Venezuela: estive lá. E faz algum tempo pretendia postar isto

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A foto foi tirada em Barinas, terra natal de Hugo Chávez. Agradeço a Élida Lima, agente cultural local. Participava do Festival Mundial de Poesia, 17 a 23 de julho de 2006.

Foram seis belos dias. O teatro Teresa Carreño, equivalente local do Municipal, em um parque, ao lado de um museu, lotado, público atento para ouvir 54 poetas, 28 da Venezuela e 26 de outros países. Havia até da Austrália, China e Japão. Organização exemplar. Monitores bilíngües para nos acompanhar. Hotel Hilton Caracas, dos melhores 5 estrelas em que estive. Política cultural de qualidade: deu para comprar bons livros, baratos, publicados pela Monte Ávila e El perro y la rana. Minha participação está em uma bela antologia: 3er Festival mundial de poesía – Venezuela 2006, Fundación editorial el perro y la rana, Caracas, maio de 2007.

Hoje não é mais assim. Dinheiro acabou. Festival continua, mas na base do voluntarismo, não conseguem oferecer passagens, infraestrutura e “viático”, como denominam o cachê. Hilton foi estatizado, piorou. Boas editoras como a Monte Ávila, encampadas, não têm mais distribuição.

Desconfiado de que chavismo seria mais um caudilhismo latino-americano, cheguei avisando que não estava disponível para propaganda. “No firmo nada”, disse para os organizadores, simpaticíssimos, hospitaleiros. Até um manifesto anti Bush eu recusei assinar, mesmo havendo encabeçado o manifesto brasileiro quando invadiram o Iraque. Escolhi poemas de intimismo lírico; podia ter apresentando algo como os que lia nas manifestações contra os militares na década de 1970. Apreciaram, aplaudiram-me com entusiasmo. Leitura do original com a projeção da tradução em espanhol ajudou. Que pena não haver registro digital.

Mas foram recebidos friamente poetas querendo ser arautos de uma revolução, com textos gotejando o sangue de mártires da militância. Algumas apresentações, não vaiaram mas não se deram ao trabalho de juntar as palmas das mãos para fazer ‘clap clap clap’. Soube depois que público era composto por estudantes universitários; opunham-se a Chávez e logo sairiam às ruas em protesto contra a expropriação da emissora de TV de oposição.

Passeei. Fiz compras, daquelas inevitáveis quando se viaja. Fui de metrô ao centro de Caracas, parecido com o Tatuapé no trecho da Radial até a praça Silvio Romero. Tudo no shopping era importado. Levei meias e cuecas da Lupo, camisa chinesa, colônia francesa. Nenhum produto venezuelano. Na rua, muro grafitado com dizeres de que capitalismo mata não sei quantas crianças por minuto em letras pretas, bem grandes.

Além de Caracas, participantes apresentavam-se em outras localidades. Podia ter-me cabido um desses lugares sensacionais da Venezuela, como Mérida, nos contrafortes andinos e com a cachoeira mais alta do mundo, ou Maracaíbo, com o enorme lago à beira mar. Coube-me Barinas. Foi uma viagem no tempo, qualquer coisa como ir parar em Presidente Prudente em 1950. Hotel, prédio de 1930, por aí, reformado para que os quartos tivessem banheiro. Apresentação acabou sendo em Pedraza, a uns 60 ou 70 km, possibilitando ver mais do país. Barinas tem mais de 300.000 habitantes e fica na parte agriculturável da Venezuela. Vi campos vazios, pastagens onde despontava algum solitário boi ou vaca. No aeroporto, um balcão em que vendiam queijos feitos na região.

Venezuela é um país maravilhoso. Tem montanhas andinas, selva amazônica, litoral deslumbrante, grandes extensões de terra para agricultura. Mas não produz nada, não planta nada, não fabrica nada. Culturalmente avançada, porém economicamente atrasada. Mantém-se com a exportação de petróleo. Até a carne bovina é importada do Brasil. Antes, oligarquias ficavam com a receita do petróleo, distribuíam-na entre seus pares e gastavam em obras públicas, rasgavam autopistas em Caracas – uma delas, logo atrás do ex-Hilton, impossibilita acesso a pé a uma reserva florestal, coisa típica de sociedade muito desigual, estratificada, um planejamento só para usuários de automóveis mas que nunca impediu os “paros”, os enormes congestionamentos. Com Chávez e o bolivarismo, passou-se a distribuir uma parte para os pobres. Penso que deixaram de assimilar algumas lições brasileiras, nossos mecanismos para promover desenvolvimento, BNDES, EMBRAPA, INCRA, crédito rural conjugado à ameaça de ocupação pelo MST, obrigando proprietários a produzir. Chavistas hostilizam a economia de mercado e o capital privado, mas não criaram alternativas. Sequer tentaram replicar o modo soviético, investimento em produção via planejamento central. Comentei com Floriano Martins – indicou-me para aquele festival e me publicou em uma boa antologia venezuelana de surrealismo, Un nuevo continente – que, quando a cotação do barril de petróleo caísse, seria o caos. Não deu outra. Hoje, filas para comprar comida, faltam bens de primeira necessidade, inflação e desemprego crescem. Resposta do regime é endurecer, fechar-se mais. Prendem opositores, mataram manifestantes, intervieram na mídia. Há gente que gostaria de resolver desse modo aqui.

E agora arrumaram um incidente diplomático de graça, de pura bobeira. Deixassem os senadores brasileiros ir lá, ver os presos. Consequências do que fizeram irão complicar mais ainda para eles. Pode dificultar permanência no Mercosul. (Em tempo, postado alguns dias depois: parece que a iniciativa valeu como pressão, conjugada a outras visitas e manifestações, pois o governo Maduro marcou data de eleição e a libertação de alguns opositores, presos políticos, está sendo anunciada)

Evito generalizar. Governos da tendência bolivarista não acarretam obrigatoriamente catástrofes. Situação da Venezuela difere do que se passa no Equador ou Bolívia. O equatoriano Correa é autoritário mas parece saber administrar. Não obstante, o contraste de Venezuela e Colômbia é interessante. Estive na Colômbia, em outro festival de poesia esplêndido, o de Medellín em 2010. Uma bela cidade, uma região maravilhosa. O esplêndido museu (apresentei-me em uma das salas), a praça com os Botero, quantidade de bibliotecas e auditórios para ler poesia, parques e passeios. Tomei metrô e o famoso teleférico. Nem tudo é assim, é claro: para voltar do mercadão varejista, o “minorista”, ao hotel, recomendaram-me pegar táxi por segurança. Mas conversei com pessoas muito satisfeitas com a melhora da situação colombiana nos últimos anos, disseram-se aliviados por não deparar com cadáveres ao dobrar a esquina. Foi conseguido através da submissão aos Estados Unidos, dirão sectários. E daí? O que importa mais, o bem estar da população ou afirmar autonomia a qualquer preço? Competência, qualificação para governar, não são variáveis decisivas, em um ou outro caso? Discursos não movem nações.

A propósito de grandes festivais de poesia – há muitos, além de Medellín e do que havia em Caracas: precisamos de algo assim no Brasil. Proliferação de festas literárias é positiva, apesar da nota dissonante pelo encerramento da Jornada de Passo Fundo, o mais produtivo dos eventos dessa categoria. Mas a apresentação ao vivo de poetas é outra coisa. Forma leitores e ouvintes. Sequer é antagônica com relação ao mercado editorial: em Caracas e Medellín, livros eram vendidos e circulavam. Fica a sugestão. Disponho-me a colaborar.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Joaquim Mattar on 22/06/2015 at 02:03

    Parabéns Wilker! Precisamos de um Brasil cultural. Menos policalha e mais literatura! O Brasil está “, emburrecendo”. Sem falar que estão sucateando a Educação, como se fosse um antídoto contra a lucidez! Veja o caso das verbas para as Universidades. Era medieval o que me parece. Um período obscuro entre a liberdade e a ” mordaça econômica “. Sem literatura, sem debate de idéias, o desenvolvimento estancaestanca, e reduz tudo a nada! Triste Brasil atrasado.

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  2. Gostei muito do seu comentário, Wilker. É preciso mesmo deixar os americano entrar, eles sim sabe das coisa.

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  3. Posted by hilton dominczak on 30/06/2015 at 12:15

    Cláudio Willer, seu comentário sobre a situação da Venezuela é muito raso, muito superficial. Só faltou vc pedir que os EUA invadissem Caracas o mais rápido possível e, claro, junto com a invasão, levassem seus produtos para vender aos venezuelanos. A revista Veja adoraria publicar esse seu post.

    Responder

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