Jack Kerouac, budista e crítico radical

jksomeof

Traduzindo Some of the Dharma para a L&PM. Escolhi como título Coisas do Darma. Imenso, dará umas 600 pgs, vai demorar para sair. Escrito com a intenção de “converter a humanidade”, foi sendo encaminhado por ele a editores para receber sucessivas rejeições, só publicado em 1997.Tem de tudo: reflexões, notas de leitura, comentários, trechos de diários, poemas. É a profusão do fragmento. Contrasta com os organizados Scripture of the Golden Eternity, o sutra que criou por sugestão de Gary Snyder, límpida série de poemas em prosa, e Livro de haicais, que já traduzi. Acho que também podem ser incluídos na sua temática budista o pungente Tristessa, que aprecio muito, além, é claro, de Vagabundos Iluminados, The Dharma Bums – disponíveis pela L&PM. A comparação desses livros mostrará a diversidade, quando não a variabilidade da escrita de Kerouac.

Escolhi como primeiro teaser (farei mais), este trecho:

A idéia do Padre-Operário, de compartilhar o sofrimento dos trabalhadores, eu acredito que seu nome é Abbé Pierre e Bob Lax me mostrou uma foto dele na Revista Jubilee sentado com as pernas dobradas debaixo de si, pode se tornar a involuntária ferramenta do Capitalismo Totalitário, ou Trabalhismo, se não prestar atenção — Uma bela sociedade de ficção científica assustadoramente dividida entre Pios Trabalhadores Sofredores e Irreligiosos Patrões Contentes — em favor da “Produção”, na qual eu receio que o Abbé Pierre acredita, uma vez que ele evidentemente não acredita em Desabrigo para os Irmãos. E na Pobreza e Castidade para os Leigos.

O Tao Chinês diz: “Não perturbe a sua essência vital.” O sofrimento dos trabalhadores em todo o mundo nunca produziu uma fatia de pão ou uma saca de vagens dos férreos cintos de castidade deles. É uma quimera, insanidade. Não há necessidade de carros, não há necessidade de rádios, não há necessidade de metrôs, não há necessidade de canhões, não há necessidade de isqueiros, não há necessidade de óleo ou de aquecimento a óleo, não há necessidade de copos de plástico, não há necessidade de canhões, não há necessidade de guerra e, sobretudo, não há necessidade da necessidade, que a “Produção” só multiplica.

Só há necessidade de respiração, comida, repouso e meditação santa.

O original:

The Worker-Priest’s idea, of sharing suffering of workers, I believe his name is Abbé Pierre and Bob Lax showed me picture of him in Jubilee Magazine sitting with legs folded under him, may become the unwilling tool of Totalitarian Capitalism, or Laborism, if he doesn’t watch out — A nice science Fiction society eerily divided into Suffering Pious Workers and Areligious Contented Employers—for sake of “Production” which I’m afraid Abbe Pierre believes in since he evidently doesn’t believe in Homelessness for the Brothers And in Poverty and Chastity for Laymen

Chinese Tao says: “Perturb not your vital essence. “ The suffering of workers all over the world has never produced one loaf of bread or one apronful of stringbeans from off those bloody iron belts of theirs. It’s a chimera, insanity. There is no need for cars, no need for radios, no need for metros, no need for cannons, no need for cigarette lighters, no need for oil or oil heat, no need for plastic cups, no need for cannons, no need for war and above all no need for need, which“Production” merely multiplies.

There is only need for breath, food, rest and holy meditation.

“Iron belt”, certifiquei-me com um amigo mais anglófono que eu de tratar-se de um cinto de castidade – mas como “iron” é forte, não resisti à dupla tradução e fiz “férreos cintos de castidade”.

Em breve, publicarei um trecho de Artaud, das palestras no México, igualmente recusando socialismo como ideologia do trabalho, equiparado ao capitalismo. Convergência de críticos radicais. Loucos, na opinião de alguns.

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3 responses to this post.

  1. Curiosamente,
    o Paul Lafargue fez uma crítica radical dessa ideologia do trabalho (que para ele contaminara o pensamento socialista) no Elogio à Preguiça, e Walter Benjamin, nas ‘Teses Sobre o Conceito da História’, por outro lado, fará uma crítica ao ‘progressismo’ presente entre os comunistas e na obra do próprio Marx, de modo que Artaud não estava só…
    Abs, Gledson

    Responder

  2. Posted by elizabeth lorenzotti on 31/08/2015 at 16:51

    a ideia de “progresso” tambem nao encontra ressonancia entre budistas. há um interessante escritor , creio que Suichi Maeda, que discorre sobre .

    Responder

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