Hans Bellmer, Roberto Piva e a metralhadora em estado de graça

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Ao preparar aula recente de surrealismo, pesquisando Hans Bellmer, o das bonecas e corpos metamorfoseados, achei a montagem “A metralhadora em estado de graça”, que ilustra esta postagem. Lembrei-me da mesma imagem no “Poema vertigem” de Piva, publicado em Ciclones e que transcrevi em meu artigo sobre sua relação com surrealismo, publicado em Etomia. Coincidência ou apropriação? Citação proposital ou inconsciente funcionando? Não saberemos. De todo modo, a alusão a Bellmer adiciona sentidos – ou reitera, pois, afinal, o assunto de ambos parece ser sexo polimorfo. Certamente, inúmeras de suas imagens classificadas como “delírio” e jogo gratuito escondem alusões e referências Leitores e críticos devem sempre desconfiar, além do que já sabemos e foi tema de ensaios e artigos – os mais recentes na série Roberto Piva vida poética de Ricardo Mendes Matos, leitor dos mais desconfiados e aguçados, que prefaciei: http://robertopivavidapoetica.blogspot.com.br/

“Poema vertigem”:

Eu sou a viagem de ácido

nos barcos da noite

Eu sou o garoto que se masturba

na montanha

Eu sou tecno pagão

Eu sou Reich, Ferenczi & Jung

Eu sou o Eterno Retorno

Eu sou o espaço cibernético

Eu sou a floresta virgem

das garotas convulsivas

Eu sou o disco voador tatuado

Eu sou o garoto e a garota

Casa Grande & Senzala

Eu sou a orgia com o

garoto loiro e sua namorada

de vagina colorida

(ele vestia a calcinha dela

& dançava feito Shiva

no meu corpo)

Eu sou o nômade do Orgônio

Eu sou a Ilha de Veludo

Eu sou a Invenção de Orfeu

Eu sou os olhos pescadores

Eu sou o Tambor do Xamã

(& o Xamã coberto

de peles e andrógino)

Eu sou o beijo de Urânio

de Al Capone

Eu sou uma metralhadora em

estado de graça

Eu sou a pomba-gira do Absoluto

 

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2 responses to this post.

  1. Belo poema, bala para todo lado!

    Responder

  2. Este texto seria todo apropriação, pelo o visto, mas o verso que mais encanta pela sensibilidade com a qual alveja é, não sei (por não saber a extensão que tomou o título da obra de Bellmer), … é um daqueles raros casos em que o mestre superou o discípulo, se se pode assim dizer. Plástica vs verso. Objeto vs Eu (sou). Não sabia que vinha do Bellmer. Obrigado, seu Willer.

    Responder

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