Amostras de ‘As pessoas parecem flores finalmente’ de Charles Bukowski

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É seu livro póstumo agora publicado pela L&PM, tradução minha. Edição de bom gosto, brinquei com a editora, perguntei onde haviam achado esse capista, Ivan Pinheiro Machado.
Já havia publicado algo desse livro aqui, o belo poema de despedida, em https://claudiowiller.wordpress.com/2014/02/20/um-novo-concurso-de-leitura-de-poesia/ A seguir, dois poemas evocativos e um, muito típico, afirmando a superioridade moral dos animais selvagens sobre os homens (tem outro mais veemente ainda, “O touro”, mas com uma disposição dos versos na página difícil de reproduzir neste blog).
Boa leitura.
pois eles tinham coisas para dizer
os canários estavam lá, e o limoeiro
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam –
mas não tão alto
pois eles tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários á noite
com sacos:
“assim eles conseguem dormir, querido”
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera;
e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam
os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.

9 da manhã
em chamas como um forte incendiado
a primeira nota de “impromptu” –
luz do sol
agressor traidor
irrompendo através de beijos e perfume e nylon,
mostrando uma cidade com dentes quebrados
e leis loucas,
trazendo um beco em ruínas ao olho,
este diamante bruto;
e na palma da minha mão
uma pequena ferida
vermelha-cereja
que nem Cristo iria ignorar
enquanto as senhoras passam
arranhando suas mudanças de marcha arrebentadas
e cercas vivas e cães mimados
soltando fogo enquanto
você queima:
o sol das 9 da manhã
nos dá maçãs e putas
e agora agradecido
posso novamente lembrar-me
de quando eu era jovem
de quando eu caminhava em ouro
de quando rios tinham espelhos
e não havia fim.
os elefantes do Vietnã
primeiro eles costumavam, ele me contou,
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá em cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo suas trombas (se não tivessem sido estouradas)
abrindo suas bocas
bem grandes e
tropeçando em suas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos em suas barrigas.
então nós voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o restante.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.

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5 responses to this post.

  1. Posted by Jorge on 01/04/2015 at 18:40

    Willer, participei de uma oficina sua na biblioteca Alceu Amoroso Lima, em 2010, sobre a Geração Beat e me recordo plenamente da sua crítica sobre a obra do Bukowski, inclusive a sua poesia. O que aconteceu para você mudar de ideia e traduzi-lo? Creio que vc não traduza nada que não goste, correto?

    Responder

    • Separei Bukowski da beat. Acho que escreveu demais, mas criou bons textos. Aqui, neste blog, transcrevi duas resenhas que publiquei dele, no Estadão, fazendo restrições e observando qualidades

      Responder

  2. Posted by célia musilli on 01/04/2015 at 23:19

    Os poemas dele são narrativos e quase sempre em tom melancólico, dão a impressão de que está deixando ou deixou pessoas ou situações. Até por isso são comoventes e soam como baladas.

    Responder

  3. não é muito

    suponho que assim como outros
    eu tenha atravessado ferro e fogo,
    o amor que deu errado,
    quedas de cabeça, bêbado no mar,
    e escutei o simples rumor da água escorrendo
    nos encanamentos
    e desejei afogar-me
    mas simplesmente não consegui aguentar os outros
    carregando meu corpo três lances de escada abaixo
    até os curiosos boquiabertos;
    a psique foi queimada
    e nos deixou insensíveis,
    o mundo tem estado mais escuro que um apagão
    dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos
    e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
    quando o sangue estava fraco demais para continuar;
    e isso acontecerá com outros,
    e nossos poucos bons momentos serão raros
    porque temos um senso crítico
    e não somos fáceis de enganar com risadas;
    minúsculos insetos rastejam em nossa tela
    mas podemos enxergar através dela
    uma paisagem devastada
    e que eles possam ter sua vez;
    só pedimos que leopardos guardem
    nossos ralos sonhos.
    certa vez estive internado em um
    hospital branco
    para os moribundos e os egos
    moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
    razões para fazer com que as coisas crescessem
    só para morrer, onde de joelhos
    eu rezei por LUZ,
    eu rezei por l*u*z,
    e rezando
    arrastei-me como uma lesma cega para a
    teia
    na qual fios de vento se enroscavam em minha mente
    e morri de piedade
    pelo Homem, por mim,
    em uma cruz sem pregos,
    olhando atemorizado enquanto
    o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
    pisca e come.

    Bukowski
    Tradução: Claudio Willer

    **

    Professor W, não é muito dizer que pessoas parecem flores finalmente, embora ainda não tenhamos nos reconhecido e agido conforme essa outra identidade. se bem que há flores também carnívoras. como nós. rs…

    Obrigada pela tradução, Claudio! Parabéns!

    Beijos!

    Lu

    Responder

  4. Willer, você tem em vista ministrar algum curso e/ou oficina? Abs.

    Responder

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