As traduções de Allen Ginsberg: “Sobre a obra de Burroughs”

É continuação do meu penúltimo post, reproduzindo cartas que recebi de Ginsberg e observando como contribuíram para minha tradução. Referi-me à dupla tradução, o ‘rare’ de “On Burroughs work” traduzido como “raro” e “cru”, com o endosso dele. Achei no Google o original do poema. Reproduzo-o e em seguida minha tradução em Uivo e outros poemas, para esclarecer.
Nessa tradução, não economizei na prosódia, com aliterações e rimas internas. Foi espontâneo, direto, apoiei-me no ritmo. Outros poemas me deram mais trabalho. Além de “Uivo”, extenso e complexo, também “No túmulo de Apollinaire”, no qual brinquei com o “amar eternamente / amar é ter na mente / amar éter na mente”, além de aplicar uma pincelada proustiana – datilografei seis vezes, ainda não se usava computador em 1984, até ficar como eu queria. Futuramente, reproduzirei aqui o poema.

On Burroughs’ Work
The method must be purest meat
and no symbolic dressing,
actual visions & actual prisons
as seen then and now.

Prisons and visions presented
with rare descriptions
corresponding exactly to those
of Alcatraz and Rose.

A naked lunch is natural to us,
we eat reality sandwiches.
But allegories are so much lettuce.
Don’t hide the madness.

San Jose, 1954

Sobre a obra de Burroughs
O método deve ser a mais pura carne
e nada de molho simbólico,
verdadeiras visões & verdadeiras prisões
assim como vistas vez por outra.

Prisões e visões mostradas
com raros relatos crus
correspondendo exatamente àqueles
de Alcatraz e Rose.

Um lanche nu nos é natural,
comemos sanduíches de realidade.
Porém alegorias não passam de alface.
Não escondam a loucura.
San Jose, 1954

AS NOTAS:
1. raros relatos crus – a dupla tradução: no original, with rare descriptions. Rare é raro, diferente, especial, mas também cru, malpassado, em rare done meat. Crus faz um par com nu, dando nu e cru, expressão que significa verdadeiro, realístico, acentuando o sentido do poema.
2. um lanche nu – Este poema foi escrito na California em 1954, enquanto Ginsberg ia recebendo por carta, de Tanger, trechos do que Burroughs denominava de routines, narrativas que, remontadas, viriam a compor Naked Lunch, terminada em Paris quatro anos mais tarde. O sanduíche da linha seguinte leva a concluir que a tradução desse título para o português pode ser Lanche Nu, e não só Almoço Nu, apesar de lunch, em inglês, significar almoço, tanto quanto refeição leve. Ginsberg gostou da metáfora ‘sanduíches de realidade’, ‘reality sandwichwes’ e a usou como título de seu terceiro livro de poemas.

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3 responses to this post.

  1. Muito interessante e atraente essa publicação. Incita aqueles leitores, que não escapam da loucura que se nos apresenta, a brincar e desdobrar o assunto, de acordo com o móbile constante do seu texto… ‘as seen then and now’ – ‘tais como vistas assim e agora’… ‘But allegories are so much lettuce.’ – ‘Mas as alegorias contém alface em excesso.’… ‘with rare descriptions’ – ‘Em raros relatos’…. Claro, a (minha) brincadeira acima é irresponsavelmente impetuosa, inadiável e reativa… Parabéns. Obrigado pela divulgação.

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  2. Li a publicação anterior, com os manuscritos do autor, especialmente no que tange à ampliação do sentido em ‘raros relatos crus’, tanto quanto ‘blind street’. Fantástico.

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