É necessário combater a crueldade com animais; mas sem demagogia, sem absurdos jurídicos

 Bragança Paulista _n

Nem todos os envolvidos na ótima causa da defesa dos animais são adeptos das soluções aberrantes, como essa da prefeitura de São Paulo, proibindo a comercialização de fígado gordo de ganso e peles de animais. Justificou, entre outras manifestações, os artigos na página 2 do jornal Folha de S. Paulo de hoje, transcritos a seguir. O segundo deles, de Igor Gielow, me parece carregar nas tintas. Petistas estão preocupados com outras coisas, nessa altura: salvar mandatos, evitar naufrágio eleitoral. Ademais, conheço petistas inteligentes (por onde andam…?).

Pretendo continuar a defender meu direito de figurar em fotos como esta, garfando uma saborosa carne ensopada – foi tirada em Bragança Paulista em maio, em um festival. Não obstante, havendo escolha, eu preferir peixe à carne bovina. Quanto ao patê de foie gras, acho a terrine mais saborosa. E a “Leberwurst”, de fígado de galinha, me traz reminiscências da infância. Embora raramente as coma, são muito gordurosas.

Que venham as campanhas educacionais em favor da bioética. Que sejam rigorosamente fiscalizadas todas as criações de galináceos, palmípedes, bovinos, suínos, caprinos, ovinos, equinos e demais espécimes. Que seja banida a pesca predatória. Que alimentos com gordura trans e outros prejudiciais á saúde sejam definitivamente proibidos. Que todos os aditivos químicos na comida sejam seriamente controlados e declarados de modo bem visível. Fora com os hambúrgueres em lanchonetes de escolas. Fora com as propagandas e demais modos da sedução que estimulam maus hábitos alimentares.

No entanto, a imposição totalitária do que poderíamos comer, isso jamais. E esta nova lei municipal, inequivocamente oportunista, se adotada, seria o primeiro passo nessa direção.

Mais, no que já havia postado aqui: https://claudiowiller.wordpress.com/2015/05/18/a-comida-na-obra-de-jack-kerouac-e-mais-alguns-topicos-literarios-e-sociais/

Os artigos da Folha:

HELIO SCHWARTZMAN: Turma do barulho

SÃO PAULO – Da mesma forma que os vereadores de São Paulo não podem legalizar a cocaína na cidade, tampouco podem proibir um produto cuja comercialização é legal no país. A questão da competência legislativa é um conceito elementar em direito e é difícil imaginar que o prefeito Fernando Haddad não esteja familiarizado com ele.

Ainda que não estivesse, a Procuradoria Geral do Município recomendara ao prefeito que vetasse, por vício de inconstitucionalidade, o projeto de lei que bane o “foie gras” dos restaurantes da cidade. Mas Haddad o sancionou. A melhor hipótese para explicar a atitude é que ele não quis comprar briga com os defensores dos animais. Preferiu empurrar a encrenca para o Judiciário.

Não sou indiferente ao sofrimento de nossos amigos peludos e emplumados. Na melhor tradição consequencialista, apoio a ideia de reduzir a quantidade de dor desnecessária no planeta. É claro, porém, que o adjetivo “desnecessário” abre caminho para sutilezas hermenêuticas.

A menos que se pretenda tornar o vegetarianismo obrigatório, a produção de carne precisa estar autorizada. E, uma vez definido que patos e gansos podem ser abatidos para consumo, a discussão pertinente é sobre as condições em que são criados.

A técnica de alimentação forçada usada para engordar o fígado dos bichos parece de fato cruel, especialmente quando se considera que ela não é imprescindível. Existem maneiras bem agradáveis de desenvolver uma esteatose hepática. O melhor remédio contra a dor desnecessária, portanto, não é proibir o “foie gras”, mas cuidar para que seja produzido de forma menos cruel.

O que há a lamentar nesse episódio é que um projeto sabidamente inconstitucional tenha se convertido em lei não por suas virtudes intrínsecas, que não existem, mas porque o lobby que o gerou é especialmente barulhento. Democracias não deveriam premiar radicalismos.

IGOR GIELOW: Haddad, “foies gras” e o petismo

BRASÍLIA Interrompemos a programação do Planalto Central, que nesta sexta (26) apenas viu ministros da cozinha presidencial citados na Operação Lava Jato, para informar que os habitantes do município de São Paulo foram brindados por mais uma medida civilizatória do seu alcaide, Fernando Haddad.

A partir de agora, gansos franceses, turcos e catarinenses poderão dormir mais tranquilos, pois seu sofrimento não contará com o auxílio do Novo Homem que está sendo forjado nas ciclovias paulistanas.

O “foie gras”, fígado engordado de forma forçada dos penosos, está protegido das bocas da capital (“spoiler”: em Jacareí é liberado).

O fato de a legislação brasileira não vetar o consumo do produto e de que não há notícia de uma produção de “foie gras” em Higienópolis (ou Heliópolis, tanto faz) foi ignorado por vereadores e pelo prefeito –a quem cabia a palavra final.

Ele será saudado por vegetarianos e “modernos” como alguém de visão. Esses dias, alguém escreveu nesta Folha que Haddad é um prefeito muito avançado para o atual estágio evolutivo de São Paulo. Típico.

É o que sobra para o petista hoje: acreditar nos áulicos e rumar a um terceiro lugar na eleição do ano que vem. A desconexão de Haddad com a complexa cidade em que vive, dedicando seu tempo a tentar transformar quem considera “coxinha” no supracitado Novo Homem, é significativa do melancólico fim do petismo como o conhecemos.

Epílogo que ganha contornos dramáticos com a proximidade das apurações da Lava Jato com a campanha de Dilma e o esperneio interminável de Lula para tentar salvar seu legado.

Em favor do prefeito, ninguém pode chamá-lo de incoerente. Ele escrevia sobre os desafios da economia soviética quando o Politburo já estava decomposto. Se realmente perder a cadeira, poderá dedicar-se em suas aulas na USP às “mulheres sapiens” trazidas à luz por Dilma Rousseff.

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