Mais páginas de cartas de Allen Ginsberg

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Tem que clicar sobre os números, aparecem os arquivos em pdf. Mostram como Ginsberg esclareceu, uma a uma, minhas dúvidas. O terceiro dos arquivos, aqui numerado como 2, é especialmente importante. Conforme observei em artigos e em prefácios de Uivo e outros poemas, um procedimento que utilizei, sempre que tivesse função no texto, enriquecendo-o e adequando-se ao ritmo e prosódia, foi a dupla tradução, uma palavra para cada sentido. Isso foi sugerido pelo próprio Ginsberg. Uma das dúvidas que lhe apresentei referia-se à palavra rare, em “Sobre a obra de Burroughs”, um poema importante por conter uma poética, idéias sobre criação literária. Na frase “with rare descriptions”, a expressão “rare” corresponde a raro, diferente, especial; mas também podia significar cru, malpassado, como em “rare done meat”, bife malpassado. Ginsberg respondeu-me que, para ele, os dois sentidos cabiam, e a escolha ficava por conta da minha sensibilidade (“your delicay of feelings”, escreveu). Então, fiz a dupla tradução, obtendo como resultado “raros relatos crus”.
Em outras passagens também há palavras com duplo sentido como recurso para a polissemia. Por isso, acabei utilizando o mesmo procedimento, dupla tradução, em outros trechos desta edição, especialmente em estrofes de “Uivo”, sempre com o pensamento voltado para o sentido, e o ouvido atento à prosódia. É o caso de, em “Uivo”, no original, “incomparable blind streets”. Uma “blind street” pode ser a mesma coisa que “blind alley”, beco sem saída. Mas a tradução literal, “ruas cegas”, também cabe, pelo contraste com o “clarão da mente” e os postes de iluminação logo em seguida. Daí haver juntado as possibilidades, fazendo “incomparáveis ruas cegas sem saída”, a dupla tradução para o duplo sentido. Também em “Uivo”, em “leaping towards the poles of Canada & Paterson”, a palavra pole pode significar um pólo geográfico, e um poste de rua, mastro, estaca. Aqui, a dupla tradução, resultando em “pulando nos postes dos pólos do Canadá & Paterson”, gerou uma imagem sonora forte, com essa sequência consonantal, p-p-p-p, e vocálica, o-o-o-o-o-o, explosiva (pó-pó-pá, etc).

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3 responses to this post.

  1. Quando li o prefácio de Uivo chamou-me muito a atenção este caso da dupla tradução, achei genial. “Raros relatos crus” incorporando ambiguidade da expressão ficou muito bom.

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  2. perfeito, por mais que a mão coce para abrir em portmanteaus como soluções! ahahah 😉

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