Sobre a pré estreia de ontem de “Kill your Darlings”, “Versos de um crime”

Gostei, é claro, de ser convidado. E de conversar com o público que ficou lá por mais uma hora, fazendo boas perguntas. Mas tenho observações. Perguntei se alguém havia visto o Lucien Carr por lá. Diante da negativa, comentei: “Ótimo, então ele não se ergueu do túmulo por causa deste filme.”
Há um crescimento da cinematografia beat – Na estrada de Walter Salles, Uivo de Rob Epstein, esse agora de John Krokidas e vem aí Big Sur de Michael Polish. Aguardo o documentário sobre a beat que Salles fez, como preparação de Na estrada. Coincide com a maior circulação das obras e também o crescimento da bibliografia, de bons ensaios, desde 2000. Mais gente percebendo que se trata de literatura, e não só de escândalo provocado por um bando de desregrados. Um indício, a L&PM haver passado o “Manuscrito original” de On the Road do formato livrão para pocket. Sinal de que estão lendo – e essa edição da versão original é para quem for fazer literatura comparada, colocando as duas versões lado a lado, a inicial e a final (entre uma e outra, houve mais, Kerouac copidescou-se por anos a fio), para conferir o que foi retirado e acrescentado – e pelo bom apoio crítico, os ensaios que abrem a edição.
E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques de Burroughs e Kerouac (Companhia das Letras, 2011), relata aquele assassinato de David Kammerer. Só pode ser publicado após a morte de Carr em 2005. É obra pré-beat – nem Burroughs nem Kerouac estavam prontos e, assim como Ginsberg, só encontrariam sua voz, a identidade literária, na década seguinte. Como tinham intenção de publicá-lo, suavizaram muita coisa. No livro, o personagem de Burroughs se droga – mas nem uma palavra sobre homossexualidade, não podia tocar no assunto. A edição vem com o posfácio de James Grauerholz (foi companheiro e secretário de Burroughs), trazendo informação, restabelecendo fatos, além de discutir isso de matar homossexuais – na época, Carr só não se livrou totalmente, apesar do escândalo (deu primeira página nos jornais), porque seu advogado não se empenhou, achou que 18 meses de instituição correcional já estava bom. Mas assédio daquele tamanho – Kammerer seguiu Carr desde os 11 anos desse – tampouco passaria.
O melhor tratamento literário dessa história está, a meu ver, em Vanity of Duluoz de Kerouac, obra prima à espera de edição brasileira -e de tradutor que ouse encará-la.
Kropkidas e colaboradores inventaram livremente, nisso diferindo de Salles, que pesquisou. Fizeram dramalhão gay, achei. A presença das mulheres é obliterada. Edie Parker foi central, agregou, era em torno dela que a turma se reunia, foi quem apresentou Carr a Kerouac. Joan Vollmer, que encantava pela inteligência, nem aparece – cf. o excelente Women of the Beat Generation de Brenda Knight. O Kerouac e o Burroughs do filme são inexpressivos, nada do carisma dos personagens reais. Daniel Radcliffe continua Harry Potter.
Farei mais comentários, sobre esse e outros filmes, além do que já publiquei, entre outros lugares, em http://cronopios.com.br/site/critica.asp?id=5458 e http://cronopios.com.br/site/critica.asp?id=5456 . Gostaria de ter acesso a Heart Beat de John Byrum, dizem que é bom. Aguardo uma cópia viável do precursor Pull my Daisy (1958) de Robert Frank, Alfred Leslie, David Amram e Kerouac. E a distribuição comercial do documentário de Salles.

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