Ecologia e memória: de 1985 a 2015

imagesA Serra do Japi
Foi em 1979, 1980…? O então senador Franco Montoro, enfático, discursava para o pequeno grupo à porta da casa de Ruth Escobar: “Ecologia … ! Defesa do meio ambiente … ! É importante …!” Ele estava de saída, eu chegava para mais uma daquelas reuniões – não lembro se era para tratar de anistia, campanha pró diretas, pró-constituinte, alguma outra manifestação.
Eleito governador em 1982, Montoro cumpriu. Logo no começo do mandato, em março de 1983, o tombamento da Serra do Japi, de Jundiaí até Cabreúva, pelo CONDEPHAAT, presidido pelo geógrafo Azis Ab’Saber. O então secretário da cultura, Pacheco Chaves, um fazendeiro (não se usava a expressão ‘ruralista’), reclamou: disse que não aceitava tombamento sem desapropriação e deixou o cargo.
Em seguida, iniciativas ainda maiores. Em junho de 1985, o tombamento, também pelo CONDEPHAAT, da Serra do Mar. Presidente do órgão já era Modesto Carvalhosa. A medida foi seguida por outros estados e pelo governo federal. Salvou-se alguma mata atlântica.
Em 1986, a ampliação da reserva ecológica da Juréia, de Peruíbe até Iguape, abrangendo a majestosa Serra dos Itatins. Havia um plano federal, dos militares, de construir uma nova usina atômica lá. E, se dependesse de Maluf e outros prepostos, abririam uma estrada como a Rio-Santos, provocando o mesmo estrago. Preferiria que pudéssemos ter acesso a essas praias maravilhosas, onde já acampei. Mas isso, conciliar ambiente e turismo, ficará para quando nos tornarmos um país mais civilizado.
É claro que tombamentos e criações de reservas não se devem exclusivamente a Montoro. Havia a militância, composta por entidades, movimentos e lideranças que, em seguida, contribuíram para que nossa Constituição tivesse bons dispositivos em defesa do ambiente – coordenação das propostas ambientalistas foi, se não me falha, de Fabio Feldman. Não obstante, uma pena naquele tempo não haver reeleição de governador. Faltou algo mais efetivo pela Serra da Mantiqueira: as nascentes de rios que formam o reservatório da Cantareira estariam menos comprometidas e a seca atual seria menos severa.
Impressão que a defesa do ambiente não estava no repertório dos sucessores, Quércia, Fleury e Covas. Houve um esforço, ao longo de décadas, envolvendo até agências internacionais, para que Cubatão deixasse de ser o lugar com o ar mais poluído do mundo – aquelas nuvens sulfurosas da COSIPA e outros empreendimentos, herança do desenvolvimentismo nos padrões do regime militar. No governo Serra, a retirada das moradias que persistiam, absurdamente, nas encostas da Serra do Mar, na Anchieta, descendo para Santos. Em compensação, vimos a mata da Serra da Cantareira se estreitar, ocupada por loteamentos, principalmente do lado de Mairiporã.
Enfim, faltou continuidade. Acho que não estamos perdendo apenas a biosfera: também está sendo perdida a memória. Hoje, uma militância aparvalhada contempla o modo como a mais obtusa liderança ruralista dá as cartas. Já que essas criaturas federais são inarredáveis, poderíamos ao menos aumenta a pressão sobre o governador (quem é mesmo? esqueci o nome dele) e prefeituras.
Um artigo recente de Modesto Carvalhosa, denunciando a tentativa de arquivar o tombamento da Serra da Mantiqueira no CONDEPHAAT. Uma virada de 180 graus, com relação a três décadas atrás:
http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/01/1395567-modesto-carvalhosa-retrocesso-a-vista.shtml

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