Xavier Forneret (1809-1884), um grande excêntrico literário

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Alcunhado de “o desconhecido do Romantismo”, “o homem negro de rosto branco”, tido como um representante do “romantismo frenético” francês. Contribuiu para seu resgate a inclusão na Antologia do humor negro de André Breton, que, acertadamente, caracterizou seu texto como precursor de Lautréamont e sua biografia como precursora de Raymond Roussel. Proprietário de vinhedos na Borgonha, Forneret dilapidou sua fortuna para publicar uma obra caudalosa e encenar peças que deixavam perplexo o público; isso, de permeio a manifestos políticos mais estranhos ainda.

Agora disponível para o leitor brasileiro com Nada, seguido de Alguma coisa, em mais uma importante tradução de Eclair Antonio de Almeida Filho e Odúlia Campelo. Bela edição da Nephelibata, ilustrada por Aline Daka. Pode ser encomendado em edicoesnephelibata.blogspot.com . Vem com prefácio de Floriano Martins, informativo e claro, que traz um “extra”, a tradução de “Um pobre vergonhoso”, o poema com o relato detalhado sobre um famélico que tira a própria mão do bolso e a devora.

Sem maiores comentários, copio e reproduzo o final de Nada, relato de um fantástico encontro de Lord Byron, Youg (o iniciador do romantismo inglês) e Voltaire. Dá uma boa idéia do estilo exuberante, hiperbólico ou desenfreado de Forneret:

Há dois anos, tu me predisseste glória e sucessos; onde está, pois, essa glória? Onde estão, pois, esses sucessos? Sempre nada ou quase nada! Oh! Cala-te, cala-te ! Eu já to disse, creio eu, mas eu to repito ainda: parece-me que eu poderia ter sido alguma coisa, se a cultura do meu espírito se houvesse feito em tempo oportuno, se a saúde brilhasse, pois, vejas, eu não me porto jamais bem; se, enfim, a mediocridade, a miséria quiçá, não viessem sem cessar mostrar-me seu corpo através de seus farrapos pútridos e pendentes, eu terei frio quiçá; oh! Temo ter frio. Terei fome e morrerei sem socorro, pois ninguém saberá de minha desgraça. Escreverei com tinta, que degelarei com meu sopro; quantas vezes meu estômago terá gritado por minuto: alimentos! alimentos! quantas vezes terei buscado corroer coisas que terão corroído os meus dentes e rido das minhas entranhas; e se a necessidade e a inanição não obscurecem demasiadamente os meus olhos; se a tinta não se torna demasiadamente dura; se posso ainda soprar sobre ela; se a minha mão não é demasiadamente rígida por crispações dolorosas, então notarei que vi desde a minha janela sob as telhas, e quebrada para todos os ventos, e aonde as minhas torturas ter-me-ão arrastado; inscreverei sobre minha última folha, pois terei tudo vendido para poder ainda escrever; inscreverei, pois, apoiado sobre a pedra fendida pelo gelo, quantas tripulações reluzentes, em coxins suaves e de seda, cuja compra de cada franja bastaria para alimentar, por um dia, ao menos uma mãe e duas crianças; direi quantas mulheres e quantos homens estendidos nesses carros, com pernas tão boas e deveras melhores do que as de seus cavalos portentosos e cheios; direi quantos ricos e felizes opressores terão corrido, a cabeça fresca e risonha, sob uma cabeça nua, branca e fixa como a de um morto, com olhos abertos e esgazeados como os de um guilhotinado.

Meu porvir! meu porvir! é cobre pleno de ferrugem o meu porvir!

 

– Sim, senhores, eis o que eu escrevera a essa excelente Madame de…; e, no entanto, estou morto aos oitenta e quatro anos…, e tornei-me…

– O que vós sois, diz Byron, um homem alto de noventa e cinco volumes.

– Que seja; mas basta: não falemos mais de mim; meia-noite virá, o sino de antequarto a anuncia; o vendaval continua, a chuva que cai não destinge a noite; não há nada além de relâmpagos que abrem por instantes o céu. Vamos, Byron, buscai em vossas recordações de vida alguma coisa para nos contar antes que subamos novamente sobre nossas tábuas. E o que dizeis, Young?

– Eu digo: sim.

 

(A continuação para um outro ano)

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One response to this post.

  1. Não conhecia. Lerei! Obrigado pela informação. Um abraço.

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