Os poetas e a política

De Allen Ginsberg, trecho do poema “Morte à orelha de Van Gogh”. Faz parte de Kaddish and other poems, e está na edição brasileira, Uivo e outros poemas (L&PM), que preparei. Citação inspirada pela qualificação de uma candidata à presidência como ‘poetisa’ por um ministro do atual governo:

Vachel Lindsay Ministro do Interior
Poe Ministro da Imaginação
Pound Ministro da Fazenda
e Kra pertence a Kra e Pucti a Pucti
cruzamento de Blok e Artaud
a Orelha de Van Gogh estampada no dinheiro
chega de propaganda de monstros
e os poetas devem ficar fora da política ou se tornarão monstros
eu me tornei monstruoso por causa da política
o poeta russo indiscutivelmente monstruoso em seu diário íntimo
o Tibete deve ser deixado em paz
Estas são profecias óbvias
A América será destruída
os poetas russos lutarão contra a Rússia
Whitman preveniu contra essa “maldita fábula das nações”
Onde estava Theodore Roosevelt quando ele mandou ultimatos do seu castelo em Camden
Onde estava a Câmara dos Deputados quando Crane leu em voz alta seus livros proféticos
Onde estava tramando Wall Street quando Lindsay anunciou o destino final do Dinheiro
Estariam escutando meus delírios nos vestiários do Departamento de Pessoal de Bickford’s ?
Deram ouvidos aos gemidos da minha alma enquanto eu lutava
com estatísticas de pesquisas de mercado no Fórum de Roma?

Ainda de Ginsberg, a propósito de intolerância religiosa, também evidente na atual campanha eleitoral – agravada pela hipocrisia, por partir de gente que comparece a toda sorte de templos dos mercenários da fé, para obter algum apoio adicional – o trecho de “Kral Mahales” cuja tradução eu já havia publicado neste blog:

e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Mahales na língua tcheco-eslovaca,
e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas escolheram meu nome,
e eu sou o Rei de Maio, e em poucos minutos eu pousarei no Aeroporto de Londres,
e eu sou o Rei de maio, naturalmente, pois tenho origem Eslava e sou um Judeu Budista
que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
as contas de Xangô o Nigeriano cantando Shiva Shiva de um modo que inventei,

A tradução integral, devidamente contextualizada, aqui:
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/
Anarquista radical, não obstante Ginsberg participava de frentes e coalizões. Um exemplo foi seu envolvimento nas manifestações de Chicago em 1968, em favor da indicação do pacifista George McGovern, crítico da guerra do Vietnã, como candidato do Partido Democrata (perdeu a indicação para Hubert Humphrey, o qual por sua vez perdeu a eleição para Richard Nixon).
Não pretendia me manifestar, por enquanto, sobre eleições brasileiras. Mas a designação de Marina Silva como ‘poetisa’ pelo ministro Gilberto Carvalho foi uma gota d’água. Esta:
http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,marina-era-uma-poetisa-e-nao-tinha-nenhum-poder-de-decisao-diz-carvalho,1559309
Houve, é claro, infâmias e distorções mais graves. Algumas revertem, em prejuízo de seus contendores – por exemplo, a educadora convertida em banqueira. Ou as dúvidas sobre sua viabilidade, análogas àquelas feitas por ocasião da candidatura de Lula em 2002, porém desta vez enunciadas por seus adeptos. Mas a dificuldade da candidatura de Marina Silva me parece estar, muito mais, na passagem de um movimento setorial e definido como alternativo para uma coalizão e um programa mais amplos. Daí resultam imprecisões e ambigüidades que podem afetar a credibilidade. Isso, agravado por recursos mínimos, tempo reduzido na TV e uma base ainda estreita. Segundo turno poderá alterar.
Quanto à envergadura como poeta, inexiste, penso. Mas conheço integrantes de sua equipe – e de um possível futuro governo – que são literariamente muito qualificados (e em outros campos também). Aguardemos o que vem pela frente. Ginsberg, se estivesse aqui, veria com simpatia – e reagiria, evidentemente, à desqualificação como poeta ou ‘poetisa’.

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5 responses to this post.

  1. Claudio Willer, sempre lúcido e com informações preciosas acrescidas da sensibilidade de poeta, designação que não deve mesmo servir a políticos mal intencionados e que pregam etiquetas conforme as conveniências. Gostei especialmente deste trecho:

    Ainda de Ginsberg, a propósito de intolerância religiosa, também evidente na atual campanha eleitoral – agravada pela hipocrisia, por partir de gente que comparece a toda sorte de templos dos mercenários da fé, para obter algum apoio adicional – o trecho de “Kral Mahales” cuja tradução eu já havia publicado neste blog:

    e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Mahales na língua tcheco-eslovaca,
    e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas escolheram meu nome,
    e eu sou o Rei de Maio, e em poucos minutos eu pousarei no Aeroporto de Londres,
    e eu sou o Rei de maio, naturalmente, pois tenho origem Eslava e sou um Judeu Budista
    que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
    as contas de Xangô o Nigeriano cantando Shiva Shiva de um modo que inventei,

    Responder

  2. Posted by Eduardo Souza on 26/09/2014 at 12:38

    Willer, obrigado por mais um excelente post, preciso da sua ajuda. Pretendo fazer um projeto comparando o poema Uivo com outros poemas do proprio Ginsberg, dizendo que seus poemas dialogam entre si. Alguma dica? Alguma ajuda? Algo lhe vem a cabeça?

    Responder

  3. Republicou isso em Claudio Willere comentado:

    Hoje homenageia-se Allen Ginsberg? Então reapresento este post, do ano retrasado:

    Responder

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