O artigo sobre minha poesia na revista Cult e um poema

De Claudio Daniel, intitulado “Claudio Willer: a jornada em busca do encantatório”, na revista Cult deste mês (nº 191, ano 17, junho de 2014, acompanhado por uma seleção de poemas, inclusive inéditos). Mostra o leitor preparado, capaz de observações precisas: “A escritura não como reflexo do cotidiano imediato, mas como construção de uma realidade com sua própria morfologia do desejo. A poesia surrealista é um território onde a lógica habitual, no campo do discurso e da ação, cede lugar à multiplicidade de outras formas possíveis de composição de cor, som, idéia, forma e movimento, símiles ao sonho, aos estados alterados de consciência ou às práticas ancestrais de busca do êxtase.”
Poeta, estudioso e professor de literatura, programador de poesia (mas outros com a mesma qualificação nem por isso mostram-se capazes de produzir algo aproveitável), adiciona à minha “fortuna crítica” (como gostaríamos que se transformasse logo em fortuna material…). Enxerga etapas, paralelas aos livros que publiquei. Em Anotações para um Apocalipse, mitologia e natureza, “pântanos, gaviões, mangues, musgo, folhagens e outros flashes de uma floresta imaginária.” Em Dias circulares, sou um poeta que “observa (e transforma) a paisagem urbana”, de um modo não-realista que “remete, antes, ao olhar alucinado de um Lautréamont.” Jardins da provocação, um “divisor de águas” com “poemas de sintaxe mais discursiva, com o ritmo prosódico da linguagem falada”, e referências autobiográficas. Estranhas experiências tem “como leitmotiv o tema da viagem”, diálogos com a tradição literária, poemas sobre o amor, a cidade, a loucura e o enunciado de uma poética.
E já houve quem me classificasse como hermético, obscuro, até ininteligível… Entender o que escrevo é simples – basta saber ler. Só acrescentaria que a “floresta imaginária” de Anotações para um Apocalipse é, ao mesmo tempo, real. Viajei muito, de Santa Catarina ao Pará, acampei em praias desertas e no meio do mato. Minha foto de Facebook, descendo o rio Pindaré (MA) em uma canoa, é daquela época.
A propósito de mitos, é citado um poema de Anotações para um Apocalipse que “faz alusão ao desmembramento de Osíris (episódio que pode ser comparado ao assassinato de Orfeu pelas Mênades, que fragmentaram seu corpo, entre outros paralelos mitológicos, incluindo o curioso episódio chinês de Pan Ku)”. Fui intuitivo. Quando escrevi o poema não estava pensando nisso. Mas aproveitei a interpretação (já havia lido o pdf do artigo) em minha mesa sobre xamanismo e poesia, semana retrasada no festival de poesia do Recife (hora de promovermos uma iniciativa como essa aqui em São Paulo). Há universalidade das iniciações xamânicas, com a descida aos subterrâneos na qual o corpo é retalhado e refeito. Os mitos de Osiris e Orfeu – entre outros, Cristo e Dionísio também – são atualizações.
A seguir, reproduzo na íntegra o poema citado, escrito há 50 anos. Assim como outros, está em Estranhas experiências, disponível na praça. Leiam-me. E adquiram a Cult – substanciosa, com dossiê Foucault e mais.

O VÉRTICE DO PÂNTANO
J’ai tant revê de toi
que tu perds ta realité
Robert Desnos
1
O pântano é um espelho despedaçado – nele flutuam imagens conduzindo ao além-mar das derrotas, dos dias de angústia mais negra. Eu me perderei pelos labirintos e pelas mansardas, em busca de uma lembrança cercada por antenas trêmulas e lampiões chineses. Abrem-se as corolas para mais um abraço mortal do destino, e a cidade estremece e recua diante da proximidade do Apocalipse, enquanto percorro as ruas de muralhas desabadas e canteiros desertos, as mansões que aprisionam tempestades de gaviões negros. A cidade e seus serpentários, sua coloração de sacrifício, suas vertigens, seus braços que não alcançam mais o próximo instante. Os telhados me sufocam e dão a certeza de que há gestos que são uma antecipação da morte e olhares que encerram abismos.
2
O rio e seus afluentes de tóxicos, seus igarapés de cocaína, sua tumultuosa visão de serpentes. Marte comanda a morte, caminhando sobre seus carrilhões surdos. Eu sempre me senti atraído pelo Oriente, todavia, e um magnetismo surdo dava a direção dos meus passos desprotegidos para a Vida e comandados pela Vertigem. Assim foi que se dissociaram as partes do meu corpo: as vísceras emaranhadas na copa de um coqueiro, as mãos despenhadas em crateras, os pés calcados em um formigueiro em planície árida, a cabeça congelada e fixa em uma encosta, os olhos vidrados para sempre fitando o poente, os genitais perdidos na correnteza de algum rio que nunca chegará ao oceano, os pulmões arrastados por falcões insensíveis, os demais membros perdidos em tetos de edifícios ou então fincados em troncos milenares.
3
A palavra Amor desaba pelas paredes do quarto, com um turbilhão de outras palavras: cratera, aventura e fonte, navio, acaso e fuga, serpente, hora e salamandra, astro, circuncisão e potência, batismo de chamas, lâmpada submersa e gavião metálico, sombra calcinada, ossos enferrujados e areias movediças, tocaia de insetos ardentes, febre de sensações líquidas e marfim cravado de flechas, espirais de concreto colorido, locomotivas embriagadas ao poente e associações de leopardos tristes, cânticos soprados pela estepe, cortinas rasgadas dançando ao meio-dia, mantos hipnotizados, obscuridade povoada de plantas aquáticas, ilha habitada por morcegos, floresta de arbustos congelados, tempestade de pombas atravessadas por agulhas, antemanhãs, libélulas… A conspiração dos silêncios entrecortados de soluços toma conta da madrugada e congela o pensamento ao redor de uma só imagem: sombra navegada pelo incesto, campo do meu desejo galopante. O peso da invocação é tamanho que meus vasos sanguíneos ficam irremediavelmente emaranhados. O cérebro, cortado em duas metades, fixa o olhar para além dos contornos. A invocação é tamanha que paredes se dobram e novos ferimentos surgem sobre os corpos. A sombra é mais real que os passos, todo rastro é uma sedução definitiva, há imagens que são convites ao delírio e outras que nos arrastam sobre mortalhas, salões abandonados e despenhadeiros de lâminas.
4
Todo rio é um convite ao sobressalto, à morte através de chamas e venenos terríveis. Todo rio é um convite ao amor entre raízes milenares e campos roxos sulcados por veios de cristal. Pianos antigos, estações ferroviárias, um telégrafo enferrujado: fragmentos que gotejam sobre o meu corpo parcialmente destruído pela madrugada, o coração lancetado por um lírio ardente, galgado por mãos sensíveis segurando punhais, e engastado em um paredão infinito, entre pupilas veladas, algemas de marfim, e estandartes gravados a fogo. Isso, durante anos, que se dissolviam carregados pela tempestade. Não temíamos, porém, a escuridão, nem os perigos da febre e do mármore, e as conspirações de silêncios lacrados. Fomos só nós dois, unidos como um véu flutuante, à espera de maiores presságios. Só nós dois, os corpos inertes e solenes, no meio dos espelhos mansos e das crateras que não perdoam. Assim lançamos nosso desafio, apenas os dois, e a conivência dos sabres e das medusas.

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2 responses to this post.

  1. Belo artigo, à altura de sua produção poética.

    Responder

  2. Posted by Lou Albergaria on 08/06/2014 at 01:05

    Que maravilha, encantado professor! Ontem reli alguns de seus poemas e fico feliz em saber que sua poética está mais viva do que sempre! Evoé!

    Responder

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