A DISSONÂNCIA COGNITIVA

Leon Festinger(faz tempo que eu pretendia publicar isto)
Foto: o psicólogo Leon Festinger, criador do termo
Você posta sobre crescimento do desmatamento na Amazônia. Alguém responde, mostrando uma notícia em alguma página de internet da qual você nunca ouviu falar, de que desmatamento caiu. Você observa que o crescimento do desmatamento na Amazônia saiu em jornais. A resposta: jornais não são confiáveis, representam interesses de classe, são controlados por oligarquias familiares.
Em resposta à sua postagem sobre crescimento do desmatamento na Amazônia, alguém diz que sim, é grave, mas floresta amazônica se recompõe rapidamente. Você escreve que mogno (muito extraído pelo desmate clandestino) leva 50 anos para crescer. Nenhuma resposta.
O deputado Jair Bolsonaro e seus adeptos defendem a volta dos militares ao poder, através de um golpe. Opositores ferrenhos do atual governo, considerado comunista, embora Bolsonaro seja filiado ao PP, da base aliada. Você critica o atual governo. Imediatamente, alguém associa sua crítica ao movimento encabeçado por Bolsonaro e o classifica como adepto do fascismo, em um óbvio erro lógico, uma confusão das partes e do todo.
Leon Festinger (1919-1989) foi um dos fundadores da moderna Psicologia Social. Aluno e seguidor de Kurt Lewin, transformou a dinâmica de grupo em disciplina, campo de estudos. Sua obra mais importante é “When Profecy fails” (Quando a profecia falha), de 1959. Festinger acompanhou um grupo encabeçado pela devota Dorothy Martin, aliás Marion Keech, que anunciou o fim do mundo, provocado pela colisão com outro planeta. Membros do grupo se desfizeram de todos os seus bens, pois o mundo ia acabar mesmo, e passaram a aguardar o desfecho, previsto para a noite de 21 de dezembro de 1954. A pesquisa de Festinger focalizou as reações dos devotos à falha da profecia. Alguns mantiveram firmemente sua crença. Interpretaram que as orações do grupo haviam neutralizado o planeta, impedindo sua colisão com a Terra.
Apresento um exemplo simples de como funciona a dissonância cognitiva. Suponhamos que alguém vá comprar um automóvel, e tenha que escolher entre dois modelos, com o mesmo preço e características; digamos, um da Fiat e outro da Volkswagen. Fica com o Fiat. O automóvel escolhido apresenta defeitos, mau desempenho, revela-se claramente a pior opção. Em vez de arrepender-se e rever sua avaliação, o comprador passa a defender incondicionalmente o Fiat, exaltando suas qualidades. Torna-se um detrator do Volkswagen, não para de criticá-lo e desqualificá-lo, bem como a todos os proprietários de veículos da marca.
Poderia adicionar inúmeros exemplos. Um deles, o eleitor do partido P, em oposição ao partido Q. À medida que o governo do partido P abandona seu programa, faz aliança com oligarquias e tráfico de influência, esse eleitor de P torna-se um sectário, um antagonista fanático do partido Q. Masmo em um regime pluripartidário, nenhuma chance de transferir-se para o partido R, que defende a renovação da política, ou para o partido S, que defende o resgate do programa original do partido P – suspeita que sejam todos financiados pela CIA.
Dei aula sobre Festinger, por volta de 1970. A pesquisa com os compradores de automóveis é real, embora as marcas fossem outras. Não esperava que sua contribuição ganhasse tamanha atualidade. O meio digital possibilita a manifestação de opiniões da militância através de blogs, redes sociais e outras páginas. Torna-se um gigantesco laboratório; uma colossal aula prática para expor temas de Psicologia Social.

Anúncios

3 responses to this post.

  1. Posted by Eliane on 28/11/2014 at 18:30

    Muitas pessoas associam esquerdismo à comunismo, e acham que comunismo e socialismo são exatamente a mesma coisa. Há ainda quem considere que a defesa de direitos civis, da proteção ambiental, etc., sejam “coisas de esquerdista romântico”. Outro dia alguém disse sobre “leitores binários”, ou seja, para eles a vida é muito simples, é A ou Z. Não existe outra coisa entre um polo e outro, nenhuma área cinzenta, nenhuma dúvida, nada. Enfim, que o mundo não é complexo e que as pessoas idiotas é que tentam turvar o que é certo, numa clara intenção de confundir os “homens e mulheres de bem.” Acho que infelizmente é por aí.

    Responder

  2. Posted by Carlos Figueiredo on 29/11/2014 at 00:36

    Com relação ao mogno, li que demorava 500 anos e não 50, o que faz toda a diferença. A informação que dei, à respeito da rápida recomposição e do aumento de captura de CO2 nessa fase vi em uma reportagem sobre a Amazônia, denunciando o desmatamento. Minha resposta não contestou o dado de 500 anos nem a crítica à informação de que a mata se recompõe imediatamente, como vi na reportagem, porque não era uma refutação ao dado que mencionei mas ao fato de que essa informação poderia levar a facilitar a aceitação do desmatamento, com a qual concordei. E finalizei minha resposta, que foi feita, deixando implícito que a recomposição de uma árvore que demorasse 500 anos estava fora da realidade e para conseguir a almejada recomposição dependeríamos então de avanços (breakthroughs) científicos. A troca de ideias e informações aqui, de maneira leal e sincera, sem prejulgamentos, me parece a forma mais correta de fazermos avançar a consciência que poderá — se é que isso ainda é possível — mitigar e reverter o processo de aceleração da entropia do sistema.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: