Índios na literatura, novamente: a FLIP e alguma bibliografia, desta vez em prosa

A reunião sobre índios nesta última FLIP teve repercussão merecida. Eduardo Viveiros de Castro sabe do que fala, e seus ensaios sobre organização da linguagem e visão de mundo entre os Kamayurá são capitais – leiam.
E a presença dos índios na poesia, como tema ou autores, vem sendo bem examinada. Há, contudo, alguma literatura em prosa a ser lembrada. Antes de tornar-se best seller com Meu pé de laranja lima e Rosinha minha canoa, para depois ser execrado e esquecido, José Mauro de Vasconcelos havia criado, na década de 1950, narrativas cuja ação passava na região do Xingu e Araguaia. Arara vermelha fez sucesso e virou filme estrelado por Anselmo Duarte. Arraia de fogo, sombrio, talvez sua melhor obra, teve pouca repercussão. Aventureiro, com um currículo que incluía desde estudar medicina até ser garçom de boate, foi sertanista e colaborou com os irmãos Villas-Boas.
Literariamente mais importante, o seminal Quarup de Antonio Callado, que fez a cabeça de uma geração. Cenas decisivas, quando o protagonista resolve largar a batina e aderir à militância, passam-se no Xingu, que Callado, também jornalista, conhecia bem. No entanto, seu melhor livro tratando de índios é A expedição Montaigne. Sátira amarga, forma um díptico com Reflexos do baile, ambos sobre o fracasso das utopias. Merecem retorno à circulação. Intelectual honestíssimo, Callado encerrou sua produção com obras refinadas, revendo idéias expostas no que havia escrito antes.
Ainda procedendo ao resgate, lembro o historiador Manoel Rodrigues Ferreira. Pioneiro, publicou na década de 1950 sobre a Expedição Roncador-Xingu dos Villas-Boas, inclusive um livro ilustrado com fotos que, então, eram novidade. Tratou das lendas em torno das inscrições nos Martírios do Roncador e da vida às margens do Kuluene e Alto Xingu. Conservador, adepto do bandeirismo, rendeu-se aos encantos da região e das descobertas. O resultado, um relato cativante, autêntico. A reeditar.
Há mais, é claro. Evidentemente, na esfera documental o nome maior é mesmo do grande protagonista, Orlando Villas-Boas. E, talento múltiplo, pela criação literária, enorme contribuição antropológica e a realização do próprio Parque do Xingu, sem dúvida Darcy Ribeiro. Ilustro com mais uma das minhas fotos no Xingu em 1967, digitalizadas por Pipol Cronópios. Aguardem, em breve, álbuns no meio digital.
Sobre a mesa na FLIP:
http://oglobo.globo.com/cultura/flip-2014/antropologos-denunciam-ofensiva-contra-direitos-indigenas-no-brasil-13473921
e https://www.youtube.com/watch?v=ETX_Fy2dqS0
Acrescento as contundentes denúncias de Davi Kopenawa: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/eu-nao-quero-morrer-toa-diz-davi-kopenawa-em-paraty-13438470#ixzz3994qU9wB
E os registros mais recentes em meu blog sobre índios na poesia brasileira. São a propósito da mesa no Festival de Poesia do Recife, em maio deste ano, com Douglas Diegues e Sergio Medeiros – proponho mais encontros temáticos; e da revista Poesia Sempre da Biblioteca Nacional, dando conta do importante trabalho de Sergio Cohn e Pedro de Niemeyer Cesarino:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/05/25/a-poesia-dos-indios-brasileiros-e-os-indios-na-poesia-brasileira/
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/04/06/o-lancamento-da-campanha-indio-e-nos-e-da-revista-poesia-sempre/

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2 responses to this post.

  1. Posted by Lelia Maria Romero on 04/08/2014 at 12:23

    Muito bom, fiquei emocionada com essa mesa da Flip. Muito oportuno, aliás o tema é presente faz tempo. Bj profo.

    Responder

  2. Posted by Junia Flávia dAffonseca on 04/08/2014 at 14:58

    Oi Cláudio

    Que bom saber dessas notícias sobre os índios Considero da maior importância a divulgação de nossa cultura nativa Muito obrigado por contribuir para isso Abraços Paz Junia

    Sent from my heartbeat

    Responder

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