Dario Veloso ou Dario Vellozo, o simbolista-esoterista de Curitiba

A propósito das imagens disponíveis do original poeta e personagem, em https://www.google.com.br/search?q=dario+vellozo , trecho do que escrevi sobre ele em Um obscuro encanto:

Quanto a Dario Veloso, tratados de história da nossa literatura como o de Alfredo Bosi, dão conta do simbolista curitibano como

[…] poeta das Esotéricas (1900), mestre em ocultismo pela Escola Superior de Ciências Herméticas de Paris, criada por Papus, e fundador do Instituto Neopitagórico de Curitiba, onde iniciava os discípulos nas doutrinas cabalísticas então enfunadas na Europa pelos novos sopros do irracionalismo.[1]

Irracionalismo? A notícia biográfica na coletânea preparada por Carollo, Cinerário & outros poemas, dá o perfil de um homem público, que tomou posições progressistas, inclusive em seu anticlericalismo, em defesa da separação entre Estado e Igreja e do ensino leigo, e seus protestos precursores contra o extermínio de povos indígenas. Para ilustrar, excertos dessa cronologia:

1895 – […] Liderou o movimento de intelectuais em defesa de Émile Zola, no caso do Affaire Dreyfuss, publicando manifestos, enviando abaixo-assinados e elogiando a obra doe scritor francês. […] 1896 – […] Liderou a campanha desencadeada através da revista O Cenáculo, “Pelos índios!”, defendendo a preservação das terras indígenas, condenando o massacre ocorrido no interior do Paraná, e já deixando entrever a crítica à Igreja pelo trabalho de catequese e, portanto, de descaraterização da cultura dos silvícolas. […] 1901 – […] Promoveu, em março, um meeting anti-clerical, principalmente contra os jesuítas, juntamente com o italiano anarquista Ernesto Pacini. […] 1905 – Publicou dois livros de caráter anti-clerical: Derrocada Ultramontana e No sólio da manhã. […] 1916 – […] Discursou por ocasião da visita de Bilac a Curitiba. […] precede a fala de Bilac com um discurso em favor do pacifismo. 1934 – Desenvolveu um projeto para tornar o Museu Paranaense um centro permanente de estudos populares […][2]

Em artigos para a imprensa, apresentou-se como maçom anti-autoritário e anti-clerical nas referências ao ódio anavalhante dos jesuítas e à arrogância do papado, além de homenagear o anarquismo na pessoa de Francisco Ferrer.[3] Procedeu a uma atualização ao passar do republicanismo e abolicionismo, bandeiras de etapas já vencidas, ao socialismo, como anunciado nestes versos de 1892:

Quebrem-se os cetros que a tormenta arranca!…
Flutue após longa bandeira branca,
O alto estandarte do Socialismo!…[4]

Ao mesmo templo, publicaria títulos como Ciência Oculta, Templo Maçônico, Esotéricas, estabeleceria contato com Papus, traduziria o Sâr Péladan, fundaria o Instituto Neopitagórico. Ao longo de sua vida – de 1869 a 1937 – hermetismo, literatura e atuação política correram paralelamente, de modo articulado. Veloso exemplifica as metamorfoses do esoterismo, de atividade subterrânea no século XVIII até as sessões públicas do Templo Pitagórico curitibano: índices de outras mudanças.

Já se falou muito em idéias fora do lugar a propósito de literatura brasileira. Se as idéias políticas de Veloso estavam fora do lugar, foi por serem precursoras; se a poética simbolista estava fora de lugar, foi por ser divergente.


[1] Bosi, Alfredo, História Concisa da Literatura Brasileira, Editora Cultrix, São Paulo, 1994.

[2] Vellozo, Dario, Cinerário e outros poemas, introdução, organização e notas, Cassiana Lacerda Carollo, Prefeitura Municipal de Curitiba, Coleção Farol do Saber, Curitiba, 1996, pgs. xlvi a l.

[3] Vellozo, Dario, Obras, volume II, Instituto Neo-Pitagórico, Curitiba, 1968, pgs. 284, 281 e 289.

[4] Vellozo, Cinerário e outros poemas, pg. 193.

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2 responses to this post.

  1. Posted by elizabeth lorenzotti on 02/03/2014 at 19:10

    obrigada, pois eu noa conhecia. e um homem desses, no nosso pais, no século 19, defendendo terras indigenas e Zola! ainda bem que nao temos só uma historia da literatura,..

    Responder

  2. Ótimo artigo, Cláudio. Vellozo fundou ou participou de jornais revistas literários importantes em Curitiba (divulgando a vanguarda européia como Baudelaire, Verlaine…) e foi um apoiador, junto com Emiliano Pernetta, de Cruz e Sousa, marginalizado socialmente. Sem Vellozo o movimento simbolista seria muito menos signficativo e no Paraná é até hoje um dos pontos mais altos a que chegou a literatura. O Templo das Musas, construído por ele em Curitiba é um lugar muito interessante de se conhecer, restaurado depois de um incêndio que destruiu obras valiosas. Leminski era um grande valorizador da herança intelectual de Vellozo, o que ajudou a que tenha sido mais valorizado. Mas sua obra é muito pouco lida. Utopista que criou uma escola revolucionária no interior agrícola selvagem do PR, publicou um livro poema nessa linha como “Atlântida”.

    Responder

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