Mais sobre antitabagismo

Meu texto com algumas dúvidas sobre antitabagismo é dos mais visitados neste blog. Alguns criticam, outros aprovam. Comemorando a legislação em vigor e a redução de uns 40% dos adultos para algo próximo a 10%, segue mais:
A. Ribeirão Preto. Faixas nas ruas: “Cidade livre do cigarro” – ou do tabaco, não lembro. À noite, você pega táxi para ir do bar ao hotel a alguns quarteirões, pois zona central é visivelmente perigosa, ocupada por usuários de crack que podem te abordar e causar dissabores. Inúmeras outras cidades estão assim. Não trocariam “livre do cigarro’ por “livre do crack”? Não sou a favor do tabagismo – sou contra a hipocrisia, o faz de conta, a demagogia.
B. Subo a Rua da Consolação fumando. O sujeito sentado na base da grade na entrada do prédio, esquálido, visivelmente em mau estado: “O cigarro vai te matar! O cigarro vai te matar…!” Foi hoje. Inspirou este post.
C. Em frente ao bom restaurante naturista em Goiânia, dou minhas tragadas, satisfeito por haver almoçado bem. Um senhor, junto ao seu automóvel, cabelos já brancos, rubicundo, barriga algo saliente, evidentemente em má forma, possivelmente mais novo que eu, resolve me doutrinar, ensinar que cigarro faz mal. Penso: “por que fumar em público atrai chatos?” Digo que estou para completar 74 anos e continuo em forma. Resposta: “Ah! Espere quando chegar aos 79 anos…!” Pergunto-me (mas não digo): será que ele chega lá?
D. Tosse irritante em tempo de seca, que achava ser por causa do cigarro, acabou de uns anos para cá. Gripe periódica, nunca mais. Pessoas me dizem que estou melhor. Parei de dirigir automóvel, mudei para bairro com ar menos poluído, ando mais a pé, substituí pão com manteiga e queijo pela manhã por cereais, presto mais atenção no que como, vegetais e tal. Não é só cigarro que faz mal.
E. Concordando que é melhor não fumar, observo, porém, uma estatística falaciosa, brandida por médicos e autoridades. Aquela sobre a despesa pública com saúde por causa do cigarro; das internações e mortes por doenças associadas ao tabagismo. No entanto, as despesas públicas e particulares com saúde têm aumentado. A explicação: é que as pessoas vivem mais; por isso, cresce a demanda por serviços médicos. Convenhamos: ou uma ou outra. Há um erro lógico. Estatísticas do custo atribuído ao tabagismo olham para trás, registram como era antes da redução para 10% da população.
F. De qualquer modo, estatísticas sobre custos da saúde são sinistras, não deveriam ser apresentadas como argumento. Possibilitam uma ditadura médica: te enquadram no peso certo, na pressão certa. Médico me pesou, mediu altura, fez as contas, deu o veredicto: “obeso”. Não, não sou, também calculei, só tenho algum sobrepeso. Visivelmente decepcionado ao medir minha pressão (12 x 8, sempre), batimentos (uns 90, acho), glicemia, colesterol, normalíssimos. Sabem por que alguns profissionais da saúde (não todos, felizmente) cobram a realização desse ideal espartano? Para transferir responsabilidades. Se algo der errado, é porque você fuma, não se cuida etc, não por ele errar diagnóstico ou receitar errado ou demorarem para examinar ou tratar.
G. Claro que nada disso isenta indústria do tabaco: criminosos, pagaram por muito tempo para esconder informação e tentar provar que não fazia mal. Proibirem propaganda, sobretaxar o produto, muito bem feito.
O post anterior sobre tabagismo: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/05/12/tabagismo-sete-argumentos/

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5 responses to this post.

  1. Posted by Marcelo Colares on 03/12/2014 at 21:32

    Muito bom, Willer.
    Acompanho seus textos e esse assunto com muito interesse.

    Me lembrei do que fala o Slavoj Zizek: vivemos numa sociedade hedonista, que tem o consumo como valor maior, mas que ao mesmo tempo tenta retirar a noção de risco da ideia de prazer. Todas as fantasias são possíveis desde que você esteja protegido. Café sem cafeína, cerveja sem álcool, chocolate sem gordura, sexo seguro, cigarro sem nicotina… O fumante incomoda justamente porque representa alguém que assume o risco envolvido no próprio desejo. Isso é visto como uma espécie de heresia. Zizek desenvolve e sempre retoma esse tópico.

    http://www.theguardian.com/artanddesign/2014/may/21/prix-pictet-photography-prize-consumption-slavoj-zizek

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  2. Gostei Willer, muito apropriado. O Estado está cada vez maior e se intrometendo cada vez mais em nossas vidas. O açucar será o próximo vilão a ser atacado pelas políticas públicas? A obesidade é muito pior que o tabaco.Eu comparo esta atitude com o das Seguradoras, se elas vão assumir o risco do seu automóvel se dão o direito de lhe dizer o que fazer: garagem dia e noite, menores de 24 anos, já bateu? O nosso Estado, no papel, oferece saúde pública então ele se acha no direito de dizer o que você tem que fazer com a sua vida. Será que um dia nos obrigaram a comer ração humana? Faço mea culpa, minha mãe tem efizema pulmonar por conta do tabaco e se não fosse o Estado prover o oxigênio e os antibióticos ela já teria partido (distanásia). Os remédios que ela usa deve passar de R$ 5.000 por mês. Eu fumo cachimbo e charuto, mas o cigarro é uma das poucas coisas que me atacam a rinite.

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  3. Posted by cmusilli on 06/12/2014 at 11:39

    Viver sem moderação!

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  4. Boas questões!
    O item D me chamou a atenção. Eu sou vegano e, apesar de me alimentar bem pouco, além das restrições pela minha escolha, alimento-me até que saudavelmente – suco só se for natural, fruta só se for “orgânica”, bem como os vegetais também, na maior parte das vezes. Intolerante moral à açúcar. Remédio nem sei qual foi a última vez que tomei e, se precisar, recorro aos naturais. Gripe, idem. que minha saúde prospere! Vivo percebendo que idosos com complicações, diabetes, por exemplo, terminam por obedecer a uma “dieta” que deveriam ter tido desde sempre.
    Moro perto de Mauá-RJ, área linda, verde, bucólica, então fica fácil escapolir para respirar ar de verdade e ver as folhas caírem das árvores com alegria. De onde moro, basta viajar uma hora para qualquer lado que seja para chegar em área onde as estrelas são vistas com clareza. A ideia é, um dia, construir uma casa de superadobe. E por aí vai, com um porém: o cigarro. Fumo bastante, feito um ultra-romântico, e, quando questionam estas minhas opções, sempre sobra um “ah, mas você fuma”, no que respondo “ok, de 100, faço um; e você? de 100, faz 99”. A questão do ar também é interessante. Só por exemplo, já ouviu falar na CSN, uma metalúrgica cuspidora de fumaça aí? Há sempre um ou outro não fumante falecendo de câncer por causa do “ar que respira”.
    O mais essencial é o ar que respiramos, a comida que ingerimos e o estado de espírito.

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  5. Posted by Denis on 24/12/2014 at 21:14

    o argumento da proibição, referentes aos efeitos de abuso, passa como normativa com propagandas pouco convincentes: aquela do senhor com o peito aberto com bitucas saindo pelas vísceras, certamente alguém que depois de fumar as mastigava e engolia (como alguns que conheci); a mulher dissecada logo depois de morrer, com a camada adiposa exposta como jus de algo com relação do tabaco; o jovem impotente, reclamando ao pênis do hábito que cultiva; o menino suicida, como se o tabaco tivesse culpa de nossas escolhas; a criança chiando, com o cinzeiro e o cigarro aceso do lado de sua comida; e etc… Ou seja, quem para pra analisar vê que a situação é tendenciosamente manipulada pela indústria da proibição. Acredito que teremos nosso bar de novo esfumaçando o fulgor da boemia, com cada um cuidando de seu pulmão e seu nariz atraindo os ares que verdadeiramente lhe aprazer…
    Feliz Natal à todos, e muita fumaça ativa

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