O controle e manipulação da informação no meio digital

O Marco Civil da Internet prevê um Comitê Gestor, para o qual não faltará assunto. Contribuiremos, encaminhando o estudo FACEBOOK: Casos de censura no Brasil de Wilheim Rodrigues Macedo Lima, um TCC apresentado ao Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP:
https://catracalivre.com.br/geral/rede/indicacao/estudo-na-usp-tira-10-por-mostrar-as-fotos-proibidas-no-facebook/
Utiliza bastante, como fonte, meu dossiê registrando dezenas de casos.
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/22/censura-no-facebook-um-dossie/
Corrobora as observações sobre o caráter seletivo da censura. A pretexto de impedir circulação de pornografia, foram retiradas reproduções de obras expostas em museus – até mesmo o Nascimento de Vênus de Boticelli…! – e fotos de notícias em jornais. Alvos preferenciais: índios e mulheres, incluindo páginas sobre amamentação e prevenção de câncer no seio. E com o desrespeito gritante de tirar perfis do ar, suspendendo usuários.
Ao mesmo tempo, é permitida toda sorte de barbaridades. A propósito, uma das reclamações que recebi foi de um autor de um post sobre “o canalha Aécio Neves”. Abri a página dele, todas as postagens eram sobre o “canalha Aécio Neves”. Achei que poderia ser entendido como injúria e não incorporei a meu dossiê. Contudo, a pesquisa de Wilheim Rodrigues Macedo Lima mostra, circulando livremente, uma mensagem da mesma família dos insultos a políticos, porém sobre Lula, chamando-o de “demônio”. Ora, o que vale para Francisco deveria valer para Chico (ou vice-versa). Acrescidas a mais postagens registradas pelo pesquisador, inclusive em favor do estupro e outras modalidades de violência, levam à suspeita de que a “moderação de conteúdo” da rede social é feita por um bando de obscurantistas. Resta tentar entender qual o interesse de Zuckerberg e demais dirigentes do Facebook em um viés ideológico tão escancarado; em ser instrumento de algo organizado, uma periferia lunática dedicada a vigiar postagens e multiplicar denúncias.
Outro grande tema é a pesquisa do próprio Facebook, mostrando como o controle das postagens recebidas por usuários poderia influenciar seu comportamento. Repercutiu, provocou comoção:
http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/07/1480167-editorial-manipulacao-em-rede.shtml
http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,o-fim-da-inocencia,1523822
Cito, desse artigo em O Estado de São Paulo:

“Agora, a má notícia: a tecnologia nas mãos privadas continua à frente da Justiça, como mostra o escândalo causado pela revelação de uma experiência behaviorista feita pelo Facebook sem notificar seus usuários. Durante uma semana, em 2012, o algoritmo do site de Mark Zuckerberg foi alterado para manipular o conteúdo dos feeds de notícias de 689.003 membros. Uns recebiam notícias positivas, outros recebiam notícias ruins. A experiência resultou num estudo na prestigiada publicação acadêmica Proceedings of the National Academy of Sciences, assinado por cientistas do Facebook, da Universidade de Cornell e da Universidade da Califórnia. O título do estudo é Evidência Experimental de Contágio Emocional em Massa através de Redes Sociais. Os cientistas do Facebook queriam saber se a exposição a notícias negativas influenciava as postagens dos internautas. O resultado já foi espinafrado por outros cientistas por técnicas de amostragem. Mas esse não o centro da controvérsia.
Para uma pesquisa que envolve seres humanos bater à porta de qualquer publicação científica, ela precisa atender a critérios básicos, alguns deles estabelecidos depois do julgamento dos nazistas em Nuremberg. O consentimento individual da pessoa que é objeto da pesquisa é um desses critérios. Cada pessoa, no caso o membro do Facebook, teria que ser informada do fato de estar sendo usada numa experiência; em que consiste a experiência; dar o consentimento expresso para participar.”

A íntegra do estudo, precedida por ressalvas do Proceedings of the National Academy of Sciences:
http://www.pnas.org/content/111/24/8788.full.pdf
A direção do Facebook tem justificado censura e manipulação de comportamento, argumentando que o termo de adesão pelo usuário vale como autorização. Jamais. Contratos e termos de adesão não estão acima das leis. Isso é reafirmado por nosso Marco Civil da Internet.
Alguns propõem uma solução simplista: abandonar o Facebook. Recomendar aos incomodados que se retirem é a repetição do lema da ditadura, o “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Sair é aceitar, abrindo mão dos nossos direitos. Principalmente, por esses dois tópicos fazerem parte de um problema mais geral: a utilização de informações sobre usuário por redes sociais, pelo Google e demais ferramentas de busca, por páginas de internet em geral, elaborando perfis através de correlações de acessos, usando a metodologia do “big data”. Exigir que isso seja feito de modo transparente, respeitando direitos, resultará em aperfeiçoamento; em ampliação das possibilidades que o meio digital oferece, em favor da difusão da cultura e democratização da informação.

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