CARTA DE UM JOVEM LEITOR DOS BEATS

Beats livros LP&MEste post tem interesse pedagógico. Espero que seja retransmitido. Transcrição literal do que recebi pelo ‘inbox’ do Facebook. Autor cursa primeira série de ensino médio em uma cidade do interior gaúcho – tem perfil na rede social, chequei. Já recebi muitas mensagens de leitores, bem jovens inclusive – mas esta justifica observações, que vêm a seguir.

A MENSAGEM:
“Claudio o que falar de você,tu não sabe como eu agradeço por tu existir hehe.Traduz coisas maravilhosas seus artigos são muitos bons não cheguei a ler os teus livros por falta de money.Mas eu tava quase reprovado na escola em física,biologia e química.Mas um dia pego e encontro um poema de Ginsberg,que nunca tinha visto falar através dai fiquei sabendo o qual carente é nosso ensino pois em nenhum momento algum professor meu soube falar sobre a geração beat.Então decidi fazer um trabalho sobre essa geração,li e li,pela falta de money e não ter muitos livros nessa cidade consegui ler livros do Bukowski e comecei a ler a obra prima de Kerouac.Através desse trabalho consegui me mostrar de outro jeito para meus professores,tirei nota máxima em todos quesitos e fui aprovado,e consegui fazer que vários adolescentes que gostam dessas sagas infantis a ser interessar por algo muito bom. Cara meu sonho é um dia chegar no teu patamar
Também esclareceu: “na minha escola eu achei só o On the Road,pq foi doado por uma ex professora mas tava num canto escondido,sem qualquer indicação pra leitura”

MINHAS OBSERVAÇÕES:
1. Obras como essas que ele cita, e tantas outras, deveriam estar à disposição em bibliotecas públicas em todo lugar, evitando que isso que ele chama de “falta de money” dificulte acesso.
2. Não é anômalo leitura literária estimular desempenho em outras áreas. Entusiasmo ativa o cérebro. Grandes cientistas na área de Exatas foram ou são leitores refinados. Efeito típico da leitura de “On the Road” e “Uivo” é Robert Zimmerman transformar-se em Bob Dylan e sair de casa, ou Eduardo “Peninha” Bueno ir viajar – mas, nesses casos e em tantos outros, criatividade foi despertada, definiram identidade, alcançaram sua voz.
3. Já me apresentei para turmas de ensino médio, com um bom diálogo. Volta e meia, encontro algum autor que, quando garoto, ficou vivamente impressionado pela série ‘Beat e Contracultura’ que eu fazia na revista Chiclete com Banana de Toninho Mendes, por volta de 1990 – não tinha idéia do alcance de uma revista com tiragem de 100.000 exemplares. Portanto, a mensagem aqui reproduzida não é extraterrestre.
4. Literatura é o mundo da diversidade. Desta vez, foi a leitura de Kerouac e Ginsberg, assim como poderia ter sido um poema de Drummond ou uma infinidade de outros autores.
5. Episódio compromete a idéia de leituras “recomendadas” para faixas etárias e graus do ensino. “On the Road” de Kerouac e “Uivo e outros poemas” de Ginsberg são polivalentes, não-lineares – o que alguns luminares ainda não perceberam, ou não querem perceber.
6. Também compromete o dogma sociocultural (seguida por nossos parâmetros curriculares do ensino médio), de que leituras e ensino da língua devem relacionar-se ao “contexto”, o ambiente do aluno. Esses livros despertaram interesse por mostrarem algo diferente, outra realidade. Vão a contrapelo do cardápio de trivialidades oferecido pela indústria cultural. E ainda, mesmo minoritário, pode desmentir os apocalípticos da cultura digital. Mundo não se reduz a pessoas olhando fixamente para a tela do smartphone ou i-pad.
7. Brasil tem índice elevado de analfabetos funcionais. Como se vê, um a menos para preencher o índice. Ou um a mais no lado bom da estatítica. Professores, orientadores e agentes culturais promoverem acesso a obras reduzirá a burocratização do ensino.

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4 responses to this post.

  1. Posted by cmusilli on 10/12/2014 at 14:45

    Se os colégios indicassem leitura para despertar interesse ou paixão – e não só aquilo que “prepara para o vestibular” – teríamos muito mais leitores e escritores. Meus filhos se entediavam em aulas de literatura, reclamavam dos clássicos por causa da linguagem, embora eu explicasse a importância de conhecer tb isso. Só passaram a se interessar por livros quando um professor iluminado, o Emílio, do colégio Academia de Jaú – veja só cidade do interior paulista – passou a discutir literatura beat em sala de aula. Identificaram-se imediatamente e um deles passou a escrever poemas, hj tem um blog coletivo de poesia com os amigos, fizeram da escrita um “barato” criativo e não uma obrigação escolar. Coisas a se pensar e exercitar.

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  2. Claudio. Terminei de ler seu livro sobre os rebeldes da Geração Beat, perfeitos comentários sobre esses fantásticos escritores da América (do Norte, não faz mal). Esperei até quase o final para ler a atuação importante de Fernando Pessoa. Congratulações pelo trabalho.

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  3. Oi Claudio. Sou professor (de filosofia) do ensino médio há bastante tempo. Concordo plenamente com as suas observações. Um abraço

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