Centenário de Julio Cortázar

Hoje. 26 de agosto de 2014. Criador literário total, a quem devo um ensaio de maiores proporções. Mostrei trechos de O jogo de amarelinha em meu curso sobre poesia e prosa, ano passado, fazendo paralelo com Kerouac, a propósito de escritores jazzistas. Achei, arquivado, este artigo de 1999. Onde publiquei? Não lembro. Interessa a menção a seus títulos, que deveriam circular mais:

“Há textos que resistem à releitura e sempre provocam o mesmo espanto e maravilhamento da primeira vez. Nunca deixam de empolgar, renovando e ampliando as emoções da sua descoberta. A poesia, a boa poesia, foi feita para ser relida. E também a grande prosa, ou seja, a prosa não-prosaica. Exemplificam-no os contos perfeitos: Borges com seu “O Aleph” e sua história de Tadeo Isidro Cruz; o Guimarães Rosa de Matraga e “A Terceira Margem”. E, sem dúvida, o Cortázar de “O Perseguidor” e “As Armas Secretas”, entre outros. Assim como, também de Cortázar, capítulos de O Jogo de Amarelinha – os trechos sobre jazz, onde o texto se funde à música em uma sinuosa sucessão de imagens – podem ser relidos, descolados da narrativa, como elevados momentos da prosa poética do século XX.
É certo que sua obra é desigual, talvez pela ambição do projeto artístico, uma tentativa de abarcar tudo, evidente em seu livro-colagem, Último round, com seus dois andares, as páginas secionadas, alternando poemas, relatos, notícias e as famosas reproduções dos graffitis do Maio parisiense de 68. Nesse e em outros livros, está evidente a intenção de romper fronteiras, incorporando à criação signos não-verbais, ou, ao menos, extra-literários. Daí seu apreço pela grafitagem urbana, evidente não só em Último round, mas em um dos contos de Orientação dos gatos; e em toda uma série de tentativas de estetização da vida, exemplificadas pelas provocações anarquistas relatadas no início de O livro de Manuel, ou por sua célebre distinção entre cronópios e famas, uma tipologia de pessoas e estilos de vida, e não de modalidades literárias. Em seu último livro, Os astronautas da cosmopista (escrito em parceria com Carol Dunlap), radicaliza ao confundir literatura e vida e inverter a relação entre linguagem e realidade; por isso, a experimentação não está mais no texto, mas no comportamento nele registrado. Fazendo literatura, também procurou criar uma obra ao mesmo tempo infra e supra-literária, contendo aquilo que estivesse aquém ou além do texto. Há, nisso, herança surrealista, à qual se refere, de modo ambivalente, no livro póstumo de entrevistas, O fascínio das palavras (feitas por Omar Prego, Editora José Olympio, 1991). Nele, argumenta que deixar-se guiar ao acaso pelos signos da cidade, elegendo-a como espaço mágico, é algo mais consciente, intencional, do que o procedimento inaugurado por Breton em Les pas perdus. Ao mesmo tempo, um pouco adiante, fundamenta todas as suspeitas de que a Maga de O jogo de amarelinha é mesmo herdeira e continuadora da Nadja bretoniana.
É estranho que Cortázar tenha aparecido pouco nas listas do cânone da modernidade, dos cem mais, ou quarenta mais, ou qualquer um desses balanços gerais que, a pretexto de fim de século e restauração do valor literário, se tornaram moda. Inadmissível passar, quinze anos após sua morte, da condição olímpica ao limbo, e insinuar-se que sua obra não seja de primeira grandeza. Chegou a ser dito que esse declínio se deveria a um correspondente desprestígio da esquerda, ao esgarçamento do front progressista. Se isso for verdade, é dupla ou triplamente injusto. Em primeiro lugar, por nunca haver sido sectário, dogmático. Considerá-lo datado por sua presença em movimentos e manifestações, até o fim da vida, pró-Cuba, pró-Nicarágua sandinista, anti-militares, etc, é tão equivocado quanto o erro oposto, de atribuir qualidade a poemas como aquele de Neruda, no qual é dito que a United Fruit é ruim, malvada, feia, excecrável. Com o atual apreço pela idéia de uma pós-modernidade, e a conseqüente valorização das obras que não podem mais ser vinculadas a essa ou aquela tendência, a esse ou aquele chavão (tal como, por exemplo, esperar que todo latino-americano produza “literatura fantástica”, realismo mágico ou coisa parecida), um autor tão plural como Cortázar deveria crescer em projeção. Merece ser relido como o encontro do melhor da contribuição das vanguardas, e o refinamento de um Borges e outros monumentos da prosa poética.

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One response to this post.

  1. Registro elogiável por palavras que ainda não sei escrever (coisa que já me habituei diante dos escritos dos mestres). Valeu a referência à musical importância libertadora da escrita leitura do Jogo da Amarelinha.

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