A poesia dos índios brasileiros e os índios na poesia brasileira

Nesse III FIP, Festival Internacional de Poesia do Recife, que noticiei aqui em https://claudiowiller.wordpress.com/2014/05/17/o-iii-festival-internacional-de-poesia-do-recife/ , além de ler poemas e falar sobre xamanismo, assisti à sessão “Popol Vuh e Jurupari: poesia ameríndia e o sagrado”, com Sérgio Medeiros e Douglas Diegues, moderada por Delmo Montenegro. Gostei muito.
Ocorre-me propor e tentar organizar um festival de poesia temático, sobre os índios. Algo como “Os índios na poesia brasileira e a poesia dos índios brasileiros”.
Lanço aqui a idéia. Farei contatos.
Seria calcado, entre outras fontes, no trabalho de Sergio Cohn e Pedro de Niemeyer Cesarino ao colaborarem ativamente na preparação de “Poesia ameríndia no Brasil”, tema da última edição da revista Poesia Sempre – n. 37, de 2013, então editada por Afonso Henriques Neto, com Alberto Pucheu como editor adjunto. Tentem adquirir.
Estamos alienados com relação às expressões das culturas de nossos índios. Contribuirá, penso, acrescentar ao debate político em curso o trabalho na esfera propriamente cultural. Mostrar sua criação poética.
Apreciei muito observações de Sérgio Medeiros nessa sessão do III FIP, sobre a relação dos mexicanos com o Popol Vuh, cuja edição (da Iluminuras) ele preparou em parceria com Gordon Brotherson, e o Livro dos Livros de Chilam Balam: são tidos como fundamentais. Aqui, pouco se sabe sobre o complexo Jurupari, cuja edição Medeiros está para lançar. Brasil, país alienado de si mesmo, apesar dos Mário de Andrade, Darcy Ribeiro, Lévi-Strauss, e dos bons autores recentes, como Eduardo Viveiros de Castro, Manoela Carneiro da Cunha, Betty Mindlin, entre outros.
Douglas Diegues, organizador de uma preciosidade bibliográfica (ganhei dele), Kosmofonia Mbya Guarani de Guillermo Sequera (Mendonça & Provazi, 2006), fez observações sobre o modo como os povos guarani valorizam o símbolo. Riqueza, para eles, é ter patrimônio simbólico, não material. Teríamos muito a aprender nesse quesito.
Outras referência bibliográficas importantes, além das que citei – Poesia Sempre, Popol Vuh e Kosmofonia Mbya Guarani – são, a meu ver, as edições da Azougue de cantos de indígenas, em um projeto que teve o patrocínio absurdamente interrompido pelo Ministério da Cultura. E Couro dos Espíritos (SENAC e Terceiro Nome, 2001), registro de narrativas dos Gavião Ikolem da Rondônia preparado por Betty Mindlin e colaboradores indígenas. Esse volume, já levei a oficinas e cursos de surrealismo, para mostrar como são relatos não-discursivos. Isso, para não falar de bons registros iconográficos, em primeira instância de Claudia Andujar, além de Maureen Bissiliat e outros.
A propósito de índios e surrealismo, deveria estar publicada no Brasil a Anthologie des mythes, légendes et contes populaires d’Amérique, de Benjamin Péret, com um débito reconhecido para com Darcy Ribeiro, personagem decisivo, que faz falta em face dos acontecimentos recentes (homenagearia, nesse festival que estou sugerindo). E a obra prima, Le Miroir du Merveilleux, de Pierre Mabille. Quem quiser saber mais sobre sincronia de culturas tradicionais e poesia, leia.
Teorizo (um pouco de teoria literária não fará mal a ninguém): vanguardas, movimentos inovadores, recuperam o arcaico. São pontas que se tocam. A poesia de hoje tende a dialogar com aquilo que foi recalcado do nosso passado. Os poetas-xamãs. A etnopoesia.
Enfim, a idéia está lançada. Quero apoio e adesões. Vamos fazer que esses conhecimentos e criações ultrapassem o circuito especializado. Que se tornem mais públicos. Isso nos enriquecerá.

8 responses to this post.

  1. Caro Claudio Willer, recomendo que dê uma olhada também na edição 5 de BABEL Poética que fiz, compondo uma série de 6 edições publicadas em 2012/2013 com a temática geral “Poesia na Era Lula”. Essa edição 5 é integralmente à questão dos índios e, além de impressa com 10 mil exemplares distribuídos pelo MinC, está disponível no Issuu. Segue o link:

    abraço [ademir demarchi]

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  2. Posted by Célia Musilli on 25/05/2014 at 23:51

    A ideia é excelente, além de todos os que trabalham com a poesia etno, há escritores indígenas que poderiam participar do projeto divulgando literatura em tupi-guarani. Uma das mais conhecidas é Eliane Potiguara. O Brasil tem uma riqueza cultural extraordinária sob este ponto de vista..

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  3. Posted by maria das graças dos santos on 26/05/2014 at 08:53

    Excelente projeto.Precisa ser realizado.

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  4. Gostei muito de suas considerações. Sugiro que apareça no XVI Salão FNLIJ de Livros para Crianças e Jovens. Ali haverá a presença de autores indígenas brasileiros que produzem literatura para crianças e jovens. Há um encontro específico. Será entre os dias 28 de maio e 8 de junho. Talvez ali consiga mais informações sobre nossa produção literária.
    Para 2015 estamos pensando em realizar o I Encontro Internacional de Escritores Indígenas.
    abraço

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  5. Maravillosa idea, desde mi cátedra de Literatura Latinoamericana de la Universidad Nacional de Río Cuarto en Argentina, trabajamos con esta mirada teórica la poesía indígena como ruptura epistemológica con el canon eurocéntrico, unilingüístico, y monocultural… Buenísima Idea. Marisa Moyano – UNRC

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  6. Posted by solange on 11/06/2014 at 02:42

    ideia maravilhosa. conte comigo para o que for.

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  7. Posted by Luiz Eduardo Laufer on 10/08/2015 at 01:55

    Sou Luiz Eduardo Laufer M, adorei a sua ideia e quero poder intercambiar outras ideias e projetos com voce.
    Meu email: elaufer2012@gmail.com

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