Um impeachment, algumas premonições e uma foto que desejo recuperar

Nela, nessa foto, estou em uma passeata pelo impeachment de Collor. Saiu na Veja São Paulo, em algum momento do segundo semestre de 1992 – em setembro…? Se alguém a tiver ou souber acessá-la, agradeço. Infelizmente, não guardei, se a houvesse conservado, bastaria passar no scanner.

Estive em muitas reuniões e outras manifestações anti-Collor, inclusive aquela do Anhangabaú, quando ouvi Lula e outras lideranças discursarem. Essa em que fui fotografado, participava de um encontro de entidades culturais na Câmara Municipal, ao término saiu a manifestação convocada, se não me falha, pelo Sindicato dos Artistas, o ator Perry Salles pegou meu braço e me postou na linha de frente, na primeira fila. Fomos até o Municipal. Não reparei, mas a TV Globo também cobria. Ao chegar em casa, encontro a vizinha algo desentendida no elevador: “Eu vi o senhor na televisão…!” Perguntou: “O senhor é do PT..?” Não lembro qual foi minha resposta irônica, “Nem tanto”, “Às vezes”, “Talvez”, “Não sei”, algo assim.

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Madrugada deste domingo, dia 05/07. Sonhei que Dilma Rousseff era destituída. Apareciam uns rapazes de uniforme cinza claro com braçadeira ou alguma insígnia vermelha – pareciam confederados norte-americanos, bem jovens. Liderava-os uma “Deles Ortiz”. Acordei tentando lembrar-me: quem seria “Deles Ortiz”? – artista? amiga de Facebook? Consulto o Google: é Delia Ortiz, a jornalista da Globo que fez a cobertura do impeachment de Collor. Imaginem só – o que o inconsciente guarda…! Na época, não prestei atenção em nomes dos jornalistas da TV que cobriam aquela mobilização.

Governo Dilma acabou, dou por encerrado. A pergunta agora é sobre o modo através do qual será retirada. Preocupa-me a bagunça que vem aí. Na destituição de Collor havia uma aliança de forças políticas bem definida, uma espécie de arco progressista com Dr. Ulisses, outros peemedebistas históricos, Lula e petistas, Montoro, Covas e outros tucanos. E um vice excêntrico que se mostrou viável, Itamar. Agora…. agora, o fisiologismo desenfreado e a liderança o populismo reacionário de Eduardo Cunha e afins. Nem os tucanos conseguem somar-se. Serra e Alckmin competem com Aécio, também querem… Se não houver algum entendimento, algum pacto de governabilidade, será o caos. Além disso, Collor foi uma excrescência – ainda é. PT é grande, tem história, bases, colapso terá características de um desastre.

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Sonhos premonitórios? Todo mundo tem. Da torrente de produção simbólica durante o sono algo se ajusta, de um modo mais ou menos direto, aos acontecimentos. Fico com Freud: sonho é realização delirante de um desejo. O que se expressava através de meu sonho? Desejo de que Dilma seja destituída? Não, essa não merece um sonho. Aparecer como assunto de sonho corresponde ao que Freud designou como “restos do cotidiano”. Em breve, restos ou sobras da história. Sonhos não traduzem o óbvio. Desejo de retornar a 1992? Pode ser. Período intenso aquele, de 1990 a 92. Causei, agitei a propósito de Collor. No dia em que Ipojuca Pontes (seu infame secretário de cultura) caiu, a TV Cultura veio em casa, gravaram-me festejando, tripudiando.

Quando Collor tomou posse em 1990 e baixou o pacote de medidas econômicas, publiquei página inteira no Jornal da Tarde argumentando que não chegaria ao fim do mandato. Também sustentei que os discursos de Collor e Lula eram equivalentes, fundados no ressentimento. Petistas inteligentes elogiaram. Essa matéria eu tenho, guardei, vou passar no scanner e reproduzir aqui. Não precisei sonhar para antecipar o que viria.

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Postei no Facebook o link para o caderno do Estadão “Favela Amazônia”. Este: http://infograficos.estadao.com.br/public/especiais/favela-amazonia/ Terrível. Governante que dá ensejo a coisas assim merece rejeição e defenestração. Já argumentaram, em resposta a minhas postagens ambientalistas e em favor de índios, que governos petistas reduziram miséria. Não percebem que degradação do meio ambiente acarreta um custo, um enorme prejuízo, uma conta paga pelos mais pobres? Que devastação agrava a desigualdade social? Alguns se beneficiam; maioria é prejudicada, direta ou indiretamente. Obviamente, isso também é verdade com relação a desvio de dinheiro público. Devastação e corrupção confluem em empreendimentos como a usina de Belo Monte, a cargo de Odebrecht e afins.

Continuo querendo saber o que Délia Ortiz veio fazer em meu sonho. Enigmas e mistérios. Torço para que achem a foto de 1992, poupando-me de ir até a editora Abril. Ou então, vou lá – alguém me daria carona?

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One response to this post.

  1. Bom, eu devo ter um viés pessimista, tanto que chego a pensar que “ruim com ela pior sem ela”. De fato o quadro político é outro da época do governo Collor, e me parece um tanto preocupante. Na época por exemplo não tínhamos as redes sociais, hoje talvez quem decida as eleições não seja mais a Globo do Collor. O que tenho visto tomando por base as manifestações das redes é o aumento cada vez maior do racismo, da homofobia, do machismo, enfim da intolerância generalizada. Fico assustada por exemplo quando vejo pessoas defendendo o Bolsonaro e o apoiando para presidente, sem falar da força da bancada evangélica. Concordo inteiramente com a questão da amazônia, uma região que tem sido explorada ao longo do tempo, desde a ditadura militar. A Transamazônica até 2014 não havia sido finalizada, depois de 40 anos. Nada porém justifica que no governo atual as coisas só tenham piorado para a região. Mas fico imaginando as opções que temos e como serão nas redes as próximas eleições para presidente, espero que a democracia não esteja em perigo, que eu esteja exagerando e meus receios sejam um equívoco.

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