Vamos falar direito? Vamos nos expressar em português? (faz tempo que estava para publicar isto)

Não sou purista nem preciosista, todos sabem. Não suporto o nacionalismo estreito, quererem proibir vocábulos estrangeiros e suas adaptações. E quem quiser se expressar no modo informal, coloquial, em socioletos, gírias, que o faça. Mas não precisavam transmitir tantas besteiras. Não é difícil brecar a novilíngua, meio inglês, meio português, que não é nem uma coisa nem outra. O portuglês, expressão do caipirismo.
Exemplos. Alguém marca um encontro “casual”. Como assim…? Foi um encontro marcado ou aconteceu por acaso? E, para ir à reunião “casual”, vai vestir uma roupa “casual” – quer dizer que tirou a sorte para escolher a roupa? ou fechou os olhos antes de pegar o vestido no armário?. Ocorre o seguinte: nosso “informal”, “à vontade”, em inglês é “casual” – que, em português, significaria por acaso, ao acaso, aleatório.
Pessoas são convidadas para ir à sala de “conferências”; para sentar-se à mesa de “conferências”. Nosso “reunião”, que em inglês é “conferency”. Já ouvi jornalistas se referirem a uma “conferência de imprensa” – “press conferency”, aqui seria uma entrevista coletiva.
O livro que, conforme noticiado, vendeu cem mil “cópias”. Pirataria? Quem vende “cópias” pode ser preso, é ilegal. Acontece que “exemplar”, em inglês, é “copy”. Pegou, ninguém mais usa “exemplares” para se referir a tiragens de livros ou qualquer coisa; nesta altura, se usassem, leitores e ouvintes não entenderiam do que se trata.
O pior desses vocábulos: “tributo”…! Vão “prestar tributo” a Raul Seixas! Pra quê? “Homenagear” é tão mais adequado… Já li até mesmo “pagar tributo”. “Homenagem”, em português = “tribute” em inglês. Nosso “tributo”, por sua vez, é “tax” na língua deles. Sim, nós vamos ser pesadamente tributados – e não nos sentiremos nem um pouco homenageados. Desde 2010, houve “homenagens” a Claudio Willer, nenhum “tributo” – é que meus leitores não são aparvalhados – bem que poderia ter “tributo” também, tipo cobrarem ingressos, meus saldos bancários agradeceriam.
Outra mania, jornais e TV inventarem palavras e grafias, desnecessariamente. No Estadão, não há islamitas, porém “islamistas” – por qual razão, não se sabe. Na Globo, esportes “paralímpicos”, e não “paraolímpicos”.
O inferno da legendagem. Capítulo de “The Newsroom”, os protagonistas: “Vamos resignar! Vamos resignar!” “To resign”, demitir-se. Ao final, foram convencidos a ficar, não se demitiram. Mas não se resignaram.
Alguns cacoetes foram banidos através da ridicularização. Lembram-se do “a nível de”? Morreu, hoje ninguém diz isso. E o gerundismo, “nos vamos estar telefonando”? Também acabou, não se atrevem mais. Verbos em “izar”, parabenizar, otimizar, teve até obstaculizar, já provocam desconfiança – principalmente quando ditos por gente do governo, está na cara que tentam nos enrolar.
Listinha, distribuída em redações, empresas de legendagem, escolas, resolveria. É tão fácil resolver. Na Folha, aquele professor com nome de restaurante não poderia dar um toque? Sem chegar ao rigor dos franceses, a fobia do anglicismo, com “ordinateur” em vez de computador e “portable” em vez de celular.
Ou não? Ou a capacidade de inventar besteiras é infinita por aqui?

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4 responses to this post.

  1. O “vamos estar telefonando” continua vivo nas ligações de propaganda telefônica e naquele canal notícias com “news” no nome, de vez em quando pego alguém usando ali. Realmente, algumas palavras entram no nosso inconsciente e é preciso estar atento. Ótimo texto.

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  2. Posted by Flores Nunes on 21/01/2015 at 23:56

    Indício de que estamos sendo colonizados. Mas de uma colonização que não se preocupa em ser geográfica, física, e sim cultural. Outra particularidade desse processo: entre os colonizados, há partidários de que a colonização se consolide. Pior, estamos em um tal estágio de colonização que essas marcas do colonizador, essas tatuagens de ferro em brasa que recebemos do colonizador, gozam de prestígio social; exibi-las faz de você uma pessoa melhor em determinados meios. Ora, quanto a mim, “le nationalisme n’avait jamais été mon fort”, mas convém refletir: quem nos está colonizando? Em nome de que estamos nos deixando colonizar?

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  3. Posted by meiotom on 22/01/2015 at 10:22

    Claudio, meu provedor foi comprado pela UOL, maior confusão para fazer migração, ficarei fora do ar uns 20 dias, se puder notificar pessoal. Obrigado.   abr Carlos Pessoa Rosa (Carlos Alberto Pessoa Rosa)visite: https://www.facebook.com/carlospessoarosahttps://www.facebook.com/pages/MeioTom-Poesia-Prosa/107391409414867http://pequenoeditor.com/http://www.meiotom.art.br/http://noticiasdacatadora.blogspot.com/http://www.dulcineiacatadora.com.br/http://www.cronopios.com.br/http://www.germinaliteratura.com.br/

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  4. Muito bem. Mas como é que ficamos com a palavra “mídia”, que os brasileitos fisgaram do som do inglês? Já seria xiitismo?
    Quanto a paralímpicos, parece que existe também controvérsia entre os falantes de inglês, onde toda essa história começou. A meu ver, simplesmente quiseram mudar o nome de uma marca para não criar muitos paralelos entre para-olimpíadas e jogos olímpicos. Jogada de Marketing (ops, Mercadologia). Acho que se dá o nome de diferenciação a esta estratégia.

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