Allen Ginsberg para homofóbicos: um poema edificante e instrutivo

ginsberg

Anteontem, dia 03 de junho de 2015, Ginsberg teria completado 89 anos, se um câncer no fígado resultante de hepatite C não o tivesse levado aos 70, em 1997. O poema a seguir, “Por favor meu amo”, circulou no Facebook, postado por Sergio Cohn. Um professor de escola nos Estados Unidos o distribuiu para alunos e foi demitido (“et pour cause…”, diriam os francófonos) Adequado para homofóbicos em geral e os idiotas que reclamam da propaganda do Boticário em especial, também poderia enriquecer o repertório da Parada Gay deste próximo domingo. É a tradução de “Please, Master” por Paulo Henriques Britto, que integra o volume de poesias A queda da América, publicado pela L&PM. Já o comentei em meus Geração Beat e Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico. Observei o caráter litúrgico, acentuado pela repetição, pelo uso da anáfora. Ginsberg tratou as evocações do que fazia com Neal Cassady (morto em 1967) como cerimônia religiosa, confundindo ou invertendo propositadamente as esferas do sagrado e do profano. Paulo Henriques Britto é um tradutor dos mais qualificados, resolveu bem todas as obscenidades, e também enfrentou as dificuldades de Kerouac em Os subterrâneos (igualmente pela L&PM). Não obstante, eu teria utilizado “Por favor Mestre” ou “Por favor Senhor” para acentuar mais ainda esse tom litúrgico, de antinomismo religioso, oração em um culto às avessas. Se bem que “amo” tenha um duplo sentido interessante.

Por Favor Meu Amo Allen Ginsberg

Por favor meu amo deixa eu tocar teu rosto

por favor meu amo deixa eu me ajoelhar a teus pés

por favor meu amo deixa eu baixar tua calça azul

por favor meu amo deixa eu contemplar o teu ventre de dourados pêlos

por favor meu amo deixa eu tirar tua cueca devagarinho

por favor meu amo deixa eu desnudar tuas coxas para meus olhos

por favor meu amo deixa eu tirar minha roupa sob a tua cadeira

por favor meu amo deixa eu beijar teus tornozelos tua alma

por favor meu amo deixa eu colar meus lábios na tua coxa dura lisa musculosa

por favor meu amo deixa eu grudar o ouvido no teu estômago

por favor meu amo deixa eu abraçar tua bunda branca

por favor meu amo deixa eu lamber tua virilha de pêlos louros e macios

por favor meu amo deixa eu tocar com a língua teu cu rosado

por favor meu amo deixa eu esfregar o rosto no teu saco,

por favor meu amo, por favor, olha nos meus olhos,

por favor meu amo me manda deitar no chão,

por favor meu amo manda eu lamber tua pica grossa

por favor meu amo põe tuas mãos ásperas no meu crânio careca cabeludo

por favor meu amo aperta a minha boca contra o coração do teu pau

por favor meu amo aperta o meu rosto contra o teu ventre, me puxa

lentamente com teus polegares fortes

até tua dureza muda chegar à minha garganta

até eu engolir & sentir o gosto do teu pau-tronco cheia de veias carne quente delicada por favor

Meu amo empurra meus ombros me olha bem nos olhos & me faz

debruçar sobre a mesa

por favor meu amo agarra minhas coxas e levanta minha bunda até a tua cintura

por favor meu amo tua mão áspera no meu pescoço palma da outra mão na minha bunda

por favor meu amo me levanta, meus pés apoiados em cadeiras, até meu cu sentir o hálito do teu cuspe e teu polegar girando

por favor meu amo manda eu dizer Por Favor Meu Amo Me Fode agora Por Favor

Meu amo lubrifica meu saco e boca peluda com doces vaselinas

por favor meu amo unta teu caralho com cremes brancos

por favor meu amo encosta a ponta do teu pau nas pregas do buraco do meu eu

por favor meu amo enfia devagar, teus cotovelos envolvendo o meu peito

teus braços alisando o meu ventre, teus dedos tocam no meu pênis

por favor meu amo mete em mim um pouco, mais um pouco, mais um pouco

por favor meu amo enfia esse troço no meu cu bem fundo

& por favor meu amo meu faz rebolar para entrar a pica-tronco até o fim

até minhas nádegas aninharem tuas coxas, minhas costas arqueadas,

até eu ficar só solto no ar, tua espada enfiada latejando dentro de mim

por favor meu amo tira um pouco e lentamente esfrega em mim

por favor meu amo enterra fundo outra vez, e tira fora até a cabeça

por favor por favor meu amo me fode outra vez com o teu ser, me fode Por Favor

Meu amo enfia até machucar o meu macio o

Macio por favor meu amo faz amor com meu cu, dá corpo ao centro & me fode direitinho como uma garota

me abraça com carinho por favor meu amo eu me entrego a vós

& enterra no meu ventre o mesmo doce lenho quente

que dedilhaste em tua solidão em Denver ou no Brooklin ou fodeste uma donzela num estacionamento em Paris

por favor meu amo entra em mim com teu veículo, corpo de gotas de amor, suor de foda corpo de ternura, Me fode assim de quatro mais depressa

por favor meu amo me faz gemer sobre essa mesa

Gemer Ó meu amo por favor me fode assim

nesse teu ritmo de roça-enfia& tira-e-roça & enterra até o fim

até meu cu ficar mole cachorro sobre mesa ganindo de terror prazer de ser amado

Por favor meu amo me chama de cachorro, arrombando, me esculhamba

& fode mais violento, meus olhos escondidos por tuas mãos que agarram meu crânio

& enterra fundo com força brutal arrebentando a macieza úmida de peixe

& pulsa cinco segundos esguichando sêmen quente

& mais & mais, enfiando fundo enquanto eu grito o teu nome ah eu te amo

por favor meu Amo.

Em tempo: adicionei a notícia da bronca no professor de Connecticut – convenhamos, turma de 17 / 18 anos, não devia dar esse problema todo, garotada nessa idade já sabe das coisas:

http://www.thedailybeast.com/articles/2015/05/28/award-winning-teacher-fired-for-reading-an-allen-ginsberg-poem.html

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5 responses to this post.

  1. Republicou isso em Claudio Willer.

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  2. Posted by Carlos Figueiredo on 06/04/2016 at 23:04

    Escrever, publicar ou mesmo ler até o fim esse poema é um ato revolucionário. Mas não é um ato revolucionário careta, de uma seita de crentes que acha que possui o segredo para mudar o mundo mas nunca o fez, verdadeiramente. É um ato revolucionário do movimento que de fato mudou o mundo. Os poetas malditos franceses foram os precursores. Os beats, as antenas sensíveis à corrente subterrânea do processo civilizador, na sua fase informalizadora, de emancipação das sensações perigosas, submetidas à independência da consciência individual. Daí a revolução sexual dos anos 1960, daí o movimento pelos direitos das minorias, da emancipação feminina, da luta contra a segregação racial e o preconceito,pelo direito dos animais, da emancipação das pessoas. O que muda o mundo não é, nem nunca será, ficar gritando slogans como zumbis. A influência da chamada contracultura, dos movimentos beat, hippie, dos freaks, dos libertários, influenciaram o comportamento, a criação dos computadores, a física, abriram as portas para o novo. O que muda o mundo são as pessoas, a arte e a ciência.

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  3. Posted by Hyago Carlos on 24/08/2016 at 17:05

    que poema maravilhoso!

    Responder

  4. […] Um dos meus posts mais visitados é “Allen Ginsberg para homofóbicos”, com a tradução de “Please master”, “Por favor meu amo”, por Paulo Henriques Brito, publicado em A queda da América (L&PM): https://claudiowiller.wordpress.com/2015/06/05/allen-ginsberg-para-homofobicos-um-poema-edificante-e… […]

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