Da Última Hora ao Charlie Hebdô; de N. S. Aparecida e Pelé a Maomé (e Jeová, e Jesus, e…)

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Recordam-se do escândalo de 1962? A charge do cartunista Octávio na Última Hora, mostrando N. S. Aparecida com a cara de Pelé? Enfureceu. Furgões do jornal foram incendiados, cardeais verberaram, o diretor do jornal Samuel Wainer desculpou-se.
EM TEMPO (POSTADO NO DIA SEGUINTE): Novaes Oc, filho do cartunista Otávio ou Octavio, postou informação relevante nos comentários para este post no Facebook. Duas imagens: a da charge, em cópia mais nítida, e o encontro de Samuel Wainer, Otávio e o então diretor da UH com o cardeal da época. Charge foi publicada em agosto de 1963 e não em 1962.
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O mundo não evolui linearmente. É um arquipélago de atrasos e progressos. Não obstante, há indicadores de avanço: aumento da expectativa de vida, maior acesso à informação, mais tolerância, pluralismo, as conquistas no plano da liberdade de expressão. A charge de Octávio, hoje, passaria em branco. Em 1980, nós a publicamos na revista Singular e Plural de Marcos Faerman, em um número sobre o humor e chargistas, e nada aconteceu, a TFP não veio bater à nossa porta.
Um erro dos que, mesmo repudiando o massacre, se manifestam por “mais respeito”: não reparam que no Charlie Hebdô tem sátira para todos – pode ser dirigida a Maomé, assim como a Jeová e rabinos, Jesus Cristo e o papa, quem for. Esta seleção de capas é expressiva:
http://www.eldiario.es/internacional/portadas-Charlie-Hebdo-criticas-religion_0_343315929.html
Se fosse para “respeitar”, não sairia nada . Sátira circular desse jeito é, objetivamente, avanço. Incorpora o legado iluminista, assim como aquele da contracultura e das rebeliões de 1968. Deixar de publicar algo por “respeito” equivale ao progresso curvar-se ao atraso; o moderno ceder para o retrógrado.
Em vez de apenas estampar o que foi visto na TV ou internet, jornais já trazem artigos interpretando e tratando das conseqüências. Sergio Augusto, em O Estado de S. Paulo, lembra a bomba no Pasquim que não explodiu por milagre:
http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,ninguem-quis-ser-o-pasquim-imp-,1617964
Este é pessimista: “Por que os terroristas estão saindo como vencedores”.
http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,por-que-os-terroristas-estao-saindo-como-vencedores-imp-,1617880
Concordo com a análise. Se não houvesse Charlie Hebdô, achavam outro alvo. Estratégia é forçar confronto, impossibilitar assimilação para ampliar o poder.
Relatos do episódio de 1962:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_brasil_de_nossa_senhora_e_pele
http://www.gazetadopovo.com.br/m/conteudo.phtml?id=1300130&tit=Quando-o-traco-vira-estopim

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2 responses to this post.

  1. Eu confesso que fiquei estarrecido com a ‘opinião’ de algumas pessoas esclarecidas sobre assunto, incluindo enxurrada de gente colocando a culpa pelo massacre nos próprios cartunistas, por não terem ‘pegado leve’. Sinto um certo nojo, principalmente de artistas, que se curvam ao medo e a opressão religiosa, principalmente dos três grandes monoteísmos. É bom passar aqui e ler alguém como você colocando pingos nos Is. Obrigado pela lucidez e pela coragem em se posicionar. Muita gente poderia aprender contigo a ‘pensar’ melhor, principalmente alguns poetas com uma afinidade medonha pela censura.

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  2. poetas com uma afinidade medonha pela AUTO censura, que é pior.

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