Paul Eluard, poemas e imagens poéticas

A página mais acessada deste blog é minha tradução de « Union Libre », « União livre », de André Breton. Há apreciadores de imagens poéticas na blogosfera. Ótimo. Já vinha apresentando esse poema há tempos em oficinas de criação e cursos de surrealismo, em voz alta, traduzindo diretamente do original. A seguir, uma série de belos poemas de Paul Éluard, todos de Capitale de la douleur, de 1926, que também levei a oficinas e cursos. A imagem que abre o primeiro dos poemas da série é famosíssima e já suscitou páginas de ensaios e interpretações.

 

A terra é azul como uma laranja
Jamais um erro as palavras não mentem
Elas não lhe dão mais para cantar
Na volta dos beijos para se entender
Os loucos e os amores
Ela sua boca de aliança
Todos os segredos todos os sorrisos
E que roupagens de indulgência
Para acreditá-la inteiramente nua

As vespas florescem verde
A aurora se enrola no pescoço
Um colar de janelas
Asas cobrem as folhas
Você tem todas as alegrias solares
Todo o sol sobre a terra
Sobre os caminhos da sua beleza

 

Tua cabeleira de laranjas no vazio do mundo
No vazio dos vitrais pesados de silêncio
E de sombra onde minhas mãos nuas buscam todos os teus reflexos.

A forma do teu coração é quimérica
E teu amor se assemelha a meu desejo perdido.
Ó suspiros de âmbar, sonhos, olhares.

Mas tu não estiveste sempre comigo. Minha memória
Ainda está obscurecida por tê-la visto chegar
E partir. O tempo se serve das palavras como o amor.

 

Tua boca de lábios de ouro não está em mim para rir
E tuas palavras de auréola têm um sentido tão perfeito
Que em minhas noites de anos, de juventude e de morte
Ouço tua voz vibrar em todos os ruídos do mundo.

Nesta aurora de seda na qual vegeta o frio
A luxúria em perigo lamenta o sono,
Nas mãos do sol todos os corpos que despertam
Estremecem à idéia de reencontrar seu coração.

Lembranças de bosque verde, névoa na qual me afundo
Fechei os olhos sobre mim, estou para ti,
Toda a minha vida te escuta e eu não posso destruir
Os terríveis lazeres que teu amor criou para mim.

 

Tristeza de ondas de pedra
Lâminas apunhalam lâminas
Vidraças quebram as vidraças
Lâmpadas apagam lâmpadas

Tantos laços partidos

A flecha e a ferida
O olho e a luz
A ascensão e a cabeça.

Invisível no silêncio.

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2 responses to this post.

  1. Ah! os atritos surreais:

    “Tua cabeleira de laranjas no vazio do mundo”

    “A aurora se enrola no pescoço”

    “Um colar de janelas”

    “E tuas palavras de auréola têm um sentido tão perfeito

    Resposta

  2. como o eluard é bonito, tocante, simples e sempre surpreendente!

    tantos poetas surrealistas não publicados entre nós, e que merecem atenção: onde rené crevel? e robert desnos? sem falar de alejandra pizanirk, aqui do lado etc. etc.

    Resposta

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