O lançamento da campanha “Índio é nós” e da revista Poesia Sempre

O lançamento da campanha “Índio é nós” e da revista Poesia Sempre

Foto: índia Kamaiurá “indoors”, preparando os beijus, das que tirei no Xingu em 1967 (há mais, dezenas, publicarei álbum em Cronópios).
Evento “Ìndio é nós”, haverá novas manifestações dias 17 e 24 de abril, em favor da demarcação das terras indígenas do Jaraguá e Tenondé Porão, em São Paulo. Mais em http://WWW.facebook.com/yvyrupa e http://www.yvyrupa.org.br
Ouvi relatos de extermínios recentes. São mais de 200 líderes indígenas mortos desde 2002– já havia publicado aqui sobre o retrocesso recente na questão do índio.
Revista Poesia Sempre, cujo nº 37 foi lançado durante o evento, desde o começo teve excelente qualidade – mas esta edição é especial. Histórica, a meu ver, pelo modo como promove a reinserção do índio no “corpus” da literatura brasileira. Enfrentou dificuldades com a burocracia de direitos autorais de índios – tutelados pela FUNAI, é necessária autorização através do órgão, que não se consegue. O problema é abordado em um dos textos: “Direitos autorais e culturas ameríndias: uma conversa com Carlos Fausto”, por José Eisenberg e Sergio Cohn. Poemas de índios que poderiam ter sido publicados como tais acabaram entrando como citações em dois artigos substanciosos, “Linjaguar: os ameríndios na literatura no Brasil” de Sergio Cohn e “Desafios das poéticas ameríndias” de Pedro de Niemeyer Cesarino. Cohn, que já publicou cantos indígenas pela Azougue e fez a maior parte dos levantamentos que constituíram a revista, também entrevista Lúcia Sá, autora de Literaturas da floresta: entre outras questões, fala da intersecção do reconhecimento literário e do direito á terra.
Não falta o que ler. Textos pioneiros, da primeira metade do século 19, de história da literatura no Brasil. A visão clássica e romântica do índio, incluindo esse interessantíssimo Bernardo Guimarães. Dossiê, com fac-símile da Revista de Antropofagia na qual saiu o Manifesto de Oswald. Poetas contemporâneos tratando do índio, de Luiz F. Papi e Jorge Tufic até Ailton Krenak e André Vallias: o conjunto surpreende. Iconografia.
Haveria mais. Seria possível achar o manifesto “Pelos índios!” do simbolista-esoterista Dario Veloso, condenando massacres de índios no Paraná já em 1896? Também por causa de direitos autorais, ou de sucessores obtusos, ficaram fora, entre outros, os indispensáveis Raul Bopp e Mário de Andrade.
Algo que me interessa especialmente, nesses conjuntos: o modo como confluem o mais arcaico, a expressão de sociedades tribais, e o mais contemporâneo, poetas de hoje: há glossolalias, subordinações do sentido ao som, poemas que são puro ritmo, medida originária do tempo, conforme assinala Octavio Paz, nos dois conjuntos.
Com isso, encerrou-se bem a atuação de Afonso Henriques Neto como editor de Poesia Sempre, com Alberto Pucheu como editor adjunto. E minha passagem pelo conselho editorial. Valeu. Como se sabe, a distribuição comercial de Poesia Sempre inexiste. Tentar através de poesiasempre@bn.br ou http://www.bn.br/; ou então ir lá, à Biblioteca Nacional.

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2 responses to this post.

  1. Posted by Ana Acquesta on 06/04/2014 at 21:36

    Lindas fotos mestre, pena não deu para ir, fica prá outra. Sucesso seu blog hém…

    Responder

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