Uma seleta de passagens edificantes e instrutivas do “Manual de boas maneiras para meninas” de Pierre Louÿs

Pierre Louÿs downloadDa Azougue editorial, 2006, coleção Devassa, tradução de Bernardo Esteves, Tiago Esteves e Paulo Wernek. No original francês, “Manuel de civilité pour les petites filles à l’usage des maisons d’éducation”, publicado em 1926. A data deve ser levada em conta: um livro anacrônico, pois hoje a educação das mocinhas é menos rígida, não são obrigadas a ir semanalmente à missa e a comungar, nem a rezar ao espertar e na hora de dormir, tampouco a comparecer a fastidiosos jantares em família; ademais, há menos tabus relativos a sexo e erotismo. Não obstante, a obra é relembrada e ultimamente vem suscitando manifestações iradas. Como já observei no Facebook, toda vez que vêm à tona denúncias de estupros, algumas pessoas acham que a culpa é de Pierre Louÿs.
O manual é dividido em capítulos: ‘No teatro’, ‘No baile’, ‘No confessionário’ etc, culminando com “Na cama com uma amiga”e “Na cama com um velho”. Já levei a rodas de leitura e cursos, para tratar de sátira. Examinei as negações afirmativas, os “Nunca faça” e a série final do “Nunca diga”.
Após reproduzir trechos, informo sobre Pierre Louÿs e comento as broncas recentes. Seguem alguns dos espirituosos conselhos às menininhas:
“Não fique na varanda cuspindo sobre os passantes, sobretudo se estiver com porra na boca.
Não mije no degrau mais alto da escada para fazer cascata.
Se lhe perguntarem o que você bebe nas refeições, não diga que só bebe porra.
Não faça ir e vir um aspargo em sua boca olhando languidamente o jovem que você pretende seduzir.
Não faça cocô na musse de chocolate, ainda que, por estar proibida de tomar sobremesa, você esteja certa de que não vai comê-la.
Se bater uma punheta para seu vizinho com o guardanapo dele, seja discreta para que ninguém perceba.
Se encontrar um cabelo suspeito em sua sopa, não diga: “Oba, um pentelho do cu!”
Colocar mel entre as pernas para que um cãozinho venha lambê-la é permitido a rigor, mas é inútil retribuir-lhe o serviço.
Meninas bem educadas não mijam no piano.
Caso tenha se masturbado no elevador, coloque suas luvas de volta antes de entrar.
Se uma mulher se recusar a se sentar, não lhe dê conselhos sobre o perigo de ser enrabada por um estabanado.
Ao despertar, uma menina deve terminar totalmente de se masturbar antes de começar a rezar.
Se você não se masturbou o bastante de manhã, não termine na missa.
Se chupar um homem antes de ir comungar, controle-se para não engolir a porra: você não estaria mais em jejum como deveria estar.
Se você transar à tarde em uma igreja do interior, não lave sua bunda na água benta. Longe de purificar o pecado, você estaria agravando sua falta.
Não se masturbe no confessionário para ser absolvida logo em seguida.
Não entre nos mictórios para ver os homens mijando.
Se um velho sátiro lhe mostrar seu membro numa curva de uma aléia, nada a obriga a lhe mostrar sua xoxotinha por educação.
Não entre em um salão de cabeleireiros pedindo descaradamente para escovar os pêlos do cu.
Não ponha a mão na calça do seu vizinho para ver se o balé o deixa de pau duro.
Ao nadar, não peça às pessoas presentes permissão para fazer xixi. Faça sem autorização.
Não mande anunciar pelo vilarejo que você perdeu o cabaço. O homem que o encontrou não o devolverá.
Quando seu pai se apresentar no círculo social que freqüenta, não diga: “Olha o corno aí!”; se disser, faça-o baixinho.
Se você sentar na coxa esquerda do seu pai, não esfregue a bunda na pica dele para deixá-lo de pau duro, a menos que vocês estejam a sós.
Se você estiver se masturbando quando seu pai entra no quarto, pare: é mais conveniente.
Não chame sua mãe de vaca velha, piranha de beira de estrada, chupadora de puta, cagadora de porra, pústula ambulante etc. Essas são expressões vulgares.
Se sua mãe perguntar o que você prefere beijar, não responda: “O cu da empregada”.
Masturbe seu irmão na cama dele, nunca na sua. Isso a comprometeria.
Quando sua irmã estiver mijando, não retire o penico para que ela faça no chão. Seria uma brincadeira de mau gosto.
Não faça troça da sua irmã se ela não quiser dar a bunda. Uma menina é inteiramente livre para oferecer apenas um buraco a seus amantes.
Todas as noites, antes de se masturbar, faça a sua oração ajoelhada.
Algumas meninas muito vigiadas compram uma santinha em marfim polido e usam-na como consolo. É um uso condenado pela Igreja.
Se você descobrir que é filha do amante e não do marido, não chame esse homem de papai na frente de vinte e cinco pessoas.
Quando tiver acabado de chupar alguém, não vá à cozinha cuspir a porra em uma panela. Os criados fariam mau juízo de você.
Nunca diga: “Minha boceta”. Diga: “Meu coração”.
Nunca diga: “Quero trepar”. Diga: “Estou nervosa”
Nunca diga: “O pau dele é muito grande para minha boca”. Diga: “Sinto-me pequena quando converso com ele.”
ETC
PIERRE LOUŸS (1870 – 1925), belga, se tornou mais conhecido por “As canções de Bilitis”, musicadas por Claude Debussy. Críticos caíram na pseudo-epigrafia e acreditaram que existisse uma poeta grega chamada Bilitis, contemporânea de Safo de Lesbos. E por “La femme et le pantin” (A mulher e o fantoche), drama filmado por Joseph von Sertenberg, estrelado por Marlene Dietrich em 1935. Escreveu uma quantidade de narrativas históricas. “Afrodite”, sobre prostituição sagrada em Alexandria, tem edição brasileira. Há outra edição, rara, de “Três filhas da mãe”, obra transgressiva, perto da qual o “Manual” é recatado. Já integrei banca de uma boa tese de doutorado, “Cortesãs de Pierre Louÿs” de Paula Gomes Macario, UNICAMP, dezembro de 2012.
Sobre as reações recentes, já me havia manifestado:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/03/31/obscurantismo-histeria-e-principalmente-analfabetismo-funcional/
Parece que o fundamento das reclamações é o patrocínio dessa e outras edições, em 2006, pela cervejaria Devassa. O capitalismo corruptor. Até a década de 1980, censores achavam que era o comunismo, para dissolver a família. Este artigo sobre representações da mulher na propaganda, não como lasciva, mas como dedicada servidora doméstica, que me foi encaminhado por Sergio Cohn da Azougue, é muito bom: http://fuersie.tumblr.com/
A categoria “sexismo” é coisa de gente que anseia pelo retorno da moral vitoriana. A leitura literal de sátiras é sintoma de semianalfabetismo. Infelizmente, há ativistas empenhadas em confundir feminismo, responsável pelo fim da subordinação da mulher ao homem em sociedades modernas, com obscurantismo. Chegou a ser aberto um procedimento no Ministério Público, por causa da celeuma – felizmente não deu em nada.
A praga do politicamente correto: pois já não houve um edital da Funarte e Biblioteca Nacional, em 2012, oficializando censura? Denunciei: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/17/caso-gravissimo-censura-em-edital-da-funarte-e-biblioteca-nacional/
Se deixarem, proibirão não apenas títulos de Pierre Louÿs, mas Lolita de Nabokov, a obra obscena de Hilda Hilst, todo William Burroughs, Henry Miller etc, além, é claro, do Marquês de Sade. Reverterão conquistas que consumiram tempo, e também dinheiro: as batalhas judiciais da Grove Press de Barney Rosset na década de 1960 enfraqueceram a editora e contribuíram para seu fim, conforme relatado em “A hora terna do crepúsculo” (Globo, 2013) de Richard Seaver, um dos editores. Enfim, não faltam motivos para não admitirmos retrocessos.

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