sicários trogloditas. Há uma invasão de alienígenas do pior trash. E alusões mais sutis: seu fígado falante, primo das bundas falantes do Naked Lunch de William Burroughs.
Pulp nada mais é que gozação. O canto de cisne sob forma de risada na cara do leitor. Mas cresce nas páginas finais. Termina com a morte. Dupla morte, do personagem, pseudodetetive decadente, e do próprio Bukowski. Ambos mergulham na luz que sai do bico de um absurdo pardal vermelho. Morreu divertindo-se. Foi o mais cínico (no duplo sentido, corrente e filosófico da palavra) dos escritores deste século.

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One response to this post.

  1. não sabia que já havia resenhado Buk duas vezes. Bom demais poder conhecer essas nuances técnicas desse escritor e poeta que tanto admiro e reverencio orgasticamente.

    Beijos, professor!!

    Tenha um lindo fim de semana!!

    Lu

    P.S.: Aguardo ansiosa essas 300 páginas de Buk que acabou de traduzir para a L&PM.

    Você bem que podia me antecipar alguma coisa por email, hein!! ficaria agradecida horrores! rsrs…..

    Responder

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