“Kaddish” de Allen Ginsberg (1926-1997)

Completaria 88 anos hoje, dia 3 de junho. Já postei inéditos dele, algo da minha tradução de Uivo e outros poemas, e comentários sobre sua lucidez política, especialmente https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-wall-street/ .
Seu biógrafo Barry Miles, no excelente The Beat Hotel, compara o final de “Kaddish”, o extenso poema de Ginsberg sobre sua mãe, a um poema de André Breton, “Union Libre”, que ele teria lido naquela época.Será? Podem comparar, pois minha tradução do poema de Breton é o post mais acessado neste blog (e isso atesta em favor dos que me freqüentam): https://claudiowiller.wordpress.com/2013/06/17/a-uniao-livre-de-andre-breton/
De fato, é como se um fosse o avesso ou complemento do outro. Ambos valem-se da anáfora. Breton, lírico e luminoso; Ginsberg, sombrio e plangente. Um sobre o encontro, através de imagens poéticas; outro sobre a perda, com metáforas realistas e associações livres. Mas Ginsberg sempre usou magistralmente a anáfora ou mote, como no vigoroso final de “Uivo”, em “Eu estou com você em Rockland” etc.
Em Negócios de família (editora Peixoto Neto), a correspondência de Ginsberg com seu pai, Louis, também poeta, esse reconhece a grandeza de “Kaddish” – mas reclama da “longa barba negra ao redor da vagina”, inclusive pedindo que a retirasse.
Miles ainda conta, em The Beat Hotel, que Ginsberg chorava ao escrever poesia: ao criar “Kaddish”, teve certeza de que seria um bom poema, pois chorou muito. Tenho citado, como antídoto para a declaração de João Cabral, de que “a emoção não cria”. Claro que não exclusivamente – mas contribui.
KADDISH
IV
Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços
com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey morrendo numa ambulância
com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores
V
Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island
Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra
có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes
Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có Senhor
NY, 1959

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4 responses to this post.

  1. Posted by Jennyfer Galdino on 03/06/2014 at 21:02

    Kaddish is THE FUCKING GUT, THE FUCKING GUT. Foi meu ritual de passagem pros recém-vivos, abriu minhas portas ( da percepção?) pro mundo beat. Não sei falar até hoje sobre Kaddish sem chorar ( que elo, né? :)) ).
    Beijão, Willer 😉
    P.S.:em breve tiramos fotos fumacentas de novo!

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  2. Republicou isso em Emerson M. M..

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  3. Posted by Johna767 on 03/07/2014 at 13:51

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