Obscurantismo, histeria e principalmente analfabetismo funcional

Transcrevo informe de Sergio Cohn, da editora Azougue, sobre ataque a obra de Pierre Louÿs publicada por ele. Em seguida, meus comentários:

Em 2006, a Azougue Editorial publicou o livro “Manual de boas maneiras para meninas”, de Pierre Louÿs. O livro, escrito pelo importante escritor e poeta belga, é uma paródia dos manuais de comportamento da época, e se tornou um dos grandes clássicos da literatura libertina mundial. A edição do livro não é a primeira no Brasil, mas foi realizada com apuro e prazer. Agora, o livro e a editora, assim como a empresa que foi parceira do empreendimento (e que foi posteriormente vendida para uma empresa internacional, não tendo mais nada a ver com a história) estão sofrendo forte ataque na rede por conta de um trecho do livro, destacado de forma absolutamente parcial. Sendo o livro uma paródia, que buscava lutar contra as convenções sociais da época, é preciso a contextualização o conteúdo completo da obra e do seu significado, algo que é constante na edição, para o entendimento real deste trecho. Coisa que não foi feita pelos acusadores. O ataque contra a imagem da editora é grave, e a tentativa de censura a um livro de reconhecida importância para a literatura nos lembra períodos sombrios da nossa história. O que está por trás deste ataque não sabemos, mas é preciso estar atento. A Azougue Editorial repudia qualquer forma de censura, assim como reafirma o seu respeito às causas não apenas das mulheres, mas de igualdade de direitos entre os gêneros e liberdade comportamental.

O ataque, caudaloso, com bastante gente endossando, uma sucessão de disparates nos comentários, é este:

https://twitter.com/ThinkOlga/status/450619340157906944

Minhas observações:

  1. Justamente na efeméride, nos 50 anos do 31 de março, não precisavam provocar sensações de volta no tempo, de retorno do que, felizmente, deixamos para trás.
  2. É analfabetismo funcional por não se darem conta de que é sátira ao moralismo. Ou, sendo moralistas do tipo obscurantista, por sentiram-se atingidos.
  3. Ataque agora, em 2014, a um livro publicado no Brasil e patrocinado em 2006? Que saiu na França em 1917? Tardígrados.
  4. Logo pedirão novamente a censura de Henry Miller. De James Joyce. De D. H. Lawrence. De William Burroughs. De Sade. Das obras libertinas de Apollinaire. De… E reativarão, é claro, o escândalo de 1990 em torno de Hilda Hilst e de ‘O caderno rosa de Lori Lamby’.
  5. Essa gente é absolutamente inculta. Dê para lerem as cartas de Joyce a Nora Barnacle, para verem o que é bom.
  6. De Hilda, está em cartaz adaptação de ‘A obscena senhora D”. Mandar ingressos promocionais. Aí sossegam.
  7. Brindá-los com ‘A história de O’, atribuído a Pauline Réage (participação de Jean Paulham até hoje não está esclarecida, Alexandrian acha que foi ele). Melhor: na versão em quadrinhos por Guido Crepax. Tenho, empresto se precisarem.
  8. Sergio Cohn: publique mais Pierre Louÿs,. ‘Afrodite’. Principalmente, ‘Três filhas da mãe’ – aí se acalmam com relação ao “Manual de boas maneiras para meninas”. Faça edição do ‘Manual’ barata, com ampla distribuição. Que o escândalo divulgue um autor de qualidade.
  9. Descobrir onde se reúnem. Despejar sobre eles, de helicóptero, as reedições de Carlos Zéfiro. Enfim, há uma substanciosa biblioteca à espera deles, para instruir e edificar.
  10. Ah, quer dizer que a bronca é pela marca de cerveja Devassa estar patrocinando? Enxergam a mão maligna do capitalismo, empenhada em perverter os costumes? Durante o regime militar, censores achavam que era o “Movimento comunista internacional’, com o propósito subversivo de dissolver a família (li dossiês com relatórios deles, escrevi a respeito). Mudou o inimigo objetivo – a idiotice prossegue a mesma. Quanto a cervejas, substituirei Original, Itaipava e Cerpa, as menos ruins das brasileiras, pela Devassa. Aguardem fotos minhas no Facebook de garoto propaganda – segurando o livro e tomando a cerveja.
  11. Dá para evitar mais observações sobre a vida sexual mal resolvida dessa gente? Contenho-me.
  12. Falando sério – se bem que estou sendo sério o tempo todo e o episódio é grave: ver “apologia do estupro” em “Manual de boas maneiras para meninas” de Pierre Louÿs mostra que há pessoas sentindo-se ameaçadas pelo livro. Ilustra mais uma dessas confusões entre a esfera simbólica e aquela do real. Esse prefeito de Coari, Amazonas, que finalmente, anos depois, foi preso por encabeçar uma rede de prostituição infanto-juvenil – ele, seus inúmeros comparsas, seus incontáveis equivalentes – vocês acham que algum deles já leu Pierre Louÿs? Nem sabem quem é. Vocês acham que algum estuprador de verdade leu Sade? Enfim, e como sempre, os moralistas, os preconceituosos, retrógrados e histéricos jamais chegam perto de qualquer problema real. Só enchem a paciência.
Anúncios

8 responses to this post.

  1. Só enchem a paciência!!!

    Resposta

  2. Posted by Renata on 31/03/2014 at 22:31

    Ao que me parece, os intelectuais é que estão sendo preciosistas e comparando alhos com bugalhos. Tive a mesma leitura de “analfabetismo funcional” lendo este texto.

    Quem fala bobagens sobre os ataques serem à reedição do livro, não entendeu nada. Quem manda a gente ler as cartas de Joyce pra esposa ou livros de Hilda Hilst ou qualquer outra coisa “subversiva” entendeu menos ainda. Sabe muito pouco do apoio de boa parte das feministas ao sexo livre, às fantasias sexuais, à prostituição e pornografia. Entendeu tudo errado. O viés moralista quem está colocando são vocês. Não vi ninguém, principalmente no tweet citado, reclamar contra o livro e seu conteúdo. Muito menos outros conteúdos (preguicinha de machinho intelectualóide, nada do que vc citou é novidade pra mim – pasme! – que penso que o cinema ainda tem exemplos bem mais interessantes). A frase foi retirada de contexto, é verdade e o problema é uma marca com o histórico da Devassa usar como reforço de sua marca. Todo apoio à circulação da cultura. Todo repúdio a utilizar conteúdos satíricos que podem transmitir mensagem de duplo sentido dentro do contexto do material publicitário da cervejaria – uma grande mestra nisso.
    Importa pouco que tenha sido reeditado em 2006. A discussão sobre estupro está aquecida no momento, é óbvio que esse tipo de conteúdo vai pipocar e mexer com a sensibilidade alheia.

    É fácil desconhecer os atores envolvidos numa história e chamar a todos de “incultos” que “enchem o saco” por um episódio isolado, que pode ser vistomcomo equivocado para alguns. Mais complicado é procurar conhecê-los melhor, saber do seu trabalho, o que pensam, como agem, o que escrevem, o que sabem. Pra quê, né?

    Resposta

  3. Posted by Rodrigo on 01/04/2014 at 12:40

    “Não vi ninguém, principalmente no tweet citado, reclamar contra o livro e seu conteúdo.”

    Entendo que não tenha visto, afinal você não monitora a marca, mas para sua informação mais de 80% dos ataques se deram ao autor e a obra (talvez por ter aparecido mutilada), se tiver curiosidade busque por Devassa no twitter e veja se estão reclamando do uso da obra por parte da Devassa ou como posso te citar alguns exemplos:

    “#Azougue Editorial e #Devassa reavalie se irá consumir algo dessas marcas, cuja propaganda faz apologia ao estupro. ”

    “próxima pessoa que me falar que gosta de ler já vou ser bem direta e perguntar QUE LIVRO porque sei lá né gente vai que é aquele da devassa”

    “Livro babaca, patrocinado pela cerveja Devassa.””

    “To de cara com essa porra dessa merda desse livro da Devassa, sério.”

    “@BemDevassa sua #coleçaodevassa é ridicula e machista que isso deixar amenina ser estrupada enão fazer nada ? voces são nojentos”

    “e aí, @BemDevassa , já foi PRESA POR INCITAR ESTUPRO HOJE???””

    “@ThinkOlga: .@BemDevassa, é com esse conteúdo que você quer associar sua marca?”

    Fechando com o tuíte original que demonstra claramente que o questionamento é com a obra e não como nem 10% dos comentários que reclamavam pelo uso publicitário do clássico pela cervejaria.

    Antes que ache que eu errei a conta, outros 10% são comentários neutros que apenas espalharam o acontecido de ontem.

    Resposta

  4. Posted by claudia on 01/04/2014 at 19:49

    acho sim, que estupradores “de verdade”leram sade, por que não? afinal, quem estupra são os pais, irmãos amigos, preto, branco, rico, pobre, universitário, professor, médico, pedreiro, office boy, executivo, enfim, homens, machistas. aliás, muitas das obras citadas pelo articulista são sexistas.

    Resposta

  5. Pierre Louys se remexeu no túmulo, depois do livro escrito em 1925 causar furor em 2014, entendido como uma violação à mulher quando trata-se de um manual que satirizava a etiqueta proposta às moças da aristocracia. Estas moças exacerbadas de 2014 precisam se informar melhor antes de escreverem bobagens. Se virem o que Sade faz com Juliette vão buscá-lo no inferno para enviar a outra fogueira. E nem sei o que é pior: o demo ou preconceito vesgo travestido de modernidade.

    Resposta

  6. Posted by Vince on 02/04/2014 at 11:34

    Total apoia à causa feminista, repúdio contra a misoginia implícita nos comerciais e marcas de cerveja, se algum coletivo aos moldes daquele Ucraniano decidir colocar a baixo fábricas e usinas de maltagem, podem contar comigo. Agora chamar Pierre Louÿs de ‘escritor escroto’ e a Azougue ‘de mal intencionada’ com tenho visto nos tópicos alhures que debatem o assunto é um desserviço. Queimar livros é atitude que não coaduna com o que acredito ser o caráter vibracional do movimento feminista, pelo contrário, cercear cultura é típica estratégia dos machos e das estruturas patriarcais, que ao me ver, no caso de uma realocação temporal, seria alvo de ataques bem humorados e deliciosamente escritos do próprio Pierrre Louÿs. Muita gente está achando que o livro é panfleto pró-estrupo baseado em três linhas, sem levar em conta o resto do livro, e principalmente, o resto da obra. Quanto a Devassa ter patrocinado, pode até ser que dê uma caráter de oportunismo, dado o histórico das campanhas de cerveja, mas aí, o pau tem que descer na devassa e seus marqueteiros e não na Azougue e no Louÿs, que estraram de gaiato nessa roubada simbólica. O mundo não é um twitter, e 140 carácteres não podem ser o resumo da obra de um autor. Julgar um livro, só tendo lido ele inteiro, por favor.

    Resposta

  7. a editora baiana Agalma publicou As Três Filhas da Mãe, bem como um romance fundamental da dobra da pornografia do Antigo Regime para a pornografia burguesa: Gamiani ou Duas Noites de Excessos, atribuído a Alfred de Musset. Recomendo!

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: