A língua alemã e a Copa

Havia escrito antes e resolvi esperar até o final para postar. É claro que se desse Argentina teria sido igualmente merecido. Importa que futebol tem valor pedagógico. Aprendemos que ‘Mannschaft” significa equipe, time, seleção de futebol. “Tor” é gol, também portão, porteira (escancarada a 8 de julho). “Sieg” é vitória (a pronúncia desleixada dos locutores, na década de 1990 havia um meia, reserva, entrava às vezes, chamado “Ziege”, que significa cabra, pronunciavam “Sieg”). As palavras difíceis de traduzir como “Unheimlich”, cf. o ensaio de Freud sobre “Das Unheimliche”: pode ser sinistro, estranho e também espantoso. Placar de Alemanha e Brasil foi “Unheimlich”; também “Grausamm’ e “Schreklich”.
Obsessão pelas palavras compostas, por entenderem que cada vocábulo deve traduzir conceitos com precisão. “Weltmeisterschaft”, a condição de campeão do mundo, onde “Welt” é mundo, “Meister” é mestre ou campeão, “Schaft” é realização, do verbo “Schaffen”, conseguir, dar certo. Só em alemão tem “Schadenfreude”, a satisfação com o dano ou prejuízo alheio (“Shade”, prejuízo + “Freude”, alegria). Suscitada por anunciantes que tiraram do ar, instantaneamente, campanhas alusivas à Copa, especialmente aquelas com Felipão e Davi Luis, além da “cueca da sorte” e uma bem idiota, de algum aplicativo ou aparelho com Maradona no sofá – sem querer, foram premonitórios. Vi também um comercial do Magazine Eletro com o Pra frente Brasil, só uma vez, alguém deve ter avisado que é ofensivo. Não sinto “Schadenfreude”, porém pena dos pequenos comerciantes que fizeram estoque de camisetas, bandeirolas e cornetas. “Schade” tem um quase homófono, “Schande”, significa vergonha, vexame – participação brasileira nesta copa foi “eine Schande”.
O que houve com a seleção? Desde a primeira partida, comentei que jogavam mal. Quase parou no Chile. Má condução de Felipão, onde se viu jogar aberto contra adversário forte, se bem que inflar meio de campo tampouco resolveu. Faltaram jogadores. Entressafra – já aconteceu antes, lembram dos anos de 1990, quando o Renato “pé murcho” (não o Gaúcho, outro) era um dos atacantes? Alguns jogadores em idade para participar tiveram declínio antecipado, por contusões ou dissipações: Kaká, Ronaldinho, Adriano. Revelações que não se confirmaram: Robinho, Diego, Pato, Ganso, Lucas Leiva (esse por contusões), entre outros. Sobraram Neymar, um craque completo, e talvez Oscar – pouco. É por jogarem no exterior? Preparação física exagerada, massa muscular inflada, deixando-os menos ágeis? Expectativa pesou sobre os ombros desta seleção, o “vencer ou vencer” de Felipão, a copa ter virado palanque, confundirem engajamento e torcida? A turma do “Brasil über alles” não aprendeu com maus precedentes como a Olimpíada de 1938 em Berlim. Confundiram torcida e patriotismo, houve quem recebesse insultos por expor críticas. Não olharam em volta – em comparação com 2010, muito menos gente nas ruas de camiseta, soltando fogos e soando cornetas, poucos carros com bandeirinhas. São Paulo esteve sossegada, à exceção da Vila Madalena. População respondeu com frieza à demagogia, apesar da euforia da TV Globo e outros veículos, de olho no faturamento.
Conforme havia postado no Facebook, declarações sobre necessidade de renovar nosso futebol são demagogia adicional. Tema para 2007, quando Brasil foi escolhido como sede. Alemanha fez isso, programa de renovação. Mas primeiro resolveram infraestrutura e serviços públicos: têm a melhor rede viária e sistema de transporte público (impressionante, na estação de metrô é avisado que vai chegar às 12:38, chega às 12:38), excelente ensino e assistência médica, políticas culturais de qualidade. Seleção alemã ainda merece taça de melhor conduta extracampo. Doaram para as esquálidas escolas de Cabrália e para os Pataxó. Oposto do tratamento brasileiro, pois esses índios só foram reintegrados recentemente, após terem sido expulsos de suas terras em 1979. Contraste com episódios como a tentativa de destruir o Museu do Índio e os ataques a ocupações.
Havia previsto desastres de infraestrutura, errei. É que o caos em aeroportos e acessos nos meses precedentes me impressionou. Brasil melhorou cotação como destino turístico, acharam bonito e hospitaleiro, apesar do trânsito e desigualdade social. Grande resultado na esfera policial, pegarem alguns malandros associados à FIFA. Relação custo-benefício ainda tem que ser calculada e discutida. Dados preliminares apontam empate, saldo zero da conta de receitas e despesas. Permanecem obras viárias e melhoras em aeroportos. E os estádios suntuosos. Alguns, perpétuos elefantes brancos (Manaus, Cuiabá, Natal); todos, marcos evocativos da derrota, cada qual um Arco do Triunfo às avessas. No cômputo geral, apesar das arbitragens, uma belíssima Copa, com jogos eletrizantes, surpresas como a Costa Rica e a alternância de goleadas e empates. Valeu.

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One response to this post.

  1. Posted by Fábio Ferreira de Almeida on 15/07/2014 at 14:39

    Excelente Willer! Lúcido, calmo (consegue…) e preciso. Este blog merece ser lido!

    Responder

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