Pesquisas, eleições e mídia

Diferença entre o que davam pesquisas pré-eleitorais e resultados das eleições chamou a atenção. Tanto na disputa presidencial quanto naquelas para governador do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Acho que consigo interpretar o que houve. Kurt Lewin, um dos criadores da Psicologia Social e do cognitivismo – pensador extraordinário, texto dele sobre oposição de ciência aristotélica e galileica deveria circular mais – distinguia entre mudanças quase-estacionárias ou quase-estáticas e aquelas dinâmicas. Exemplo de mudança quase estacionária é o curso de um rio. Muda de lugar mas aos poucos, ao longo do tempo. É previsível, portanto.
Mudanças dinâmicas podem ser as tempestades – e, principalmente, os tornados. Meteorologistas não são capazes de prever onde o tornado vai acontecer, para onde irá, quanto tempo vai durar. Isso, mesmo sabendo as condições climáticas ou atmosféricas para que sobrevenham.
Acredito que pesquisas de opinião pública, inclusive prévias eleitorais, trazem resultados confiáveis quando medem mudanças quase estacionárias. Perdem a precisão diante dos processos dinâmicos.
Normal é variações de opinião pública em períodos eleitorais ser gradual. Desta vez, o que ocorreu corresponde ao modelo dinâmico, com mudanças bruscas, com o acidente que matou Eduardo Campos e chocou a opinião pública, seguido pela ascensão de Marina Silva e pelos violentos ataques contra ela pela campanha de Dilma Rousseff. Forças tão intensamente conflitantes funcionaram como vetores – outra categoria importante em Lewin – e impeliram Aécio. Vi debate final de relance, mas observei que Aécio estava se saindo bem, fazendo cara de estadista, inclusive na bronca que deu em Luciana Genro. É raro um debate ser tão definidor. Última vez foi em 2006, final do primeiro turno, quando Lula, afetado pelo episódio dos aloprados, não compareceu, possibilitando um segundo turno.
Já a imprecisão nas pesquisas de boca de urna, essa deve resultar de problemas de amostragem. Difícil constituir amostra probabilística, equivalente ao sorteio de uma lista dos eleitores, com aquele bolo de gente na porta das sessões eleitorais, querendo votar e ir embora logo. Se ficassem em fila, direitinho, seria possível. Metodologia terá que ser revista.
E agora, o que vem aí? Vitória, a meu ver, será de quem errar menos, ou não for atingido por novos imprevistos. Vocalizações de Paulo Roberto Costa e afins deverão influenciar – embora impressionem mais àquela parcela já predisposta contra o PT por outros motivos, principalmente infraestruturais, de ordem econômica, afetando mais o Sul e Sudeste.
A propósito, vi um post, do blog do Rovai, denunciando manipulação midiática nesse caso. Podia ter sido copiado do post no mesmo blog durante a crise do mensalão. Naquela época, chegou a circular, e de fontes identificáveis, de gente que conheço, um relato, assinado por uma inexistente jornalista brasileira em Londres, de uma reunião no apartamento de FHC, com Pimenta Neves (escolheram a dedo, o mais abominável) e todos os donos de grandes meios de comunicação, planejando um golpe contra Lula. Fantasias dessa ordem terão alcance limitado. Assim como o argumento mecanicista, de que empresas do setor representam interesses de classe e por isso são contra o PT. São, mas por outras razões. Se ambiente estivesse favorável a seus negócios, encarariam com mais simpatia (disso, economia, tratarei em outro post).
Já vimos mídia fazer coisas nojentas. Em 1991, um dos ministros de Collor, Alceni Guerra, da Saúde, tentou uma aproximação do então presidente com Brizola, inimigo jurado de conglomerados da mídia. Foi detonado pela TV Globo, com série de notícias de supostos escândalos, o caso das bicicletas, até cair – apurações mostraram que não havia nada, que Alceni estava limpo. Na mesma medida, já fizeram vista grossa para corruptos notórios, mormente políticos concessionários de retransmissoras, ACM, Sarney etc. Há muito mais. Lembro do jornal da Band, em 2004, alguma treta com a editora Abril, noticiaram um ingresso de capital da África do Sul na organização dos Civita – Ricardo Boechat, candidamente, denunciou o regime do ‘apartheid’, abstraindo que havia acabado há dez anos. Nunca mais assisti ao jornal da Band. Outro lado também faz isso – às vésperas do julgamento do mensalão, Carta Capital publicou declarações de cinco professores de direito da PUC, todos afirmando que acusados seriam absolvidos, e não deram nenhum outro lado. Nunca mais li. Também vi, em meio às denúncias de algo cabuloso na relação do governo com PMDB, a seguinte chamada de capa: “Dilma se aproxima da base aliada”, com foto de Dilma – se eu quiser ler propaganda, assino o boletim do PT.
Contudo, mídia tende a ir ao encontro do que interessa ao público. Na época das denúncias do mensalão, Época publicou relato de uma reunião de Valdemar da Costa Neto do PL com alguém do PT, com a prsença de Lula e José de Alencar, para receber dinheiro. Fui comprar, dono da banca me disse que pilha de revistas havia acabado, esperava mais. Enfim, relações entre mídia e opinião pública são complexas, bilaterais e ambivalentes. Não dá para reduzir a um paradigma mecanicista, menos ainda clamar contra conspiração toda vez que algum escândalo de maior calibre sensibiliza a opinião pública.
Outra variável a considerar é a militância, ativa e muito presente na rede social, mormente aquela em favor do PT. No entanto, apesar do efeito multiplicador, me parece vocalizar um sermão para convertidos, uma espécie de emulação recíproca, na qual adeptos recebem adesão de outros adeptos. Pelo modo intempestivo com que alguns se manifestam, dão a impressão de compor uma milícia fascista. O caso desse Ricardo Corona, deu barraco no Facebook, o tipo me declarou militante malufista, e isso por eu haver ironizado um palanque de Dilma declarando guerra á corrupção em companhia de Collor e Renan filho; e também por observações minhas sobre declarações de que “os ricos odeiam os pobres” e “os paulistas odeiam os nordestinos” – sim, teve disso, também.
Há uma presença forte na imprensa de reacionários exaltados, agressivos, o Reinaldo de tal, o filho do Enio, um Coutinho e afins. Acredito que a militância mais estereotipada fornece argumentos para essa gente. São o estrume do qual se nutrem, solo no qual florescem. Vasos comunicantes. Que se anulem, que a entropia os assimile.

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