DENDROCLASTAS

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R…, meu amigo há décadas, tipo assustador, quase da minha altura e com o dobro da minha largura, ampliado por halteres, judô e outras práticas. Aparência demoníaca. Aprontava. Um de seus passatempos, aterrorizar pessoas. Há décadas, saindo da adolescência, passava as férias em uma estância no interior. Tarde da noite na pracinha principal, viu um sujeito passar carregando uma árvore. Deu um grito, “Dendroclasta…!” e saiu correndo atrás. Que cena, o sujeito desesperado com sua árvore, e meu amigo atrás, aos aos berros, “Dendroclasta…!” “Dendroclasta…!”, em desabalada carreira pelas ruas da cidadezinha deserta, madrugada afora.

A vez seguinte em que me deparei com o vocábulo foi em 1973. Uma carta no Jornal da Tarde, assinada por Modesto Carvalhosa, denunciando o morador de um palacete na Rua Porto Rico que havia mandado cortar as árvores na calçada em frente (certas ruas convidam à troca de letras – Porco Rico, que tal? a rua Costa Rica também se presta). O morador, o responsável pelo corte? Ninguém menos que Paulo Maluf, então apenas um ex-prefeito. Vejam o que são as coincidências. Carvalhosa acusou-o de “desiderato dendroclasta”. Achamos linda a expressão, eu e colegas de trabalho. Curtimos. Recortamos a carta, mostramos, comentamos com outras pessoas.

Mais tarde, Carvalhosa se associaria a manifestações e iniciativas importantes, usando uma linguagem menos empolada. Recentemente, publicou artigo bem claro, mostrando que projeto anti-corrupção de Dilma é mistificador. Na década de 1980, durante o governo Montoro, presidiu o CONDEPHAAT, órgão de preservação do patrimônio. Colaborou no tombamento da Serra do Japi, da Serra do Mar, na criação do Parque da Juréia. O mundo estaria pior – ainda pior – sem aquelas ações pioneiras.

Devastação no Brasil é tradicional. Grandes dendroclastas continuam no poder – na maioria dos municípios e estados, e no governo federal: sua principal porta voz, a ministra da agricultura Kátia Abreu. O resultado, índices da ordem dos 180% de desmatamento na Amazônia, nos últimos meses. Enquanto isso a água falta, as torneiras secam, o clima piora, espécies são ameaçadas de extinção, povos indígenas também.

Não pode haver contemplação com essa gente. Nada justifica prosseguirem. É impossível multiplicar e transformar em legião aquele meu amigo selvagem. Mas algo precisa ser feito. Chega.

Ocorreu-me mais sobre esse meu amigo assustador. Histórias são inúmeras, passaria uma noite relatando. Certa vez, eu dirigia o automóvel, instalou-se no banco de trás. Baixou o vidro, arriou as calças e cueca. Encaixou a larga bunda na janela aberta, exibindo seu orifício anal para uma cidade perplexa. Em um trajeto pelo centro, Avenida São Luís, Consolação, Xavier de Toledo, os viadutos. Fazíamos muita coisa assim, achávamos legítima manifestação de rebelião contra a burguesia careta. Dendroclastas e seus apoiadores mereceriam ser submetidos a espetáculos como esse.

Vontade de publicar umas crônicas. Às vezes, lembro-me de episódios assim e dou risada sozinho. Quando relato tumultos provocados por surrealistas, como aquele da homenagem a Saint-Pol-Roux, ou confusões beat como aquelas provocadas por Gregory Corso, sei do que estou falando.

(a foto é do Greenpeace)

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3 responses to this post.

  1. Dendroclastas brotam do chão!

    Resposta

  2. Maluf é o dendroclasta dendrocrata pseudodendrófilo. Como proprietário da eucatex, é um dos maiores plantadores de eucalípto do país, ou seja, um semeador de deserto…

    Resposta

  3. Posted by Figueiredo on 02/05/2015 at 21:03

    Claudio,

    Segue uma tradução de um poema de Álcman e dois outros, esses meus.

    1. Tradução de um poema de Álcman

    Noite

    Sobre a terra sonolenta ainda a noite vela

    Em calma dormem os cumes da montanha e na sombra os vales

    As falésias e os desfiladeiros profundos

    O gado na colina. No fundo do mar

    Sem conta barbatanas e cardumes

    Tranquilos repousam. Mesmo a operosa abelha

    Abandona sua faina. No silente bosque

    Não mais a zoada dos insetos soa

    E todas as tribos aladas, pelo doce sono dominadas

    Pousam na clareira, e pendem as asas caídas.

    2

    Para Aristarco de Samos

    É em ti

    Que deves procurar.

    Não há nada no Universo

    Ou fora dele

    Diferente de ti.

    E nada de tudo o que existe

    É como tu és.

    De tudo és igual

    E como tu nada existe, existiu ou existirá.

    És tu que te preservas

    E não há inimigo maior de ti

    Do que tu mesmo.

    4

    Me voy como El Cid

    Sin conducirme mas,

    Llevado por Barbieca

    Aunque unos créen que vivo

    Resposta

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