Oprimidos e opressores, ainda a propósito do que aconteceu em Paris – uma suíte da postagem precedente

1 Taller_Buddha_of_Bamiyan_before_and_after_destruction
1 Salman_Rushdie_2011_Shankbone
(ilustrações: estátua de Buda em Bamyan, Afeganistão, antes e depois da visita pelo Taleban, e o escritor Salman Rushdie)
Quer dizer que não pode mexer com eles porque são povo oprimido?
Mas quem oprime quem? Quem é o oprimido e opressor nessa história? Estado Islâmico entrou em cena, recentemente, promovendo um massacre em regra de yazids, minoria religiosa curda, uma espécie de gnósticos – crença pré-muçulmana de influência neoplatônica. A exemplo dos mandeus do Iraque, outra ramificação gnóstica, deveriam ser protegidos, e não perseguidos. Essas doutrinas milenares são memória viva, caminhos para o conhecimento de culturas arcaicas. Patrimônio simbólico vivo.
Ciclo atual de intolerância começa em fevereiro de 1989, com a fatwa determinando que o escritor indiano Salman Rushdie, autor de Versículos Satânicos, fosse executado por apostasia e blasfêmia. Até hoje, vive sob proteção. Teve um ponto alto com a destruição das estátuas de Buda de Bamyan pelo Taleban, em 2001: os colossais monumentos da arte Gandara no Afeganistão, milenares (construção começou em 540 d.C.).
Fanáticos sempre tentam destruir a cultura. Aniquilar a memória, o patrimônio simbólico, em primeiro lugar. Ataque ao Charlie Hebdô é típico. Da mesma família que o ataque às estátuas de Buda, a perseguição a Rushdie, a queima de templos com os fiéis dentro etc.
A situação a que chegamos teve a contribuição decisiva das trapalhadas geopolíticas das potências ocidentais, desde os acordos de Sykes-Picot de 1916, fatiando o Oriente Médio, e subseqüentes intervenções. Desde 1945, esses países foram vistos como meras peças no tabuleiro da Guerra Fria – pelos dirigentes dos dois lados. Mas os fundamentalismos não podem ser admitidos como resposta. Oprimidos, para mim, também são os integrantes do vasto contingente de muçulmanos que prefeririam levar a vida sossegados, assimilando-se ou preservando sua identidade, mas sem precisar viver sob o terror decorrente da interpretação da Charia adotada por fanáticos.
Isso, lembrando que a charge mais forte do Charlie Hebdô foi aquela retratando Jean-Marie Le Pen como um montículo de cocô. Outra, da Virgem Maria de pernas abertas, também é memorável. Houve quem não gostasse? Mas ninguém é obrigado a comprar e ler o hebdomadário.

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2 responses to this post.

  1. Eu também acho que tem muita querendo colocar motivos geopolíticos nos ataques que ultrapassam a inteligência crível desses extremistas. Basta ver algumas entrevistas com clérigos oferecendo dinheiro pela cabeça dos cartunista ou assistir aos vídeos deixados por um dos algozes do Charlie, o que está em jogo é tocar o terror e matar todo mundo que não pensa como eles. Ele são burros demais. Como é a extrema direita e a extrema esquerda, aliás, burros como todos os extremos.

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