“Fascista”, eu…? Algo sobre sectarismo e fanatismo, militância e ignorância, política e hipocrisia

  1. Ao divulgar sua entrevista com Augusto de Campos na mais recente edição da revista Cult, Claudio Daniel abriu seu post assim: “Trechos da entrevista que fiz com Augusto de Campos, publicada na edição de agosto da CULT. Enquanto alguns poetas — Ferreira Gullar, Claudio Willer — fazem coro com os fascistas, Augusto defende a democracia, o estado de direito e o mandato democrático de Dilma Rousseff. VIVA AUGUSTO — Sem média, sem mídia, sem medo.” Circula no Facebook: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=10207421905050076&id=1360873354&notif_t=close_friend_activity
  2. É uma canalhice. Na carona do interesse suscitado pela entrevista, veicula a difamação associando-me ao fascismo, chegando a leitores que nem sabem quem sou e quais são minhas posições políticas. E Claudio Daniel estava cansado de saber que não rezo pelo mesmo catecismo que ele. Entrevistou-me umas tantas vezes, escreveu sobre minha poesia, convidou-me para dar palestras e outras manifestações por sua conta e risco, nunca pedi. Assim como nunca comentei ele estampar fotos de soldados da Coréia do Norte como exemplo de resistência, nem a exaltação do Camarada Stálin como guia dos povos. Pobres dirigentes petistas, foi o que sobrou para apoiá-los, gente que pensa assim.
  3. Na eleição para prefeito de 2012 declarei voto em Carlos Gianazzi do PSOL. Já postei lamentando que Jean Wyllis e Marcelo Freixo não fossem de São Paulo para poder apoiá-los. Elogiei a brilhante atuação parlamentar de Ivan Valente na CPI do Petrolão, ajudando a mostrar que a sistematização da propina, como política partidária, começou mesmo em 2003. Mas não votei em Luciana Genro na eleição passada; achei-a fraca, repetidora de chavões. Tenho politizado palestras sobre literatura, valorizando a crítica de beats e surrealistas dirigidas tanto à sociedade burguesa quanto ao “socialismo real” soviético. Faço isso há décadas, como pode ser visto em meu Manifestos : 1964 – 2010 (editora Azougue, 2013). Nunca me converti, nunca virei o fio.
  4. Quando me manifestei sobre a brutal desocupação do Pinheirinho em São José dos Campos pela PM paulista, em 2011, perguntaram-me se havia aderido ao PSTU. Se fosse hoje, publicaria os mesmos comentários. Na época, proliferaram as invectivas ao governador de São Paulo, Alckmin, chamando-o de “fascista”. Não. Político provinciano, conservador e mal assessorado é uma coisa, fascista é outra. Uso demagógico de categorias políticas inutiliza-as.
  5. Lembro-me de uma palestra de Roberto Piva sobre Pasolini, em 1999, citando as análises do fascismo pelo poeta, pensador e cineasta para argumentar que o PT é um partido fascista. Pena não ter sido gravada e transcrita. Traços em comum: base sindical (lembrando que o fascismo de Mussolini começou como anarco-sindicalismo, combinado com defesas do estado forte como as de Sorel e afins) e a mobilização de movimentos sociais, possibilitando a Marcha sobre Roma – no caso brasileiro, equivalentes seriam, para Piva, MST e afins.
  6. Enigmas e mistérios: por que Lula não tentou perpetuar-se através do caudilhismo tão tipicamente latino-americano, centralizando o poder, subordinando instituições? Índole democrática? Pragmatismo? Falta de condições objetivas? Nem todos os companheiros estavam predispostos ao assalto ao poder? Foi freado pelas alianças com lideranças democráticas e oligarquias locais e regionais, que não estavam interessadas nisso? Vou tentar saber, perguntar para pessoas mais próximas a ele.
  7. Claudio Daniel rompeu comigo quando postei no Facebook o link de uma matéria do UOL discutindo impeachment de Dilma, em março deste ano. Tema tabu para alguns. Era um texto objetivo, cotejando pareceres de analistas políticos e juristas, para concluir que não era viável. Mas eu já achava que iria acontecer. Meteorologia é mais exata que política; e previsões do tempo não interferem nas nuvens e nos ventos. Mas me sinto como alguém que avisa que vem aí uma tempestade, e é acusado de ser a favor da tempestade e de acreditar no terrorismo midiático do noticiário do tempo.
  8. O argumento mais frequente contra a saída de Dilma: foi eleita com não sei quantos milhões de votos. Tem um bom antecedente literário: “Ao vencedor as batatas”. Mas o personagem que repetia isso estava louco, delirava. E aqui, entro no tópico “hipocrisia”. O sujeito do PC do B que me telefonou em algum momento da década de 1990 convidando-me a participar de um “fora FHC” agora é firmemente legalista. Alguns que se mobilizaram pelo impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992, também. O jurista, em uma das reuniões logo após sua eleição, em 1990 (resultaram em um ciclo de palestras anti-Collor na PUC), que distinguiu entre legitimidade do poder e legitimidade no poder, para argumentar que o confisco justificaria impeachment. (Quem foi? Quem mais estava naquela reunião? Alguém se lembra?)
  9. Moralmente, chutar Collor se justificou pelo estelionato eleitoral ao garantir que não haveria confisco, e pelo procedimento durante a campanha, o episódio da filha de Lula e a edição do debate final pela Globo. Como a diferença de votos foi pequena, pode ser que isso tivesse feito a diferença. Moralmente, despachar Dilma e o restante se justifica pelo estelionato eleitoral: jurou que não haveria ajuste fiscal e política econômica recessiva, endossou uma campanha sórdida – até hoje, na Amaral Gurgel, está afixado o cartaz dizendo “eu não voto em quem bate em mulheres” com a foto de Aécio, além dos posts sobre ele usar cocaína e tal – um deles, o do Chico César ou atribuído ao Chico César, ironizei e isso me valeu insultos por símiles do Cláudio Daniel. Como a diferença de votos foi pequena, pode ser que essas artimanhas tenham decidido a parada. Fernando Henrique fez algo semelhante ao segurar Gustavo Franco e a insensata paridade do real e dólar, e só chamar o Armínio Fraga para endireitar aquilo depois de ser reeleito. Mas não difamou, não caluniou, não forjou dossiês sobre adversários. Ah, sim – privatizou, e isso alguns não perdoam: lamentam a enorme perda de empregos para a militância. Tiveram que multiplicar os cargos de confiança da administração direta e nas 140 estatais restantes.
  10. Outro argumento, os benefícios do governo petista para os pobres. Cito Augusto de Campos na entrevista da Cult: “Pouca atenção deu a mídia ao fato de que o Brasil conseguiu reduzir a pobreza extrema em 82% entre 2002 e 2013 e saiu do mapa mundial da fome, segundo atestado internacional da FAO.” Mas esse argumento, assim isoladamente, também justifica Adolf Hitler. Como vocês acham que ele se consolidou no poder? Só pelo ressentimento por causa da derrota alemão de 1918, pela propensão alemã ao autoritarismo e ao antissemitismo? Não. Chamou um economista brilhante, o banqueiro Hjalmar Schacht, que já havia segurado a inflação galopante de 1923 com um ajuste fiscal, e, com o apoio de Von Thiessen, junto com Ferdinand Porsche, os Krupp e outros magnatas, promoveu desenvolvimento econômico através de política industrial e obras de infraestrutura. Deu emprego e renda para os alemães. Melhorou os benefícios sociais – para quem fosse filiado ao partido, é claro. Isso, o bando de analfabetos políticos não sabe. Vão ler, vão estudar alguma coisa, em vez de repetir chavões da vulgata soviética ou da cartilha petista, reproduzindo os blogs “independentes” que recebem algum trocado do partido ou da SECOM para divulgar uma geopolítica de doido, explicando tudo pela intervenção do “imperialismo yankee”. Incrementar economia, Mussolini já havia feito isso na Itália e Hitler imitou. Roosevelt faria também, com o “New Deal”, assim como Juscelino aqui. Enfim, desenvolvimento econômico, crescimento da renda, melhora de benefícios sociais, em si, não justificam regime nenhum, e já consolidaram lideranças democráticas e os piores demagogos; já prepararam o terreno para avanços reais e para desastres.
  11. Melhora das condições de vida da população – sei… Os adeptos do “Ogro filantrópico”, para usar um título de Octavio Paz, fingem desconhecer que esses desvios de verbas públicas oneram os pobres, que são eles que pagam a conta. As obras faraônicas, quanto mais caras melhor para renderem mais propina, tipo Belo Monte e tantas outras, sempre intermináveis, sempre inconclusas, para reajustar os contratos, para faturar mais. Assim como o prejuízo ambiental – tópico que, para mim, por si só, justifica a defenestração de Dilma, que chamou para seu ministério a ideóloga do desmatamento. Ah, é porque precisa fazer alianças. Aí está outro argumento tipicamente stalinista. Fez aliança com Hitler, o pacto Molotov – Ribbentrop de 1939, que deu a luz verde para a invasão da Polônia, iniciando a Segunda Guerra Mundial.
  12. O futuro do país é perigosamente incerto, nessa altura. Difícil um pacto como aquele de 1992, do qual participaram lideranças políticas de verdade, Dr. Ulisses e afins. Isso também é legado petista , de seus aliados, dos seus apparatchiks, da base fisiológica, da militância obtusa. Justificam as mais implausíveis alianças. com o pior da política, como etapas no processo de emancipação do proletariado, de ascensão da classe trabalhadora, da inexorável marcha em direção à sociedade sem classes. Dizem que há retrocesso “na sociedade” – nada disso, eles é que são o retrocesso. Deviam ler algum livro bom, não só as cartilhas, a produção dos ideólogos do mais baixo escalão. Um Jorge Semprún, por exemplo – faz tempo que não se fala dele. A quantidade de autores que observa messianismo no marxismo ou em marxistas – crítica inicialmente feita por conservadores, Spengler e Heidegger, depois por autores difíceis de identificar a correntes, Octavio Paz, Roberto Calasso. Ou por John Gray, que critica em Missa Negra igualmente a esquerda marxista e os neo-liberais fundamentalistas tipo Bush, por acharem que estão enxergando o fim da história. Ou por um comunista de ninguém botar defeito, Jacob Gorender, com seu Marxismo sem Utopia (Ática, 1999). Alguma ampliação da cultura política, algum refinamento do debate ajudarão, em algum momento .
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9 responses to this post.

  1. Posted by Carlos Figueiredo on 07/08/2015 at 07:36

    O fanatismo é o grande inimigo. Por isso dediquei meu primeiro livro de poesia, “Estranha desordem”, às pessoas que não acreditam muito no que acreditam. O Claudio Daniel tem belos poemas, tem talento, mas nem isso o livrou do contágio. Para qualquer sujeito são sua síntese, Claudio,é defintiva. Mas, infelizmente, os fanáticos vão continuar a vociferar. A estirpe dos que não queriam descer das ávores é persistente.

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  2. Posted by Fernando on 07/08/2015 at 09:28

    Grande Willer. Tacale pau. Neguinho acha que pode compartimentar guerrafriasticamente as pessoas e as ideias dos outros – sua mais profunda consciência (e claro, sua manifestação) é binária e silogística, o que só é vantagem diante de um macaco. Diabo de burrice, antes fosse Santa ignorância. Jamais defenderei alguém que já tem o monopólio da força pra se defender. O vaso foi feito pra bola. Viva Sobral Pinto. Abraço, Willer! Respeito ao poeta.

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  3. Posted by Célia Musilli on 07/08/2015 at 12:03

    Artigo brilhante. Chamam a atenção a clareza dos argumentos, a desmitificação de certos chavões políticos, o conhecimento histórico e das causas que movem as consciências ou a sua falta. Parabéns!

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  4. Posted by Cesar Zanin on 07/08/2015 at 13:37

    Já li traduções de Willer, mas não conheço o Daniel e não conheço o Willer; ao ler os textos aqui vejo o uso de termos que considero descaracterizados. Eu não costumo usar termos como fascista ou comunista ao abordar a atual crise política brasileira. Apesar de haver mesmo gente que se considera fascista e comunista (agindo de acordo), são pouco numerosos em relação à grande maioria das pessoas que estão se manifestando, que a meu ver seriam melhor caracterizadas com termos como conservador ou progressista.
    Há rancor no texto, algo que remete a um problema muito presente: confundir as ideias com quem as tem ou defende. Ideas não merecem respeito, ou se concorda ou se discorda e pronto, mas todas as pessoas merecem respeito.

    Quanto à hipocrisia, não consigo ver hipocrisia alguma nas respostas de Campos a Daniel.
    Willer acaba deixando Campos de lado em seu texto para se defender de Daniel (atacando).
    Diferentemente do parágrafo introdutório no post do Daniel, e do texto de Willer, Campos fala sem citar teóricos, sem usar termos desgastados e sem a associação com essa ou aquela escola de pensamento; Campos fala sobre as coisas que estão acontecendo no Brasil atualmente sem a pretensão de categorizar. Dessa forma qualquer um consegue tomar parte.
    Já Willer busca avais deslocados no tempo e no espaço; a sede por conhecimento é útil e positiva, mas quando o repertório de quem discute é vasto há esse risco, de se afastar das coisas objetos da questões.

    Na única vez em que o texto de Willer aborda o que diz Campos, demonstra a fragilidade da argumentação: quem isolou o argumento dos programas sociais do PT para justificar Hitler foi o próprio Willer.
    O PT não persegue opositores (como fez Hitler e como aqui no Brasil fez a ditadura), o PT não busca o extermínio de quem quer que seja, Campos acertadamente fala sobre os avanços trazidos pelos programas sociais do PT, que são sim avanços reais, reconhecidos até pela ONU.

    Os desvios de verbas públicas a que se refere Willer realmente são vergonhosos e repugnantes, os corruptos devem ser punidos, mas deveria ser claro para alguém tõ culto que os desvios de verbas públicas dos escândalos de corrupção dos outros partidos são tão vergonhosos e repugnantes quanto os do PT.
    Antes de 2003 tudo acabava em pizza, hoje as investigações não são blindadas pelo governo federal e os corruptos petistas vão em cana (os dos outros partidos continuam agindo à vontade, infelizmente).

    Willer fala sobre a tal palestra de Piva, tomando o cuidado de manter a terceira pessoa no texto, mas acho que concordamos que é uma pena a palestra não ter sido gravada e transcrita por motivações diferentes… Considero descabido associar o PT ao fascismo. Com a transcrição da palestra conseguiríamos discutir melhor.

    Não votei no PT no primeiro turno, não sou petista.
    É chato pra mim ter que defender o PT desta forma e vejo isso em muitos outros progressistas, que acabam se vendo obrigados a defender o PT.

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    • Willer: haja paciência, né? O comentário desse César Zanin acima é abaixo de medíocre, típico pseudo-intelectual de miolo mole. E o Cláudio Daniel — ferro nesse mané!

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  5. Posted by Carlos Figueiredo on 08/08/2015 at 12:41

    Que coisa! Há um fato objetivo: V. foi chamado de fascista por um militante fanático. O que importa aqui é a distorção causado pelo fanatismo, causa de mais sofrimento desnecessário do que qualquer outra ameaça à espécie. O fanatismo é inaceitável e deve ser denunciado pelo que é. O resto me parece sofisma. Principalmente quando repete chavões.

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  6. Willer: haja paciência, né? O comentário desse César Zanin acima é abaixo de medíocre, típico pseudo-intelectual de miolo mole. E o Cláudio Daniel — ferro nesse mané!

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  7. Posted by Oliveira on 08/11/2016 at 18:34

    Ótimo texto!
    O conhecimento histórico serve pra isto mesmo: pra não se deixar cair em velhas “roubadas”.
    Quanto ao discordante: “o PT não persegue opositores e nem busca o extermínio de quem quer que seja”…? Parece que lá no ABC há pelo menos uma polêmica em torno deste tema provocada por um fato de grande repercussão nacional, cujos desdobramentos já se arrastam há mais de uma década e do qual algumas pessoas implicadas tiveram até que se refugiar na Europa…
    É impressionante como estes “progressistas”, muitos se dizendo até “revolucionários”, não conseguem desconfiar minimamente dos “porquês” de instituições que servem aos interesses da “nova ordem mundial” do capital, tais como a ONU, a legitimarem os governos do PT…
    Fanatismo pouco é bobagem…

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