Economia, às vésperas da eleição

No segundo semestre de 2010, dei um curso sobre poetas malditos na Casa das Rosas. Um dos inscritos era auditor aposentado da Receita Federal. Dava palestras. Assistia a cursos como o meu para aperfeiçoar seu modo de falar em público. Não sei se minhas perífrases e improvisações o ajudaram. Gentilíssimo, dava carona, me deixava em casa. Perguntei-lhe o que achava dos 7% de crescimento do PIB, redução do desemprego e demais sinais de expansão da economia naquele final de governo Lula. Disse-me que isso não ia durar, pois chegaria uma hora em que as pessoas iriam ter que pagar as contas; conseqüentemente, reduziriam despesas, compras.
Outros especialistas também observaram os riscos de um projeto de expansão da economia baseado no crescimento do consumo, e não da produtividade. Encheram as metrópoles de automóveis – a poluição agradece. Um paradoxo, opositores da economia de mercado apoiando semelhante estratégia.
Críticos tinham razão ao anunciarem que o ciclo iria esgotar-se. Daí o crescimento médio de 1,7% no governo Dilma, próximo a zero este ano, e a redução na oferta de emprego – a informação que o IPEA não divulga, gerando uma crise.
Alguém consegue acessar dados sobre cotação das commodities, bens primários, nos últimos anos? Mas me foi dito que subiram durante o governo Lula, beneficiando balança comercial, e recentemente caíram. Nesse caso, outro paradoxo, ironia da política: críticos da globalização em defesa de um governo beneficiário de movimentos típicos da globalização. Conseqüência notória: desindustrialização, Brasil ficou parecido com o período inicial do Plano Real,a s camisas chinesas a 4 reais, etc.
Erro estratégico de Aécio – um dos erros: mostrar Armínio Fraga como futuro ministro. Do passado, ninguém gosta, embora, a meu ver, Armínio tenha entrado para corrigir o que Gustavo Franco, esse sim, liberal ortodoxo, fez, ao segurar cotação do dólar daquele jeito.
Erro equivalente de Dilma: despedir antecipadamente Guido Mantega e não dizer quem vai entrar no lugar. Culpa do que está acontecendo não é do Guido – tentou administrar refluxo, fez o possível para segurar a onda.
O que vem aí? Nenhum dos dois fala. Pelo seguinte: não vai ser nada bom. Haverá austeridade, corte de despesas, tentativas de arrecadar mais, de alcançar equilíbrio nas contas públicas, seja quem for o vencedor da parada.
O que poderá ser feito para melhorar? Na minha opinião, é necessária uma mudança de ênfase, de paradigmas. Desviar o foco da macroeconomia para a gestão. Menos desperdício, menos dinheiro jogado fora com obras intermináveis e superfaturadas. Alguma seriedade, finalmente. Menos burocracia, urgentemente: ao tomar tempo, custa uma enormidade. Como é que pode, USP gasta 60% em funcionários de administração e só 40% em professores, que produzem e transmitem conhecimento. Todos os órgãos públicos fazem isso, das pequenas prefeituras ao governo federal – inventam alguma exigência nova, para manter ocupados esses funcionários, justificando sua existência.
E, principalmente, enfrentar a questão ambiental. Não só por uma questão de valores, éticos e estéticos, claro. Mas por razões pragmáticas. Prejuízo provocado por devastação é gigantesco, está afundando o país. Qual é o custo desta seca? E das inundações? Agricultores que são contra preservação, a favor do desmatamento, dão tiro no próprio pé – ou mais acima.
Quem vai resolver? Nenhum dos dois, é claro. Com Dilma, chances de piorar. Aécio? Parece que governo dele em Minas apresentou resultados iniciais, depois refluiu. Nem está mostrando o que fez na campanha. Compromissos na área ambiental podem decidir a favor. Alternância do poder, também – pode evitar esclerosamento, minha preocupação com PT sempre foi virar PRI mexicano ao perpetuar-se. Ainda assim, aguardo mais motivos para não ficar em casa no próximo fim de semana.

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