Saiu no Brasil o maravilhoso Liberdade ou Amor! de Robert Desnos

Na tradução de Eclair Antonio Almeida Filho e Odúlia Capelo.
Pela Nephelibata, em uma bela edição.
Com décadas de atraso. Li pela primeira vez em 1963 – quem achou? Roberto Piva, é claro. Já levei a cursos de surrealismo e de poesia e cidades.
Encomendas em http://edicoesnephelibata.blogspot.com.br/
O livro: http://editoranephelibata.blogspot.com.br/p/robert-desnos.html
Prefaciei.
Reproduzo aqui meu prefácio.
Calcado em uma série de homenagens a Desnos, o mais surrealista dos surrealistas, que publiquei neste blog, oferecendo uma panorâmica do notável visionário, médium, sonhador. Começam aqui:
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/01/10/homenagens-a-robert-desnos-1/
O prefácio:
Robert Desnos, o sonhador
Claudio Willer
Entre 1924 e 1932, o surrealismo reuniu jovens que viriam ser reconhecidos como os melhores poetas franceses do século 20. Além da impactante presença de Antonin Artaud, formou-se uma verdadeira plêiade – ou plêiades, posto que alguns se distanciaram e outros se agregaram. Fizeram parte Paul Éluard, René Char e Jacques Prévert, os poetas de maior circulação e prestígio na segunda metade do século, bem como Louis Aragon, Benjamin Péret, Raymond Queneau, Francis Ponge, Michel Leiris; mais tarde viriam Aimé Césaire, Malcolm de Chazal, Radovan Ivsic e Joyce Mansour – isso, dentre os de língua francesa, além daqueles de outras literaturas.
Gradativamente, Robert Desnos vai sendo reconhecido como destacado integrante destacado dessa linha de frente. E, mesmo tendo rompido com Breton, junto com Artaud, Leiris e Soupault, em 1927 – para reconciliarem-se em 1936 – como o mais surrealista dentre os surrealistas. Foi o que observou Breton, por exemplo em Nadja, reportando-se às sessões de sono hipnótico de 1921, declarando-o vidente ou profeta: “De tantos encontros que Desnos, de olhos fechados, me marcou para mais tarde, com ele ou com outra pessoa, não há nenhum ao qual eu tivesse coragem de faltar, nem um só, nos lugares e horas mais inverossímeis, e em que eu não estivesse certo de encontrar quem ele me disse.” E o que sustenta Sarane Alexandrian no excelente Le Surréalisme et le Rêve; principalmente, por encarnar o “sonhador combativo” e superar, como ninguém, o “deprimente divórcio entre sonho e realidade” a que se referiu Breton no Manifesto do Surrealismo.
Desnos realizou a fusão de poesia e vida em episódios que o tornam personagem biográfico e não apenas autor. Merece destaque o programa de rádio que criou, interpretando sonhos, em 1937, assim como, em 1940, seu “correio de sonhos” na revista feminina Pour elle. Assinava Hormidas Belloeil – nome, dizia, de um personagem que o visitava durante o sonho. Transcrevo, de Alexandrian: “Decifrava-os referindo-se ao tratado dos sonhos de Artemidoro de Efeso, traduzido em 1921 por Henri Vidal. Adaptava esse livro às realidades modernas; ou seja, aplicava por exemplo aos automóveis o que Artemidoro dizia dos carros. Acreditava, com uma candura autêntica, que os sonhos tinham um sentido augural […] Submetiam-lhe as mais absurdas aventuras: havia o sonho da ouvinte que tinha feito uma viagem em um camelo com bigodes, antes de encontrar-se sentada no interior de uma abóbora; aquele de um homem que se servia de um piano automóvel, permitindo-lhe ao mesmo tempo tocar música e percorrer as estradas etc. […]”. Assim realizava a defesa do sonho profético, feita pore Breton em Les Vases Comunicants. Uma experiência limite: em 1944, no campo de concentração onde morreria após ser capturado por pertencer à resistência antinazista, pôs-se a ler as mãos de outros prisioneiros que iam sendo levados às câmaras de gás, profetizando que não morreriam. Relata Suzanne Griffin: “Desnos foi tão eficiente em criar uma nova realidade que os guardas foram incapazes de prosseguir com as execuções. Mandaram que os prisioneiros voltassem ao caminhão e os levaram de volta a suas barracas. Desnos nunca foi executado. Através do poder da imaginação, salvou sua vida e aquelas dos outros.”
Examinando Oeuvres (Gallimard) encontra-se bastante daquela lírica do surrealismo, feita de imagens visuais, aproximações de realidades diferentes, da qual Éluard e Char foram os expoentes. Outros poemas replicam metros e formas clássicas. Especialmente importantes, por avançarem em novos territórios da criação, as séries de jogos com os significantes de Rrose Sélavy; “cabala fonética”, como a designou Breton, fazendo que vocábulos e frases se multiplicassem em novos sentidos.
E, principalmente, este Liberdade ou Amor! É a grande narrativa onírica da primeira metade do século 20. A prosa surrealista produziu obras extraordinárias, a começar por Nadja, entre outras que romperam a barreira dos gêneros literários. Nenhuma comparável a esta, pelo modo como realiza o que Gérard de Nerval havia chamado de “efusão do sonho na vida real.” A sequência logo no início, da lírica chuva de luvas enquanto o narrador segue Luisa Lâmina, um ponto alto da prosa poética. O relato da visita do Corsário Soluço ao Clube dos bebedores de esperma, em páginas combinando literatura libertina e sua sátira. Principalmente, Liberdade ou Amor! consagra a metrópole como ambiente onírico. Alucinógena, psicodélica por antecipação, fará que seu leitor, ao flanar, perambular pela metrópole, sempre veja mais, possuído pela sensação de fazer parte de um sonho; no entanto, um sonho radicalmente real.

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3 responses to this post.

  1. Não conheço o trabalho de Robert Desnos. Seu prefácio é um convite à viagem!

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  2. Posted by Benanse on 04/11/2014 at 18:35

    É sempre bom digitar velhos nomes de antigos desejos, confiando no “será”. Que surpresa vê-lo traduzido, e com o prefácio do mestre! Finalmente! Desnos se me é um enigma, quase um amigo de consideração. Teve suas rusgas com o grupo, mas isto é passado. Sou grato pelo presente longínquo que trazem à tona. Vejo minha estante ansiosa, a sorrir. Vocês existem! Só preciso me atualizar para receber tais notícias quanto antes.

    Responder

  3. Posted by Benanse on 04/11/2014 at 18:42

    F.M.R.

    Responder

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