Algumas viagens ao Litoral Norte de São Paulo

My beautiful pictureMy beautiful pictureMy beautiful pictureMy beautiful pictureJá tinha estado lá antes. Barraca na praia ou modestas pensões em Ilhabela e São Sebastião. Eu era louco, irresponsável – Ilhabela em 1961, alugava canoa de caiçara, daquelas longas de um remo só, de segurar no braço, e saia canal afora. Um dia, resolvi atravessar, de Ilhabela a São Sebastião, ida e volta. Sozinho. Passei o dia remando. Na volta, a correnteza pegou, cheguei à ilha a quilômetros do ponto de partida, fui margeando as praias até completar o trajeto. Podia ter ido parar no mar aberto. Quem navega por lá sabe o risco que corri. Hoje, haveria barcos por perto para me rebocar; naquele tempo, nada, solidão completa. Eu e o mar, só. Leituras: poesia de Saint-John Perse.
Em 1962, bateu a sede de aventuras. Tinha um jipe. Com dois amigos, Irco, que possuía barraca, e o professor Giuseppe Rossi Dalla Riva, descemos para São Sebastião. Resolvemos ver o que havia além de Barequeçaba. Maravilhamento ao chegar a Toque-Toque (o Grande ou o Pequeno? não lembro – é onde tem a cachoeira). Não havia estrada, era apenas uma trilha – tão precária que concluímos, através daqueles raciocínios tortos, de paranóico, que era melhor seguir em frente do que tentar voltar. Trechos em que Irco colocava troncos sobre algum valo ou riacho e sinalizava para que atravessasse com o jipe. Acesso íngreme a Maresias, assustador. Fomos de praia em praia. Acampamos em Maresias, na Barra do Sahy, em Boiçucanga. Um ou outro aldeamento de caiçaras, só. Mata atlântica e mar. Tudo muito limpo. Peixes à vontade. Para terem uma idéia, nos 70 km. de São Sebastião a Bertioga foi todo o tanque de gasolina, de tanto usar a tração nas quatro rodas e a marcha reduzida nos piores trechos. Tanque de 40 litros, normalmente daria para uns 300 ou 350 km. Cheguei seco, zero de combustível, no posto de Bertioga.
No ano seguinte, resolvi voltar àquele paraíso. Mas de Bertioga a São Sebastião. Convidei Roberto Piva. Já havia alguma estrada de terra. Piva ficou impressionado com relatos de caiçaras que viam aparições e bolas de fogo á noite. As fotos são daquela viagem, Pipol Cronópios gravou os slides em arquivo. Há mais e pretendemos publicar álbum.
Ainda retornaria. Além de Paraty, Angra (uma canoa furada em 1965 e voltei a nado rebocando a embarcação), Ubatuba no Lázaro, perdi a conta das vezes. Em 1971, três semanas em um quartinho no Iate Clube da Barra do Una. Já era povoado, umas casas de veranistas ricos, levaram-me de lancha até as ilhas. 1972, Barra do Sahy, o hotel de chalés com uma namorada. 1979, do Guarujá até o Rio com meus primos alemães, já era a Rio Santos, ficaram maravilhados, fomos até Trindade.
Publico as fotos e o relato a propósito das notícias de mais um transtorno de fim de ano na Rio-Santos. Por causa das chuvas? Não, sempre choveu – por causa dos estragos, da irresponsabilidade . Não gosto de voltar lá. Década de 1970, de avião para o Rio, via manchas de terra no mar por causa da abertura da estrada. Obras gloriosas do regime militar: ambientalismo zero, se fosse hoje, não poderiam ter feito daquele jeito. Ainda bem que a Serra do Mar foi tombada em 1985. Mesmo assim, a especulação imobiliária ocupou tudo – sujou tudo. Muvucas e agitos em Maresias. Butiques e bares badalados. Bah.
Permanece o registro da inocente beleza daquelas paisagens. Ainda bem que fotografei. Espero que as imagens estejam nítidas.

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10 responses to this post.

  1. Posted by Fester on 27/12/2014 at 19:38

    Cláudio. Valeu ! Saudades de um tempo bom; fotos lindas. Grande abraço.

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  2. Posted by Ruth Sá on 27/12/2014 at 20:15

    Adorei.

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  3. Conheço o litoral norte de São Paulo desde 1970. Fiz uma viagem de Ubatuba a Santos, pelo litoral, em 1973. Não é fácil descrever a beleza e a paz que se desfrutava nessa parte do paraíso perdido. De Ubatuba a Bertioga, a trilha já não era tão ruim. Deu para ir de Fusca. grande parte do caminho era pelas praias desertas:sol, mata, praia e mar. Tudo quase intocado.

    Sempre volto para lá. Reconheço por trás da destruição a beleza perdida. Que pena!

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  4. Posted by Carlos Figueiredo on 27/12/2014 at 20:28

    Fiz viagens por aí, uma vez a partir de São Paulo — viemos de Belo Horizonte, para encontrar o pessoal aqui — e outras vezes, vindo do Rio, para Paraty (tomava-se um ferryboat em Angra).

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  5. Um belo relato. Gostaria de poder ter feito todo esse percurso na época em que você fez..

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  6. Que beleza…

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  7. Estive por lá nos naos 70 em casas alugadas dos pescadores, visitando sonhadores, fugitivos dos centros urbanos…era tudo lindo!

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  8. Posted by cmusilli on 20/01/2015 at 18:40

    Fotos lindas e um jeito especial, claro, de contar histórias!

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  9. Barra do Sahy é a mais linda de todas elas, as praias. O sol se põe no mar, e forma aquela alcatifa dourada na água. Mas o jeito de contar do Cláudio, é lindo, como disse a Célia Musilli.

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